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À beira do lume

Setembro 13, 2007 por materialdidactico

À beira do lume

Sossegadas as balbúrdias do dia, já a noite vinha devagarinho deitar pozinhos de sono por aqui e por ali.

Sentadas à lareira da velha casa, a avó e a neta começaram a pensar qual havia de ser a última história do dia.

— Conte lá a história da Carochinha! — pediu a Mariana.

A avó admirou-se:

— Outra vez?! Mas tu nunca me deixas acabar como deve ser…

— Hoje deixo! — prometeu a menina.

E a avó contou a história da Carochinha, como ela é conhecida. Falou da Carochinha à janela, toda contente por ter encontrado uma moeda ao varrer sua casinha:

— Quem quer casar com a Carochinha, que é formosa e bonitinha?

— “Quero eu, quero eu!” — tinham dito um cão, um gato, um galo, um boi, um burro…

Mas a Carochinha não tinha gostado da voz de nenhum deles e todos se tinham ido embora. Até que apareceu um ratinho: “Quero eu, quero eu!”

— Oh, como és engraçado! Ora fala um bocadinho, para eu ouvir bem a tua voz!

— Chi… Chi… Chi…

— Que linda fala! Vamos já casar! Vamos já casar!

E assim foi. No dia da boda, já iam a caminho da igreja para o casório, quando a Carochinha deu por falta de uma luva que tinha esquecido na cozinha, ao mexer o panelão que fervia ao lume.

— Vou já buscar a luva! — disse o ratinho, muito amável.

— Tem cuidado, não te debruces no caldeirão!!! — avisou a noiva.

— Bem — continuou a avó — o ratinho foi até à cozinha e…

A neta, que ouvia a história com muita atenção, disse de repente: — Mas a porta estava fechada!!!

A avó continuou:

— Pronto, a porta estava fechada e então o ratinho foi logo a ver da chave…

— Mas não a encontrou!!! — disse muito depressa a Mariana.

— Bem — continuou a avó — o ratinho então subiu a um postigo de grades que dava para a cozinha, e…

— Viu que não cabia por entre as grades!!! — acudiu muito aflita a Mariana.

A avó não desistiu:

— Bem, então o ratinho, que era muito esperto e queria ir buscar lá dentro da cozinha a luva da Carochinha, pôs-se à procura de um buraco na porta pelo qual entrasse…

— Mas não encontrou!!! A porta era nova! — interrompeu a Mariana

— Bem, então não pôde ir buscar a luva da Carochinha à cozinha e voltou muito triste para junto da sua noiva, que…

— Ó avó, escusa de dizer agora que ela lhe deu a chave da cozinha, porque eu sei que não deu nada!!! — quase gritou a neta.

— Por acaso era isso mesmo que eu ia dizer… — riu a avó.

E as duas, avó e neta, ali ficaram a rir e a brincar à beira do lume e à beira de uma velha história da Carochinha que a neta não queria, por nada deste mundo, que acabasse…

com o João Ratão

cozido e assado

dentro do caldeirão!

Maria Alberta Menéres

Histórias de tempo vai tempo vem

Porto, Edições Asa, 1988

Publicado em conto, contos infantis, crianças, educação, família, histórias, imaginação, infância, pedagogia | Sem comentários ainda

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