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Archive for the ‘amizade’ Category

O caderno estragado

Bárbara estava furiosa. Já tinha o dia inteiro estragado. Não, o ano inteiro!

Começara o novo ano escolar com cadernos novos, lápis de cor novos e uma caneta de tinta permanente novinha em folha. Tomara a resolução de anotar e aprender tudo direitinho, logo desde o primeiro dia. Principalmente em Alemão. A professora Joana tinha sido tão simpática! E não é que Doli passou o tempo a segredar-lhe ao ouvido a letra daquela canção que decorara no Verão? Claro que a professora Joana disse imediatamente:

— Vocês não preferem ouvir, em vez de conversarem uma com a outra?

“Vocês”! Ela até estava a prestar atenção à professora! Toda a atenção que conseguia, aliás, só que o ouvido esquerdo estava ocupado por Doli, que lhe sussurrava:

Mar de prata e areia branca
Que saudades da praia…
Bárbara já estava a ficar surda com os cochichos. Que texto mais estúpido!

— Chiu! — fez ela.
A professora Joana lançou-lhe um olhar de advertência.

“Mas porque é que fui sentar-me ao lado da Doli?”

Doli segredava:

— Espera, eu escrevo-te o texto.

Pegou na caneta de tinta permanente de Bárbara, deu algumas voltas à carapuça, e foi então que tudo aconteceu. Um enorme pingo de tinta caiu no caderno de Bárbara e espalhou-se. Um borrão de tinta escuro e horrível.

Bárbara arrancou a caneta das mãos de Doli.

— Estás maluca?

— Caladas! — gritou a professora. — Se têm mesmo de discutir, discutam no intervalo! Agora está calada, Bárbara, se não, vou ter de vos separar!

Bárbara recostou-se para trás e cruzou os braços.

“Ora isso é que seria uma óptima ideia, tirar-me daqui a Doli”, pensou, fixando o borrão com um olhar irritado. O caderno de alemão estava estragado e a professora estava zangada com ela.

Quando chegaram à paragem do autocarro, já lá estava Francisco, o irmão de Bárbara. Bárbara correu para ele e cumprimentou-o. E, no autocarro, sentou-se ao seu lado, coisa que nunca fazia. Francisco admirou-se. Depois, viu a cara de Doli e percebeu que as duas meninas estavam zangadas uma com a outra. Bárbara fazia de conta que Doli não existia.

Francisco já estava habituado. Aquelas coisas geralmente demoravam um dia ou dois e, no fim, as duas voltavam a ser as melhores amigas uma da outra.

— Como é que correu a escola? — perguntou a irmã. — O Manolo voltou a aborrecer-vos?

Francisco assentiu com a cabeça.

— Manolo, o parolo.

Bárbara riu alto. Doli que ouvisse só como ela estava a divertir-se com o irmão.

— Imagina o que me aconteceu — contou Francisco. — Fiz um borrão de tinta no caderno de matemática do Ricardo!

— Tu?!

— Sim. Tem de se ter cautela com as canetas de tinta permanente. Quando se roda a carapuça na direcção contrária, a tinta sai toda! — Francisco riu-se. — Bem, o Ricardo ficou tão zangado! Mas eu peguei no caderno e do borrão fiz um polvo.

— Um quê?

— Um polvo… e à volta desenhei uma paisagem subaquática, com corais e tudo, e pintei uns peixes! Ficou fantástica!

Francisco estava convencido de que um dia iria tornar-se um grande artista. E sabia desenhar mesmo bem.

— A princípio, o Ricardo queria arrancar a folha, mas depois acabou por deixá-la ficar e agora até está todo orgulhoso dela.

Bárbara olhava pensativa pela janela. Se nesse momento tivesse contado: “Olha, a Doli fez-me um borrão no caderno de Alemão! E estragou-me o dia!”, provavelmente o Francisco não ia compreender o motivo do alvoroço. Até mesmo Bárbara já não percebia porque se tinha zangado tanto.

“A Doli nem fez de propósito!”, pensava.

À saída do autocarro, Doli queria ir-se embora o mais depressa possível. Bárbara chamou-a.

— Espera! Vens hoje à tarde a minha casa?

Doli parou indecisa.

— Prometeste-me que ias escrever no meu álbum novo!

Doli percebeu que Bárbara queria fazer as pazes com ela.

— Está bem, escrevo-te um poema fantástico… para compensar o caderno estragado!

— O quê? Ah, estás a falar da mancha de tinta! — disse Bárbara. — Não te preocupes. O Francisco vai fazer-me dali um quadro. Ele tem muito jeito para essas coisas.

Monika Pelz

Jutta Modler (org.)
Frieden fängt zu Hause an
München, DTV Junior, 1989
Tradução e adaptação

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A aluna estrangeira

Chama-se Salima, a nova da turma.

Não é uma menina calada e tímida, como Gabi. Salima faz-se notada em todo o lado.

Fala mais alto do que os outros. Veste roupas mais garridas do que a maioria. E não deixa que lhe preguem partidas.

Por isso, as crianças tentam arreliá-la constantemente. Diverte- as enfurecerem Salima, ouvi-la gritar, vê-la debater-se à volta delas.

Troçam dos seus cabelos encarapinhados, do nariz largo e da pele escura.

Salima é negra.

Fala bem alemão porque veio para a Europa com os pais quando ainda era bebé.

Gabi acha graça a tudo na nova menina.

Gosta dos olhos grandes, da voz gutural, da pele cor de chocolate.

Quando Salima ri, ri-se com o corpo todo. Quando está furiosa, parece um vulcão, onde tudo ferve.

Gabi emprestou logo o seu caderno à nova aluna, para ela copiar as lições. Com ela, Salima nunca é atrevida ou rude. Quando a deixam em paz, ela é igual aos outros.

Mal a menina estrangeira chegou à turma, há um mês, a escaramuça começou imediatamente:

— Uma preta! — disse Bettina bastante alto. Está sentada ao lado de Gabi e é a sua melhor amiga.

— É negra! — disse Georg arregalando os olhos.

A cozinheira negra já cá está…já, já, já…[1] — trauteou Inga baixinho, da penúltima carteira.

Infelizmente, a pior é Bettina. Tem sempre alguma coisa a apontar à nova menina. A culpada disso é a mãe. Até a proibiu de voltar da escola para casa com “essa preta”. A mãe nem conhece a menina estrangeira mas, mesmo assim, não gosta dela.

— Não é de cá — diz. — Vê-se à distância de dez metros que é diferente de nós.

Bettina também acha.

Gabi não percebe. “Isso não é motivo nenhum para não se gostar de alguém”, pensa. “Até é feio excluir-se uma pessoa, só porque ela tem um aspecto diferente do nosso.”

Gabi sabe o que é não pertencer ao grupo, porque também já foi nova na turma e ainda não há muito tempo. A nova, com os dentes da frente grandes e o nariz demasiado comprido. “Peixe Espada”, foi como lhe chamaram na altura. Precisou de um ano inteirinho até conseguir aguentar, sem chorar, a troça dos outros.

Mesmo assim, foi-lhe mais fácil do que o é agora para Salima. Porque Gabi é branca. Gradualmente, foi conseguindo ultrapassar o medo em relação aos outros.

Mas Salima nunca conseguiria esconder a sua pele escura.

Gabi gostaria de dizer aos outros da classe que a nova só é atrevida porque tem de estar sempre a defender-se. Porque não a deixam em paz de uma vez por todas? Só que tem medo de se pôr claramente do lado da menina estrangeira. Bem lhe quer mostrar que gosta dela, mas os outros não podem notar.

Não gostaria de vir a ter a maioria dos colegas contra ela, como antes, quando chegou como nova à turma.

Mesmo assim…

“Tenho de arranjar maneira de mostrar à Salima que estou do lado dela”, pensa Gabi. “E que gosto dela.”
Às vezes, no fim das aulas, depois dos outros já terem saído, Gabi atrasa-se de propósito para ficar mais um pouco com Salima, que demora sempre muito tempo a arrumar as coisas e a metê-las todas na pasta.

De repente, cai-lhe o estojo das mãos, e todos os lápis, os lápis de cor, duas borrachas e um pedaço de chocolate já mordido rolam para debaixo da carteira.

— Vá, eu ajudo-te — oferece-se Gabi.

Deitadas de barriga para baixo, tentam “pescar” o material escolar e o chocolate. Assim, ao tentarem chegar ao mesmo lápis ao mesmo tempo, chocam com os narizes uma na outra debaixo da carteira.

— Ai! Ui! — exclamam em coro, esfregando os narizes amachucados. E desatam a rir.

Salima diz de repente:

— Tu és simpática, sabes, mas os outros… E faz um gesto de desprezo com a mão, que mais parece uma tentativa de nadar, porque Salima ainda está deitada. Gabi levanta-se e sacode o pó das calças.

Salima gatinha para fora da carteira, mas fica sentada no chão.

— Sabes — diz, apontando para a sala vazia — se não lhes fizer frente desde o início, acabam comigo. Aprendi isto quando ainda era pequena e nos mudámos para cá. Algumas pessoas comportam-se de forma muito estúpida só porque sou de pele escura. Acham que tenho de me sujeitar a tudo!

Salima levanta-se e mantém-se direita.

— Mas de mim não conseguem nada. De mim, não!

Por momentos, parece que vai chorar, mas não.

Gabi admira a menina estrangeira por ter a coragem de não se submeter. Ela própria tinha-se sempre escondido na sua casinha de caracol.

Encolhida, amedrontada, magoada nos seus sentimentos.

Salima, no entanto, é um pouco como um ouriço-cacheiro. Mal há sinal de perigo, fica logo eriçada. Ela até é bem-disposta e gosta de rir. “Só temos de afastar os picos um pouco para o lado e de não a provocar,” pensa Gabi. “E também de ser amáveis para com ela. Porque é que a maioria não percebe isso?”

A maior parte dos meninos não se deu sequer ao trabalho de tentar compreender a nova colega. Só pensam em ofendê-la. Ela grita, mas ri logo a seguir. Pode-se pisá-la. Ela responde, mas, quando vai para casa, vai a cantar.
Aguenta muita coisa. É mesmo bom que haja na turma uma aluna como ela. Ao menos, há mais animação.

É sempre Bettina quem desafia a menina negra e quem provoca os outros. Como agora.

Bettina faz pontaria com a borracha às costas de Salima. A borracha faz ricochete e salta de novo para a mesa. A brincadeira repete-se quatro, cinco vezes.

Alguns já se riem.

— Palerma! — grita Salima, que já começava a ficar farta.

— Acalma-te — diz Paul, com uma voz zangada e dura, ele que nem tem nada a ver com o assunto.

— Deixa-a em paz! — mete-se Alexa, que está sentada ao lado de Salima.

Alexa tomou o partido de Salima. Ela pode dar-se ao luxo de dizer abertamente o que pensa.

“Como ela é querida por todos, pode admitir que gosta da nova”, pensa Gabi.

Com Gabi é mais do que “gostar”. Ela sente com Salima. Pelo que teve de passar, ela sabe que a nova menina tem aguentado. Sente pena dela. Lá por Salima, aparentemente, reagir melhor do que Gabi reagiu, não quer dizer que não se sinta também ferida.

“Tenho mesmo de fazer alguma coisa”, pensa Gabi. “Tenho que lhe provar que sou amiga dela. A dois, dói tudo um bocadinho menos. A dois, pode-se partilhar a dor. Mas o que posso fazer sem pôr logo os outros contra mim?”

Gabi decide deitar-se na varanda todas as tardes depois da escola e “torrar” ao sol. Uma hora inteirinha até ficar da cor do chocolate. Assim, Salima deixaria de ser a única com a pele escura. No Verão, a mãe está sempre a dizer a Gabi:

— Pareces uma preta!

Assim, a partir de hoje, Gabi tornar-se-ia uma preta.

— Que estupidez — diz em voz alta, afastando aquela ideia. — Uma pessoa não se torna preta só por se deitar umas horas ao sol. Não se fica com o nariz largo, nem com lábios grossos, nem com carapinha, só por isso. É preciso muito mais. Principalmente, uma mãe ou um pai que sejam negros.

Gabi continua a magicar. Tem os cotovelos fincados na mesa e a cara apoiada nas mãos. Nem repara no que está a passar-se à sua volta. Tem o olhar fixo no padrão verde das costas do casaco de Salima.

De repente, um bico de lápis desliza para a frente, na diagonal. Pertence ao lápis que Bettina segura na mão.

— O que estás outra vez a fazer? — Gabi desvia Bettina com um toque.

— Deixa-me!

Bettina segura no lápis afiado de forma a apontar a mina à nuca de Salima. Estica o braço até quase lhe tocar.

— Será que ela sente? — segreda Bettina.

— Pára com isso!

Mas Bettina há muito que quer saber como é uma carapinha. Se é rija ou mole.

Bettina estica o braço um pouco mais para a frente. Alguns observam a brincadeira. De repente, Salima começa a balançar-se na cadeira. Dá lanço na beira da mesa, inclina-se com força para trás e acerta com a nuca no bico do lápis.

Um grito. Breve e cortante.

Com a mão direita na nuca, Salima dá umas voltas sobre si mesma. Com a esquerda, dá uma bofetada a Bettina.

— Estás maluca!! — grita Bettina — Não te fiz nada!

— Picaste-me!

— Não picou nada! — confirma Brigitte, que nem tinha prestado atenção ao que se passara.

Que pena a professora ainda não estar na sala. Podia ter acalmado a discussão.

— Vais pagar-me pela bofetada! — diz Bettina zangada.

Gabi estende o braço. Quer afagar a menina negra.

Mas Salima levantou-se com um salto e corre para a porta, a mão ainda na cabeça. Sobre a mão escorre um pouco de sangue. Antes de sair, Salima pára repentinamente. Devagar, muito devagarinho, vira-se para a turma, que a olha com curiosidade.

A menina estrangeira chora. Em silêncio. Só o subir e o descer do corpo e o fungar baixinho revelam a intensidade do choro. Os seus grandes olhos parecem ainda maiores sob as lágrimas.

Salima fica por uns momentos parada, sem se mexer.

Depois fecha a porta com estrondo.

Silêncio aflitivo.

Salima chora. Não ri. Não canta. Chora, como qualquer outra criança também teria chorado.

Gabi está como que pregada à carteira. Muda com o susto. As pernas estão pesadas como se tivesse chumbo nos pés. Porque não se levanta? Porque não corre atrás de Salima? Ela própria não percebe. Era precisamente agora que Salima mais precisava dela.

“Vocês são maus!”, quer gritar. Mas não lhe sai nada.

— Vocês são maus! — grita Michael em vez dela. Está sentado na primeira fila. — Ela não vos fez nada. Se fosse comigo, tinhas logo apanhado duas bofetadas, Bettina.

“Agora que Salima não está cá e não pode ouvir, é que ele diz isto”, pensa Gabi.

E ela própria, que tanto queria ter corrido atrás dela, que queria tê-la agarrado, protegido… não conseguiu!!

De repente, todos começam a falar ao mesmo tempo.

— Ela não tem culpa de ser preta — diz Alexa novamente, que foi a primeira a defender a menina estrangeira. — Imaginem-se o único branco numa turma de pretos. Gostavam que vos acontecesse o mesmo?

— Salima pode não ter culpa de ser preta — diz Inga — mas no meu pão com fiambre é que nunca a deixaria trincar.

— Ugh! — diz Helga, arrepiando-se.

— Ugh! — diz Paul, arrepiando-se também.

— A ti é que ninguém te deixava trincá-lo, com tantas borbulhas — grita Martin.

— Saliva é saliva — diz Paul.

— Exactamente! Com a Salima não é a mesma coisa? — Alexa bate com o punho na mesa.

Gabi assusta-se. As vozes ressoam-lhe na cabeça. A pancada com o punho arrancou-a da confusão das palavras.

Há pouco, quando Salima estava a chorar à porta, Gabi tinha tido uma oportunidade. Podia ter mostrado que achava horrível a forma como os outros se comportavam. Especialmente Bettina. Em vez disso, tentou apenas acariciar a nova menina. Medrosamente, do seu lugar, de onde não precisava de se levantar nem de sentir a turma atrás das costas.

Mas novamente a mesma sensação… Não.

O medo de tornar a ser ridicularizada é maior do que a ligação a Salima.

Mesmo assim, Gabi diz, muito baixinho:

— A Salima é querida. Porque é que és tão antipática com ela?

Bettina ouviu.

— Muito querida — diz, venenosa. — Mas cheira mal!

— Que estupidez! — grita Michael, que só ouviu a última palavra. — Já alguma vez estiveste sentada ao lado do Markus? Ele cheira tão mal que até as minhas meias fogem dele!

Markus, hoje, não veio às aulas, por isso a ofensa não o magoa. Se cá estivesse, ninguém lho teria dito.

Mas à menina estrangeira diz-se-lhe tudo na cara.

Bettina cala-se. A cara ainda está um bocadinho vermelha da bofetada. De repente começa outra vez a barafustar:

— Anda vestida como um papagaio. Só lhe faltam as penas no rabo.

Risos abafados.

— Cala a boca de uma vez por todas! — diz Gabi, agora em voz alta.

A frase desapareceu na risota geral. Cada um grita à turma a sua opinião.

— Acabou! Acabou! Já chega! — Gabi grita agora mais alto do que os outros. Grita e tapa os ouvidos ao mesmo tempo. Ninguém repara que a porta da sala se abre.

Quando Salima se dirige em silêncio para o seu lugar, todos se calam de repente. Não olha para ninguém, tem os olhos pregados no chão e um grande penso na nuca.

Gabi levanta-se ainda antes de Salima se poder sentar. É automático, o chumbo dos pés desapareceu. Gabi nem precisa de pensar. Vai direita a Salima e, em frente da turma toda, põe-lhe carinhosamente o braço à volta dos ombros. Não custa nada.

— Lamentamos todos — diz Gabi em voz alta, de forma a que todos ouçam, especialmente Bettina.

Salima não diz nada.

Agora levantam-se também Alexa e Michael. Inga e Martina. Até Paul se chega à frente. O pequeno grupo cresce à volta de Bettina.

— Não fiz de propósito! — diz ela baixinho.

— Dói muito? — pergunta Gabi.

Salima levanta finalmente os olhos e olha para Gabi. Põe o braço à sua volta.

— Agora já não — diz.

[1] Canção infantil austríaca (N.T.)

Evelyne Stein-Fischer
13 Geschichten vom Liebhaben
Munique, DTV Junior, 1990
tradução e adaptação

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O pão dos outros

Remi está a conversar com a avó.

Gosta de a ouvir falar dos seus tempos de menina.

— Na minha aldeia, na Provença, pelo Ano Novo, no primeiro dia de Janeiro, toda a gente oferecia uma prenda a toda a gente. Vê lá se és capaz de adivinhar o que seria.

Remi lança palpites:

— Comprar prendas para a aldeia inteira… É preciso ter muito dinheiro. Quer dizer que as pessoas eram ricas?

A avó riu-se:

— Oh, não! Naquele tempo, tinha-se muito pouco dinheiro e ninguém na aldeia comprava prendas. Nem sequer havia lojas como há hoje.

— Então faziam as prendas?

— Não propriamente!

— Então como é que faziam?

— Era muito simples. Ora ouve…

Antigamente, cada família fazia o seu pão. Não havia água corrente nas casas. Então íamos buscá-la à fonte, no largo da aldeia.

E, no dia um de Janeiro, de manhã muito cedo, a primeira pessoa que saía de casa, colocava um pão fresco no bordo da fonte, enquanto enchia a bilha de água. Quem chegava a seguir pegava no pão e punha outro no mesmo lugar para a pessoa seguinte, e assim por diante…

Desta forma, em todas as casas, se comia um pão fresco oferecido por outra pessoa. Nem sempre se sabia por quem, mas garanto-te que o pão nos parecia muito bom porque era como se fosse um presente de amizade.

As pessoas que estavam zangadas pensavam que talvez estivessem a comer o pão do seu inimigo e isso era uma espécie de reconciliação…

Durante alguns dias, esta história andou a martelar na cabeça de Remi.

Uma manhã, teve uma ideia.

Meteu no bolso uma fatia de pão de lavrador. É o pão que se come na casa de Remi.

E na escola, um pouco antes do recreio, Remi pousou o pão bem à vista, em cima da carteira de Filipe, o seu vizinho.

Filipe está sempre com fome e repete sem cessar a Remi:

— Oh! Que fome, que fome eu tenho! Bem comia agora qualquer coisa!

Quando Filipe viu a fatia de pão, que rica surpresa! Sabia muito bem quem lha tinha dado, mas fingiu que não sabia.

No recreio, todo contente, comeu o pão sem dizer nada a Remi, mas…

No dia seguinte, sabem o que é que Remi encontrou em cima da carteira, mesmo antes do recreio? … Um pedaço de cacete!

Um grande pedaço bem estaladiço! Um verdadeiro regalo!

Filipe ria-se.

E assim continuaram a dar um ao outro presentes de pão.

Na aula, a Carlota e a Sílvia estão sentadas logo atrás de Filipe e de Remi. Rapidamente souberam da história do pão e quiseram também participar nas surpresas.

No dia seguinte, Sílvia levou uma fatia de cacetinho e Carlota uma fatia de pão centeio.

Outras crianças quiseram participar nas prendas de pão.

Apareceu pão grosseiro, pão de noz, pão de sêmea, pão sem côdea, pão caseiro, pão fino, pão russo, negro e um pouco ácido, que Vladimir levou, pedaços de pão árabe, que a mãe de Ahmed cozera no forno, e ainda muitos outros tipos de pão.

Desta forma, quase toda a turma se pôs a trocar pedaços de pão durante o recreio.

A professora apercebeu-se das trocas e perguntou:

— Mas o que é que vocês estão aí a fazer?

Carlota e Remi contaram-lhe toda a história do pão dos outros.

E, logo após o recreio, o que é que estava em cima da secretária da professora? …um pedaço de pão!

Toda a classe tinha os olhos postos na professora. Ela sorriu e comeu o pão.

E, no domingo seguinte, quando Remi viu a avó, era ele que tinha uma história para lhe contar:

— Sabes, avó? Olha, na minha turma…

Michèle Lochak
Le pain des autres
Paris, Ed. Flammarion, 1980

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Viagem ao país da infância

À Maria Rosa Lopes,
semeadora de sonhos e verticalidade.

O dia amanhecia perfumado de café e pão torrado. A bata era branca e as tranças longas. A escola, do outro lado da vila. No largo da escola cresciam as azedas, os pequenos malmequeres.

Era bom molhar os pés no orvalho matinal, correr entre os bancos vermelhos, respirar o cheiro da urze que ardia nos fornos e nas lareiras.

A escola era enorme. Ou não era? Que medida para a memória?

As carteiras tinham espaço para a fraterna comunhão dos lápis, das ardósias, das caixas de fósforos onde se guardavam os pequenos mistérios: joaninhas encarnadas, uma formiga com asas, uma borboleta adormecida.

Nas paredes havia mapas, mapas velhos, amarelados, que era preciso e fácil saber de cor.

Viajava-se nesses mapas das linhas-férreas, dos rios e das serras, em frágeis comboios, em barcos maravilhosos, de norte a sul. Parava-se em pequenos apeadeiros onde nunca ninguém fora, atravessavam-se os mares e ia-se com os Reis às cinco partes do mundo.

A minha professora era alta e forte. Ou eu era muito pequena? Vestia luto carregado pelo marido, pelo filho, pela vida. Chamava-se Maria Rosa Lopes e tinha dois canários e um canteiro de morangos junto à casa. Não a consigo dissociar destes elementos, talvez porque fossem os únicos pássaros engaiolados da vila e os únicos morangos que eu vi, até muito tarde.

Às vezes, deixava-nos nos barcos dessas viagens ao fim da terra e ia a casa, que era mesmo ao lado, num breve instante, adiantar o almoço dos filhos ou buscar brasas para uma bacia de cobre com que aquecia a sala, no Inverno.

Junto com os parágrafos, as conjunções, as dinastias, havia poemas, o cheiro da cebola refogada e, às vezes, um morango vermelho que era prémio.

Penso agora, ao ver tantos estudantes angustiados, tantos professores preocupados com os insucessos escolares, tantas greves, tanto desencontro nesse espaço que devia ser a grande festa da aprendizagem e do ensino, como seria bom existir ainda esta ligação telúrica casa-escola-terra-ervas-poemas-mapas-cães-gente que guardo em mim numa linha de continuidade terna e ininterrupta. Sem meatos entre a Família-raiz e a Escola, que deve ser a continuação de um espaço em que a criança se desenvolve, ilhada de serenidade e sabedoria. Porque tenho a certeza de que foi lá, na minha escola primeira, que bebi e mastiguei com olhos imensos para a vida tudo o que até hoje me foi válido. Vêm ainda aqueles dias em que se revolviam os canteiros frente à entrada, com pequenos sachos, para depois se assistir ao milagre dos goivos e dos lírios; das rosas e das malvas-amor, na Primavera.

E, mesmo sem os modernos clubes, pela Páscoa fazíamos o teatro, as saias bordadas e compridas, a alegria do primeiro bâton, os olhos amigos que nos vigiavam expectantes, à espera do engano, da falha. E também havia a exaltação da Pátria, a discreta iniciação à resistência de tudo o que representasse tirania e opressão. Festejava- se o 1° de Dezembro com tanto sentido de amor à liberdade que ainda hoje estremeço quando recordo a Banda e os discursos, os poemas, os foguetes que acordavam a madrugada como um sinal.

No centro de tudo isto: perfumes, bichos, terra, flores, canções, mapas, morangos, canários, aquela mulher era uma catedral negra, tranquila, protectora, ímpar: Inesquecível.

Na minha escola descobri a força e a magia das estações do ano e aprendi que é feia a denúncia e boa a Amizade. E a minha infância foi assim, pelas mãos dessa professora tão poderosa e discreta, um receptáculo magnífico de vivências, de aprendizagens do que é essencial e perpétuo para se caminhar na vida.

E apetece-me deixar aqui um desafio: quem quer experimentar na sua escola esta cabala de ternura e simplicidade; esta vontade de chegar ao fim acreditando?

Quem quer trabalhar, assim, para ficar para sempre no coração comovido de quem vos recordar? Que professor, hoje, não terá medo de uma qualquer viagem que os seus alunos um dia fizerem ao país da infância?

Maria Rosa Colaço
Não quero ser grande
Lisboa, Editorial Escritor, 1996

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Alain Corbel
A viagem de Djuku
Lisboa, Caminho, 2003

A viagem de Djuku

Nem sempre prestamos atenção às pessoas que nos rodeiam e, mais raramente ainda, procuramos saber qual é a sua história – será que nos falta coragem?

Vinda de muito longe, Djuku é uma dessas pessoas;
 aqui está um pedaço da sua história.

1

No exacto momento em que parte, Djuku apercebe-se de que é a primeira vez que deixa a sua aldeia.
Desde o seu nascimento até hoje, Djuku viveu sempre rodeada pelos seus na pequena aldeia à beira da savana. Ela conhece cada recanto. E ninguém lhe é ali desconhecido. Do mesmo modo, todos os aldeões sabem quem é Djuku:
— Djuku? É aquela que sabe assobiar, melhor até do que um pássaro!
— Quando há por aqui almoço de festa ou de cerimónia, é sempre Djuku quem os faz: ela conhece todas as receitas e até inventa mais!
É verdade que Djuku cozinha galinha como ninguém, mas hoje Djuku vai-se embora. Decidiu partir para longe, muito longe. É que aqui na aldeia, apesar dos amigos, apesar das cerimónias, não há trabalho suficiente.
Fez-se à estrada e fixa os olhos na linha do horizonte para não se voltar, para não chorar. Bem, vamos lá a ver, partir assim é demasiado duro. Então, uma última vez, e antes que a aldeia desapareça na desordem das ervas altas, ela olha-a. Olha-a durante tanto tempo e tão apaixonadamente que todas as coisas onde o seu olhar toca entram no seu corpo.
Agora sim, Djuku pode pôr-se a caminho.
A velha guitarra de Quecuto entra no seu corpo. E com ela todos os perfumes das músicas tantas vezes ouvidas.
A palmeira inclinada e o embondeiro do largo entram no seu corpo.
O caldeirão de Nhô-Nhô entra no seu corpo.
A casa de Pepito entra no seu corpo, apesar do seu tecto desgrenhado.
A barca e as redes de pesca de Benvindo que repousam sobre a areia entram no seu corpo. Sente que todas estas coisas estão dentro dela firmemente atadas como carga de um navio. Sente que, a cada passo dos muitos que dará, a aldeia estará consigo.

2

Durante a viagem de vários dias, as descobertas sucedem-se e deslumbram Djuku. Pouco a pouco, ela esquecerá a aldeia.
Atravessa imensas planícies acariciadas por ventos amistosos e cruza montanhas azuis onde chega a pensar que morrerá de frio. Incontáveis rios e ribeiras fazem-lhe companhia no seu périplo e, enquanto caminha ao longo das margens, as águas tumultuosas e murmurantes contam-lhe histórias fabulosas.
Muita gente se empurra na berma da estrada para a ver passar. Alguns aconselham-na a fazer meia-volta, pois é uma grande loucura. Outros, pelo contrário, encorajam-na, oferecem-lhe pequenas prendas, que ela se apressa a dar por sua vez, mal entra numa nova aldeia.
«Convém ir ligeiro quando se viaja», diz ela de si para si, e logo acrescenta: «Gosto destes dias, gosto destes perfumes novos.»
Pela primeira vez desde há muito tempo, Djuku sente-se extremamente feliz, pondo um pé à frente do outro com uma espécie de embriaguez. Pressente que a sua viagem chegou ao fim quando certa noite viu desenhar-se no horizonte uma barreira sombria de grandes edifícios iluminados aqui e ali por pequenas cintilações.
— Eis a cidade que eu procurava — disse Djuku simplesmente.
Decide que só entrará no dia seguinte.

3

Pela manhã, muito cedo, Djuku entra na cidade quase deserta àquela hora.
Alguém, todo vestido de amarelo, lava as ruas com grande quantidade de água. Um pouco mais adiante, um condutor de autocarro sem passageiros assobia alegremente enquanto faz manobras. Djuku ziguezagueia na calçada com a impressão de que caminha sobre terreno virgem.
Não presta atenção à grande mosca verde barulhenta que engole com uma boca gigantesca os últimos pedaços de noite, até que esta, depois de muito mastigar, se atira a ela. Djuku vacilou e quase caía se antes uma vaga de pessoas, vindas de lado nenhum, não a levasse em uma louca cavalgada. São milhares de homens e de mulheres que se precipitam para os seus locais de trabalho. Viram à direita e à esquerda, sem nexo, embrenham-se nas entranhas da terra para logo saírem mais adiante, sobem e descem escadas, corredores, ruas e depois avançam a golpes de gritos e assobios, de buzinas e apitos ululantes.
— É uma floresta de gente em marcha! — exclama Djuku, que nunca tinha visto tanta gente na sua vida.
Desta vez ninguém lhe oferece presentes, nem lhe pergunta de onde vem.
Djuku deixa-se levar ao sabor da corrente durante toda a manhã, incapaz de resistir, sacudida por uns, empurrada por outros, sem saber para onde ir. Ao meio-dia, quando a corrente diminuiu de intensidade, Djuku, com o corpo extenuado e os pés doridos, consegue escapar-se e vai encalhar um pouco adiante no banco de uma praça.
— Por pouco não me afogava nesta maré! — suspira Djuku massajando os tornozelos. — Ninguém me tinha dito que havia transumâncias.
Lentamente retoma o fôlego e passeia o seu olhar, tentando descobrir onde acabou por cair. É uma pequena praça, tendo ao centro um relvado careca, com um trio de árvores enfezadas e um cão minúsculo que cabriola entre uma e outra para as aspergir. A toda a volta estão casas de fachada rosa-cinza e umas quantas pequenas lojas.
Djuku repara que na montra de cada uma há um anúncio pendurado. Aproxima-se da loja mais próxima e lê: «Procura-se aplicadora de champô em cães mimados. Pede-se C.V.»
— Isto não é para mim — diz Djuku — nem sei o que é!
A loja seguinte desejava encontrar rapidamente uma «comediante para duas tragédias» e o terceiro anunciava: «Uma profissão brilhante? Torne-se lavadora de azulejos.»
— É demasiado arriscado. Para mim não serve! — suspira Djuku.
A quarta loja procurava uma «operadora-de-máquina- electricista a meio-tempo para grandes reparações em brinquedos delicados».
— Oh, isso é muito complicado. Também não é para mim — diz uma Djuku já desolada.
A quinta loja é um restaurante chamado BARRIGA DA BALEIA, e um cartaz escrito à mão explica: «Boa cozinheira? Entre depressa!»
— Claro que vou entrar! — exclama logo Djuku — isto sim, é para mim.

4

Mal Djuku passa a soleira da porta do restaurante, é acolhida por um pequeno homem bonacheirão, o patrão, o senhor Isidoro, que quase logo a aceita como cozinheira.
Quase logo, porque lhe pergunta antes se ela sabe «distinguir o sal da pimenta, é que, sabe, tenho clientes que não são nada fáceis!». E diz-lhe em seguida, mostrando o menu:
— Bem, está tudo aí, não é complicado e a partir deste momento a chefe da cozinha é você! De resto — corrige-se ele — o chefe do aprovisionamento é você também, e o chefe da condimentação é também você, além, é claro, das idas ao mercado.
Nas semanas que se seguiram, ao ver tantas vezes o senhor Isidoro junto à porta do restaurante, Djuku compreendeu o ar de satisfação dele ao dizer-lhe aquilo tudo. O senhor Isidoro adora fazer a sesta na BARRIGA DA BALEIA.
Djuku aproveitou este cargo para fornecer a cozinha de novos condimentos: coentros, cominhos, funcho, menta, alecrim. E para modificar os pratos, cozinhando ou temperando de maneira diferente as carnes, os legumes, os peixes. Nem toda a gente gostou.
— Socorro, tenho a garganta a arder — gritava um cliente de vez em quando.
— Querem envenenar-me, chamem a polícia! — vociferavam outros.
Mas o senhor Isidoro não se deixava convencer, e nada dizia, até porque a maioria dos clientes aprovava a mudança e Djuku conseguia realizar pratos suculentos.
Uma nova vida começava para Djuku na BARRIGA DA BALEIA.

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A viagem de Djuku

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Nem sempre prestamos atenção às pessoas que nos rodeiam e, mais raramente ainda, procuramos saber qual é a sua história – será que nos falta coragem?
Vinda de muito longe, Djuku é uma dessas pessoas;
 aqui está um pedaço da sua história.

5

Se alguma coisa atraiu a atenção do senhor Isidoro foram as mãos de Djuku. Aliás, ao longo dos vários meses que Djuku passou a trabalhar na BARRIGA DA BALEIA, as coisas resumiam-se a isto: para ele e para os clientes habituais do restaurante, Djuku não era mais que duas mãos, uma esquerda genial, uma direita fabulosa.
Convém saber que, durante o dia, Djuku não aparecia na sala do restaurante, e como ela vinha trabalhar de manhã cedo, só saindo muito depois do fecho, ninguém sabia ao certo quem ela era, como ela era. Só as suas mãos eram conhecidas do «público».
É que era um espectáculo, como dizer, real, ver aquelas mãos elevando um prato através da abertura que separa a cozinha da sala do restaurante. Djuku, numa palavra atirada ao criado de servir, anunciava o prato, mas a sua voz é demasiado doce para ser ouvida. Em palco estavam apenas as suas mãos.
Os clientes que pediam, fosse um qualulu, fosse uma galinha com molho de amendoins, passavam os minutos seguintes de olhos postos na abertura. Não eram poucos aqueles, mais nervosos, que chegavam a roer as unhas.
— Deviam ter pedido também uma entrada — aconselhava-os sempre o senhor Isidoro.
As mãos de Djuku são as suas ferramentas e o seu tesouro. Não serão o que podemos chamar belas: a palma é larga, os dedos finos de tamanho médio e bem assentes, as unhas compridas tratadas. A pele neste lugar do corpo parece um pergaminho e, no caso dela, é riscado por pequenas cicatrizes (talvez o preço de uma distracção no momento da aprendizagem).
É mesmo a graça dos seus gestos, a agilidade, o que encanta os clientes da BARRIGA DA BALEIA. As mãos dançam ao redor dos pratos até ao momento da entrega. Acontece às vezes descansarem na borda da abertura. Estarão a contemplar, satisfeitas, a vida ruidosa da sala do restaurante? Ou será que esperam alguém ou alguma coisa? É difícil saber. Elas partem sempre de súbito, saltitantes, para se agitarem ao redor dos fogões.

6

— Uau, este frio gela-me as mãos e o senhor Isidoro que nunca mais vem! Deve estar na cama, tudo lhe serve de pretexto para se lá meter! — constata Djuku divertida ao abrir as portas da BARRIGA DA BALEIA.
Não que precise do seu patrão para pôr em andamento a cozinha, ela já conhece o ritual. De imediato, deita mãos ao trabalho, pois tem muito que fazer. Acende os fornos, tira os alimentos da arca congeladora, e logo os seus dedos se afadigam, descascam legumes, amassam as pastas, preparam os caldos, confeccionam as sobremesas. Durante toda a manhã, Djuku não terá um minuto de descanso, mas assim que, aí pelo meio-dia, chegarem os primeiros clientes, tudo estará pronto. Nestas alturas, a aldeia está em bem longe. Djuku nem sonha.
Ao meio-dia dispara o tiro de partida! Todos os clientes afluem para almoçar. A confusão ameaça. Mas a comandante Djuku está ao leme e a BARRIGA DA BALEIA não aderna e continua a sua rota.
Segue-se a calma da tarde. Djuku conta com um repouso bem merecido. Mas, com cada vez mais frequência, é assaltada por antigas imagens, incómodas como crianças turbulentas mantidas demasiado tempo à mesa e que têm necessidade de esticar as pernas.
«Antes», pensa, «todos sabiam quem era Djuku, agora eu sou uma sombra que passa, que vai para o trabalho de manhã e que regressa à noite. Aqui ninguém me conhece, sou uma sombra sem história.»
Olha à sua volta e o que vê fá-la sorrir: ela imagina a aldeia, a savana, os campos de arroz, o sol quente na sua pequena cozinha!
«Por que raio não será isso possível? Um dia», pensa, «será preciso que o que eu vivi se case com o que eu vivo, que o restaurante fique noivo da aldeia.»
Uma ideia engraçada que a fez, primeiro, rir e, depois, chorar.

7

É noite. O restaurante está fechado. Um a um, todos os clientes se foram. Até o senhor Isidoro já foi para sua casa. Djuku ficou sozinha. Sentada, olha as palmas das mãos, a geografia das rugas da sua pele, talvez procurando um caminho a seguir.
Tudo está calmo na cozinha. Mas Djuku ouve um barulho imenso. Os objectos, acolchoados no interior dela, estão ali, agitados, barulhentos, e querem escapar a qualquer preço.
«O vosso lugar não é aqui», suplica Djuku, «deixem-se estar sossegados.» Eles não queriam ouvir nada e continuaram com a sua terrível algazarra. Então, uma vez mais, Djuku conta a historia a si mesma. Em voz alta, invoca a aldeia e as suas gentes, o calor que faz quando o Sol atinge o seu zénite, o odor do carvão de madeira, do peixe que foi posto a secar nos telhados das casas, o da poeira que tudo invade.
Absolutamente decidida, entra no restaurante.
A sua memória, tão viva, apazigua-se a pouco e pouco. Quando tudo parece voltar a estar em ordem, que de novo nela se instalou a paz, Djuku deixa o restaurante e vai para casa descansar.

8

Quando Djuku cozinha, tudo o resto perde importância.
Os clientes na sala bem podem falar alto e grosso, a rádio e a televisão bem podem armar zaragata, que Djuku consagra-se à sua tarefa de tal maneira que só ouve as encomendas do criado de servir. Ela é como uma rainha no seu reino e cada uma das suas coisas, marmitas, panelas, pratos, talheres, especiarias, pratos ou fogões, a protegem da confusão, mantendo-a no centro daquele forte, a cozinha. Nem mesmo o senhor Isidoro pode ali entrar.
Certo dia, contudo, um estranho projéctil atingiu Djuku em cheio: era uma palavra.
Uma palavra que havia escapado da boca do apresentador de televisão. Djuku deixou cair a batata e a faca que segurava nas mãos e deixou-se literalmente invadir. A palavra cresceu nela, ganhou balanço, fez-se furacão, explosão. Acabou por inundá-la, deixando apenas uma casca vazia, desorientada, frágil.
Djuku entrou na sala e dirigiu-se, hipnotizada, para a televisão. Ao vê-la de lágrimas nos olhos, os clientes calaram-se todos, olharam uns para os outros e interrogavam com esse mesmo olhar o senhor Isidoro.
Este, sentado no lugar do costume, perguntou com voz inquieta:
— Está tudo bem, Djuku?
Ela não respondeu. Assoou o nariz com o punho. Soluçava.
«Deve ter queimado os dedos», pensa um cliente.
— Minha senhora, a caldeirada estava fa-bu-lo-sa, devorei-a todinha! Veja aqui o meu prato — diz-lhe outro.
— Mas o que é que se passa hoje? — perguntaram de súbito a uma voz todos os clientes.
Pela primeira vez desde a chegada de Djuku, os clientes da BARRIGA DA BALEIA viram-na e olharam-na verdadeiramente.
A palavra, insignificante para eles, era o nome da aldeia de Djuku.

9

O senhor Isidoro agarrou-a pelos ombros e fê-la sentar-se.
— Seca as tuas lágrimas, Djuku. Diz-nos o que te aconteceu.
Aconteceu então o seguinte. Djuku, que já havia retomado o fôlego, começou a contar e os objectos que estavam há tanto tempo dentro dela saíram da sua boca para virem, à vez, pontuar o seu discurso: a partida da aldeia, a viagem, a chegada à cidade e à BARRIGA DA BALEIA, o trabalho e a sua grande solidão. Os clientes e o senhor Isidoro apanhavam os objectos à medida que eles surgiam.
A velha guitarra de Quecuto saiu do seu corpo com os perfumes das músicas tantas vezes ouvidas, e um cliente apanhou-a para a tocar.
A palmeira inclinada e o embondeiro do lago saíram do seu corpo e um cliente pegou neles e foi pô-los junto à entrada do restaurante.
O caldeirão do Nhô-Nhô saiu do seu corpo e um cliente colocou-o no meio da sala.
A casa de Pepito saiu do seu corpo e os clientes apossaram-se dela para arrumar a sala.
A barca e as redes de pesca de Benvindo saíram do seu corpo e os clientes colocaram-nas à sombra do embondeiro.
Sim, logo em seguida Djuku sentiu-se aliviada e em paz. Viu as coisas que estavam nela firmemente atadas como carga de um navio partilhadas por todos. Percebeu imediatamente que a aldeia tinha desposado o restaurante.
Agora toda a gente conhecia a história de Djuku.
— Não podemos ficar aqui! — disse alguém.
— É preciso festejar isto — disse um outro — como na aldeia!

Nota ao leitor

Depois deste famoso dia, a divisória que separava a cozinha da sala do restaurante foi derrubada pelo senhor Isidoro com as suas próprias mãos.
Leitor, se tiveres vontade de ir à BARRIGA DA BALEIA para saborear os melhores pratos que existem, não deixes de trocar dois dedos de conversa com Djuku, agora que ela cozinha no meio de todos. E já agora, por favor, pede-lhe da minha parte notícias da aldeia.

Alain Corbel
A viagem de Djuku
Lisboa, Caminho, 2003

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A menina e o pássaro encantado

Para o adulto que for ler esta história para uma criança:

Esta é uma história sobre a separação: quando duas pessoas que se amam têm de dizer adeus…
Depois do adeus, fica aquele vazio imenso: a saudade.
Tudo se enche com a presença de uma ausência.
Ah! Como seria bom se não houvesse despedidas…
Alguns chegam a pensar em trancar em gaiolas aqueles a quem amam. Para que sejam deles, para sempre… Para que não haja mais partidas…
Poucos sabem, entretanto, que é a saudade que torna encantadas as pessoas. A saudade faz crescer o desejo. E quando o desejo cresce, preparam-se os abraços.
Esta história, eu não a inventei.
Fiquei triste, vendo a tristeza de uma criança que chorava uma despedida… E a história simplesmente apareceu dentro de mim, quase pronta.
Para quê uma história? Quem não compreende pensa que é para divertir. Mas não é isso.
É que elas têm o poder de transfigurar o quotidiano.
Elas chamam as angústias pelos seus nomes e dizem o medo em canções. Com isto, angústias e medos ficam mais mansos.
Claro que são para crianças.
Especialmente aquelas que moram dentro de nós, e têm medo da solidão…

Era uma vez uma menina que tinha um pássaro como seu melhor amigo.

Ele era um pássaro diferente de todos os demais: era encantado.

Os pássaros comuns, se a porta da gaiola ficar aberta, vão-se embora para nunca mais voltar. Mas o pássaro da menina voava livre, e vinha quando sentia saudades… As suas penas também eram diferentes. Mudavam de cor. Eram sempre pintadas pelas cores dos lugares estranhos e longínquos por onde voava. Certa vez voltou totalmente branco, cauda enorme de plumas fofas como o algodão…

— Menina, eu venho das montanhas frias e cobertas de neve, tudo maravilhosamente branco e puro, brilhando sob a luz da lua, nada se ouvindo a não ser o barulho do vento que faz estalar o gelo que cobre os galhos das árvores. Trouxe, nas minhas penas, um pouco do encanto que vi, como presente para ti…

E, assim, ele começava a cantar as canções e as histórias daquele mundo que a menina nunca vira. Até que ela adormecia, e sonhava que voava nas asas do pássaro.

Outra vez voltou vermelho como o fogo, penacho dourado na cabeça.

— Venho de uma terra queimada pela seca, terra quente e sem água, onde os grandes, os pequenos e os bichos sofrem a tristeza do sol que não se apaga. As minhas penas ficaram como aquele sol, e eu trago as canções tristes daqueles que gostariam de ouvir o barulho das cachoeiras e ver a beleza dos campos verdes.

E de novo começavam as histórias. A menina amava aquele pássaro e podia ouvi-lo sem parar, dia após dia. E o pássaro amava a menina, e por isto voltava sempre.

Mas chegava a hora da tristeza.

— Tenho de ir — ele dizia.

— Por favor, não vás. Fico tão triste. Terei saudades. E vou chorar… — E a menina fazia beicinho…

— Eu também terei saudades — dizia o pássaro. — Eu também vou chorar. Mas vou contar-te um segredo: as plantas precisam da água, nós precisamos do ar, os peixes precisam dos rios… E o meu encanto precisa da saudade. É aquela tristeza, na espera de regresso, que faz com que as minhas penas fiquem bonitas. Se eu não for não haverá saudade. Eu deixarei de ser um pássaro encantado. E tu deixarás de me amar.

Assim, ele partiu. A menina, sozinha, chorava à noite de tristeza, imaginando se o pássaro voltaria. E foi numa dessas noites que ela teve uma ideia malvada: “Se eu o prender numa gaiola, ele nunca mais partirá. Será meu para sempre. Não mais terei saudades. E ficarei feliz…”

Com estes pensamentos, comprou uma linda gaiola, de prata, própria para um pássaro que se ama muito. E ficou à espera. Ele chegou finalmente, maravilhoso nas suas novas cores, com histórias diferentes para contar. Cansado da viagem, adormeceu. Foi então que a menina, cuidadosamente, para que ele não acordasse, o prendeu na gaiola, para que ele nunca mais a abandonasse. E adormeceu feliz.

Acordou de madrugada, com um gemido do pássaro…

— Ah! menina… O que é que fizeste? Quebrou-se o encanto. As minhas penas ficarão feias e eu esquecer-me-ei das histórias… Sem a saudade, o amor irá embora…

A menina não acreditou. Pensou que ele acabaria por se acostumar. Mas não foi isto que aconteceu. O tempo ia passando, e o pássaro ficando diferente. Caíram as plumas e o penacho. Os vermelhos, os verdes e os azuis das penas transformaram-se num cinzento triste. E veio o silêncio: deixou de cantar.

Também a menina se entristeceu. Não, aquele não era o pássaro que ela amava. E de noite ela chorava, pensando naquilo que havia feito ao seu amigo…

Até que não aguentou mais.

Abriu a porta da gaiola.

— Podes ir, pássaro. Volta quando quiseres…

— Obrigado, menina. Tenho de partir. E preciso de partir para que a saudade chegue e eu tenha vontade de voltar. Longe, na saudade, muitas coisas boas começam a crescer dentro de nós. Sempre que ficares com saudade eu ficarei mais bonito. Sempre que eu ficar com saudade, tu ficarás mais bonita. E te enfeitarás, para me esperar…

E partiu. Voou que voou, para lugares distantes. A menina contava os dias, e a cada dia que passava a saudade crescia.

— Que bom — pensava ela — o meu pássaro está a ficar encantado de novo…

E ela ia ao guarda-roupa, escolher os vestidos, e penteava os cabelos e colocava uma flor na jarra.

— Nunca se sabe. Pode ser que ele volte hoje…

Sem que ela se apercebesse, o mundo inteiro foi ficando encantado, como o pássaro. Porque ele deveria estar a voar de qualquer lado e de qualquer lado haveria de voltar. Ah!

Mundo maravilhoso, que guarda em algum lugar secreto o pássaro encantado que se ama…

E foi assim que ela, cada noite ia para a cama, triste de saudade, mas feliz com o pensamento: “Quem sabe se ele voltará amanhã….”

E assim dormia e sonhava com a alegria do reencontro.

Rubem Alves
As mais belas histórias de Rubem Alves
Lisboa, Edições Asa, 2003
Tesxto adaptado

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