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Archive for the ‘conto’ Category

A criança e a vida

Companheira do sol e das raízes, cheguei à grande cidade.

Numa mão levava o diploma, na outra, o medo. O resto era a história antiga da minha solidão e da minha esperança…

A escola que me deram não era um desses poéticos lugares, brancos e cheios de flores com que sonhamos no fim do curso: era um velho primeiro andar, de uma rua suja de sal, pregões e humidade. Os rapazes que me deram, também não tinham nada de comum com esses meninos de bata branca, normais, dos primeiros dias de aula e que as mãezinhas nos entregam como se fossem de porcelana.

Lembro-me desse nosso primeiro encontro, tão comovidamente, que receio não encontrar a palavra exacta para o esboçar. Abri a porta e eles entraram. Eram quarenta e cinco e faltavam carteiras. Faltavam muitas carteiras, mesmo quando os sentei três a três e pus cinco na mesa que me destinaram para secretária.

O director chegou e disse: — Este é o seu reino e aqui tem os seus «meninos». E sorria. —Se tiver sarilhos – há-de tê-los, mas não estranhe –, a esquadra da polícia fica no fim da rua. E eu estou ao seu dispor. Para as necessidades imediatas, aqui tem isto. Tem de escolher desde o princípio: ou a Senhora ou eles. Sem complacências, se quiser sobreviver. Lamento dar-lhe a escória. Mas, paciência.

Desceu a escada.

E eu fiquei ali, face à nova aventura.

O silêncio que me envolveu era um silêncio pesado, expectante. E, no meio do silêncio, eles ali estavam, na manhã que nascia. Esculpidos em vento e mar.

Vinham dos barcos ancorados no cais, do bairro da lata, de sabe-Deus-donde. Traziam nas mãos, em vez de mala e livros – não sei porquê, mas traziam – folhas de plátano e ramos de amendoeira florida. O Outono dourava-lhes os cabelos.

Eram sementes vivas da mais autêntica liberdade e não sabiam nada de preconceitos, nem de palavras, nem de coisa nenhuma.

Olhei-os também em silêncio. Um por um. Longamente. Depois, peguei na régua que o director acabara de oferecer-me como apoio e dei-a ao que me pareceu mais velho: — Toma! Vai atirar fora. E depois, não sei que lhes disse.

Mas a fome de ternura era neles como o sol, a chuva e o desconforto. E como éramos primários, pobres e sozinhos, estabelecemos desde aquela hora um entendimento lúcido e discreto.

E foi assim que ficámos solidários e Amigos-Para-Sempre.

Aprendi então que a Verdade é uma palavra real.

E a lealdade, também.

Depois muitos vieram: da Europa, da África, das ilhas perdidas do Atlântico. Mas ali, na escola húmida e despojada, é que aconteceu o milagre que nunca mais se repetiria.

Tenho-me perguntado muitas vezes porquê. E cada vez vou tendo mais a certeza que o excesso de conforto destrói o Rosto Iluminado do Homem. Aqueles não tinham, não esperavam, nem pediam nada: por isso, estavam disponíveis para tudo. Os passeios que demos, as notícias que comentámos, os poemas que lemos, a vida que conscientemente os ajudei a desventrar, foram a sua primeira riqueza e fizeram crescer na «escória», uma branca flor de fraterna alegria.

Foi como se um vento de loucura nos tivesse perturbado a todos, e o mundo estivesse suspenso do que fizéssemos. E nas paredes sujas da sala, pintámos o sol e pássaros verdes. E nos buracos dos tinteiros partidos, nasceram flores. Eles eram a Terra quente e aprenderam a amá-la também. E a pobreza que os esboçava, começou a ser um pretexto, não para a sua derrota, mas para a sua dignidade e para a sua força.

A alegria daqueles rapazes contagiava os indiferentes e as pessoas, muitas, muitas: poetas, professores, pintores, operários, sentiam que junto deles as manhãs eram mais claras e a fome mais terrível. Hoje, alguns serão operários honestos, ardinas apressados, vendedores ambulantes; outros serão marinheiros, outros, sei lá o que serão! Sei lá o que a vida fez deles!

Estas páginas são uma homenagem que lhes devo. Guardei-as, dia após dia, ano após ano, até os perder nos novos caminhos que tive de pisar, como um testemunho. Oxalá alguns deles possam ler estas linhas e reencontrar-se nelas.

Não eram génios, nem poetas, nem meninos prodígios. Eram filhos de pescadores, de varinas, de ladrões-de-coisas… essenciais-ao-dia-a-dia. Moravam em casas com buracos e dormiam nos barcos, no vão das portas, nos degraus da doca, em qualquer sítio. Alimentavam-se de um bocadinho de pão, de um peixe assado e às vezes de água. Apenas.

Tinham oito, nove, dez, onze, quinze anos, mas conheciam as mil maneiras de escapar aos polícias, de viajar de borla, de sobreviver. Os dias eram-lhes duros e comprados com muita coragem e destemor. Por isso custei a entender – ENTENDI!? – como a Poesia foi para eles tão violenta e tão fácil. Pediam para fazer poemas, como quem pede o pão da fome. A princípio, a medo, ingénuos. Depois, a mergulharem na aventura da palavra com uma dor e uma lucidez já adultas.

Quando em 1960 expus a primeira colectânea de textos destes rapazes, ilustrados por alguns dos nomes mais válidos da nossa pintura, o ambiente que cercou a exposição, ao verem a idade dos autores, foi de suspeita e de dúvida. Quando eles apareciam, desgrenhados e sujos – a hilariedade era quase completa. Saí de lá muitas vezes a apetecer-me rebentar a cara das pessoas, como o Mário e o Zé rebentaram os vidros da casa de uma senhora que duvidara da autenticidade do que estava exposto. E eram eles que me confortavam, soberanos: — Senhora! Deixe lá. Têm a cabeça cheia de vento. Não percebem nada.

Entrava na escola e olhava para Cristo. Sorríamo-nos.

E ficava tudo certo, outra vez.

Mas ensinaram-me que, quando se é humilhado naquilo que em nós é claridade e certeza, aprende-se mais depressa o sentido exacto da liberdade, da paz, do ódio, do amor e do ridículo do quotidiano.

Eles revelaram-me que a miséria transforma as crianças, mais que os adultos, em anjos implacáveis de lucidez, e que a fome os ateia e lhes faz crescer, nos olhos, brancas e terríveis asas de sonho ou destruição. E há, nestes anjos de fogo, uma voz oculta e violenta em que é preciso, é urgente, meditarmos. Ela pode denunciar, construir ou semear, a alegria, a vergonha ou o remorso.

Ela pode ser a semente da Esperança, da Paz entre os homens.

Ela pode ser o ódio.

Ela pode ser o Amor.

Maria Rosa Colaço
A Criança e a Vida
Lisboa, Ed. Ulmeiro, 1996

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O perfume do sonho, na tarde

O perfume do sonho envolvia-a, debaixo do dossel de folhas da árvore, que emborralhava já a sonolência, ronronante, do bichano – seu companheiro – e que só com ela se aventurava a sair do aconchego da casa.

Que bom! Não havia aulas, nem deveres, naquela tarde de sábado! Podia gastar o tempo à vontade… Boa altura para um pincho no sonho. Como se lhe adivinhasse o desejo, e mais lesto do que parecia natural num ronronar, preguiçoso, já o gato ia a cavalo numa vassoura de bruxa, sem o consentimento dela!

— Sape, daí já!

Bruxas não eram da sua predilecção. Convinha pensar um pouco, antes de se meterem, às cegas, em aventuras… E se tirasse, da arca encantada, os seus vestidos mágicos? Mas qual? O de princesa de diadema, à espera de um noivo, que lhe decifrasse o enigma do amor? O de pastora, adormecida, de romeirinha e de coração esperançoso, a sonhar que um príncipe perdido numa caçada a encontraria?

O de menina-malmequer, pronta também a florir e a partilhar o merendeiro com um beijo de boas-tardes? Qual escolher?

E o de Xerazade[1]? Esse, esse. Nada lhe agradava mais do que ser a que, diligentemente, emudecia com o surgir da manhã e, depois de mil e uma noites de encantamento, havia de conseguir conquistar o amor, graças ao feitiço da sua palavra. O de Xerazade servia-lhe, como uma luva. E, então, perante o bichano-companheiro, que assistia atento e segurava as fitas do sonho, envergou as suas calças tufadas, de gomos de seda colorida às pintas, vestiu o seu corpete que encaixava só as laranjinhas, adolescentes, dos seios e lhe deixava a descoberto o pescoço e a ondulação do corpo até à cintura. Com todo o cuidado colocou o seu turbante com pena de pavão e só deixou de fora da sua farta cabeleira dois caracóis, que lhe emolduravam a luz, maliciosa, dos olhos. O que faltava? Ah! as suas pulseiras a serpentear pelo braço, o leque de plumas para esconder o sorriso, trocista, de quem se sabe de antemão vencedora. E ainda o anel que o seu senhor lhe tinha oferecido, para florir o alado dos gestos, enquanto contava as suas histórias. Tudo a postos. Na sua imaginação, a noite, que tão benéfica lhe era como indicava o seu nome, que significava filha da Lua, não tardaria a descer sobre os minaretes do palácio. Do jardim, já subiam os perfumes que o morrer da tarde acentuava e a envolviam. E gozava, de antemão, a surpresa do marido, quando lhe começasse a contar do califa Haroun al-Raschid [2], que gostava de percorrer Bagdad incógnito e era capaz de aprender a justiça com as crianças, ou as sete viagens de Sindbad, o marinheiro [3] e o muito que a sua imaginação ainda sabia e era capaz de desembaraçar, sem perder o fio à meada. Estava certa não apenas de se fazer amar, mas até de ajudá-lo na governação do reino e mostrar-lhe que uma mulher, mesmo quando escrava como Morgiana[4] , pode ser de grande ajuda e não apenas e só uma flor de prazer. Confiante, sentia-se desejosa de mais uma noite a vir. E assim a deixou a rapariga, desejosa também ela doutras paragens, doutras aventuras e doutros sonhos. Nem precisou de tapete mágico, como Aladino[5].

— A mim, meus cavalos de vento e pensamento!

Ali estavam, às ordens para partir para os longes – até onde?

Até ao palácio da Rainha das Neves[6], que tanto a tinha fascinado, quando tinha lido a história. Mas o palácio ficava para lá dos vales brancos de neve da Finlândia, no grande Norte. Tinha de se preparar. Precisava de luvas, cachecol, e também para o pobre bichano. Já estava pronta, ela e o companheiro, quando se achou, mesmo assim, pouco preparada para gelos tão eternos. Podiam constipar-se, não convinha arriscar. Resolveu trocar os sapatos por umas botas, vestir um casacão debruado a pele, aconchegante, providenciar um regalo, um gorro que não lhe deixasse gelar as tranças e um cachecol de lã, mais quente, para o seu companheiro. Agora, sim. Bem preparados, podiam partir e até tinham uma chave-coração para abrir as portas do sonho desejado.

— A caminho!

E à medida que avançava no meio da neve e do gelo, começou a pensar como é que Gerda[7] tinha sido capaz de caminhar com os pés nus sobre aquela frialdade, glaciar, só aquecida pelo desejo de ter de volta o seu companheirinho de brincadeiras, e livrá-lo do esquecimento em que o tinha mergulhado a Rainha das Neves. Ah! a amizade verdadeira era um grande mistério!

Brr… que frio! Tinham, finalmente, chegado. Ali estava o palácio com as paredes feitas de poeiras de neve, de portas e vidros de ventos agrestes, salas vazias e cintilantes, iluminadas por auroras boreais e, no meio de um lago, gelado, o trono da Rainha das Neves, onde ela se sentava, quando não viajava no seu trenó. Sentia as suas trancinhas inteiriçadas, como pingentes de sincelo, debaixo do gorro de pele.

— Vamos regressar! Vamos regressar!

E, em menos de um ai, ela e o bichano, montados num cavalo de pensamento, muito mais rápido do que os cavalos de vento, estavam a salvo, outra vez debaixo da sombra, protectora e quente, da árvore.

Aquilo de ser sempre rapariga também a aborrecia um pouco. Em sonhos, estava ao seu alcance ser rapaz. Porque não? Robin dos bosques, já que gostava tanto de subir às árvores? Gnomo, para poder descer às profundezas da terra e das águas e ajudar princesas, aflitas e desmioladas, que tinham perdido anéis? Não se sentia muito tentada… E pirata? Ah! pirata era melhor forma para o seu pé, aventureiro, e trazia-lhe o bom cheiro da maresia, sempre colado à sua pele, de tal maneira o mar era grato ao seu coração. Estava decidido. Seria pirata, escorreito, sem perna de pau e com uma pala para tapar, a fingir, não o olho cego, mas o olhinho, guincho e esperto, de sondar os longes.

Com um pulo, ágil, logo o bichano se enredou no cordame de mais aquele sonho, para não perder, ele também, mais aquela aventura. E ambos se atracaram ao pirata de “Era uma vez…” Justamente na tarde em que, feliz, ele tinha descoberto que os verdadeiros tesouros, pelos quais tinha espadeirado e combatido, em abordagens perigosas, estavam afinal, ali, sem sangue, nem combates, ao alcance da mão e do olhar. Onde? Onde? Na natureza. Quem podia duvidar? Que ouro mais valioso do que o das estrelas? Ou de mais puro quilate do que o do sol, quando incendiava a manhã, nascente? Que jóias mais lucilantes do que as miríades de brilhos espelhados no mar? Que rubis mais maduros do que os do coração das romãs? Que verdes de esmeralda podiam competir com os das folhinhas, lavadas pela chuva? Que diamantes mais cheios de luz do que os das gotas do orvalho, na renda, preciosa, das teias de aranha? Tudo ali ao alcance da mão e do olhar. Agora que tudo se tinha aclarado no seu espírito, estava disposto a desistir da pirataria. O seu trabalho seria outro. O de procurar alguém que como ele gostasse de nadar e com quem pudesse partilhar aquela verdade: os verdadeiros tesouros estavam ali ao alcance da mão, na água cristalina da nascente, onde matava a sede, nos frutos da terra e na imensidão do mar – que servia de espelho ao sol, à lua e às estrelas. E pôs-se a sonhar com uma nadadora de touca nenúfar-pompom com antenas para repartir com ela o seu coração e aquela verdade.

A história do pirata estava já encaminhada para um final feliz e a rapariga, como quem salta poldras de um regato, estava pronta para outra aventura. Mas o mar ainda a chamava. Ah! o mar, que difícil livrar-se do seu apelo! E decidiu tornar-se sereia. Sim, seria a que se tinha apaixonado pelo príncipe, que salvara da morte, durante a tempestade8] . Era o que mais lhe agradava. E logo começou a sentir o seu corpo axadrezar-se de escamas, verdes-cinza e azuis, que iam do claro transparente ao quase negro das profundezas dos jardins do mar, onde tinha o seu, ao pé do das suas irmãs. Ai dela! Vinha, agora, cada vez mais, à superfície das águas, com o seu toucado de algas e enfeitada numa das faces, que as raparigas da terra tinham coradas, com uma estrela vermelha. Tentava vê-lo, aproximava-se o mais possível do palácio, mas ele não sabia que fora ela a salvá-lo, nem podia apaixonar-se por uma sereia. Tinha de arranjar duas pernas. Pela história, tão amada, sabia que ela estava disposta a dar à feiticeira do mar o que de mais precioso tinha – a sua voz e o seu canto, que enfeitiçavam, em troca de duas pernas. Queria aproximar-se dele, dançar para ele, mesmo sabendo que seria como caminhar sobre espadas cortantes. Mas o que era uma dor física em relação ao apelo do amor? Um mistério ainda mais exigente do que a amizade, era isso… E foi quando uns miados, rabiosos e insistentes, lhe interromperam o sonho. Claro, era o bichano que não gostava das profundezas do mar.

— Bichaninho! Bichaninho! — e passava-lhe a mão pelo pêlo a sossegá-lo. — Nada de aflições!

Estava disposta a providenciar um escafandro, se necessário, para que ele pudesse passear com ela pelos jardins submersos. Mas ele, pelos vistos, não se deixava convencer pelas suas festas, miava desesperadamente. O que teria?! Só então reparou que o sol ia morrendo e a sombra arrefecia. Tinha-se esquecido do seu lanche e do leitinho dele. Era isso. O bichano reclamava, com fome, o seu pratinho de leite. Pronto, pronto. Teria de fechar, à pressa, o seu baú de sonhos e de lá meter, rápido, rápido, os fatos que não tinha chegado a usar. Que pena! Tão apropriados para um baile de máscaras!

O de menina-alforreca,
o de menina-balão,
o de arlequim,
o de toucado-coração-de-lira, para arpoar um coração gémeo,
e o dos anos-vinte com bolsinha e todo franjado, como os antigos candeeiros de vidrilhos. Tão próprio para dançar o charlston! Para outra vez seria…
O bichano já ia longe, numa corrida de afoiteza, acelerada, que a fome é negra. Teve de se resignar. E também ela correu para casa.

[1] A contadora de todas as histórias de As Mil e Uma Noites.
[2] Personagem principal de algumas das histórias de As Mil e Uma Noites.
[3] Personagem principal das sete viagens referidas.
[4] Uma das personagens femininas de uma das histórias: Ali-Babá e os Quarenta Ladrões.
[5] Personagem principal de Aladino e a lâmpada maravilhosa.
[6] A Rainha das Neves – título de um conto do escritor dinamarquês H. C. Andersen.
[7] Principal personagem feminina de A Rainha das Neves.
[8] A Sereiazinha – conto de H. C. Andersen.

Luísa Dacosta, entre Junho e Setembro de 2002

Luísa Dacosta
O Perfume do Sonho, na Tarde
Porto, Ed. Asa, 2004

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Alain Corbel
A viagem de Djuku
Lisboa, Caminho, 2003

A viagem de Djuku

Nem sempre prestamos atenção às pessoas que nos rodeiam e, mais raramente ainda, procuramos saber qual é a sua história – será que nos falta coragem?

Vinda de muito longe, Djuku é uma dessas pessoas;
 aqui está um pedaço da sua história.

1

No exacto momento em que parte, Djuku apercebe-se de que é a primeira vez que deixa a sua aldeia.
Desde o seu nascimento até hoje, Djuku viveu sempre rodeada pelos seus na pequena aldeia à beira da savana. Ela conhece cada recanto. E ninguém lhe é ali desconhecido. Do mesmo modo, todos os aldeões sabem quem é Djuku:
— Djuku? É aquela que sabe assobiar, melhor até do que um pássaro!
— Quando há por aqui almoço de festa ou de cerimónia, é sempre Djuku quem os faz: ela conhece todas as receitas e até inventa mais!
É verdade que Djuku cozinha galinha como ninguém, mas hoje Djuku vai-se embora. Decidiu partir para longe, muito longe. É que aqui na aldeia, apesar dos amigos, apesar das cerimónias, não há trabalho suficiente.
Fez-se à estrada e fixa os olhos na linha do horizonte para não se voltar, para não chorar. Bem, vamos lá a ver, partir assim é demasiado duro. Então, uma última vez, e antes que a aldeia desapareça na desordem das ervas altas, ela olha-a. Olha-a durante tanto tempo e tão apaixonadamente que todas as coisas onde o seu olhar toca entram no seu corpo.
Agora sim, Djuku pode pôr-se a caminho.
A velha guitarra de Quecuto entra no seu corpo. E com ela todos os perfumes das músicas tantas vezes ouvidas.
A palmeira inclinada e o embondeiro do largo entram no seu corpo.
O caldeirão de Nhô-Nhô entra no seu corpo.
A casa de Pepito entra no seu corpo, apesar do seu tecto desgrenhado.
A barca e as redes de pesca de Benvindo que repousam sobre a areia entram no seu corpo. Sente que todas estas coisas estão dentro dela firmemente atadas como carga de um navio. Sente que, a cada passo dos muitos que dará, a aldeia estará consigo.

2

Durante a viagem de vários dias, as descobertas sucedem-se e deslumbram Djuku. Pouco a pouco, ela esquecerá a aldeia.
Atravessa imensas planícies acariciadas por ventos amistosos e cruza montanhas azuis onde chega a pensar que morrerá de frio. Incontáveis rios e ribeiras fazem-lhe companhia no seu périplo e, enquanto caminha ao longo das margens, as águas tumultuosas e murmurantes contam-lhe histórias fabulosas.
Muita gente se empurra na berma da estrada para a ver passar. Alguns aconselham-na a fazer meia-volta, pois é uma grande loucura. Outros, pelo contrário, encorajam-na, oferecem-lhe pequenas prendas, que ela se apressa a dar por sua vez, mal entra numa nova aldeia.
«Convém ir ligeiro quando se viaja», diz ela de si para si, e logo acrescenta: «Gosto destes dias, gosto destes perfumes novos.»
Pela primeira vez desde há muito tempo, Djuku sente-se extremamente feliz, pondo um pé à frente do outro com uma espécie de embriaguez. Pressente que a sua viagem chegou ao fim quando certa noite viu desenhar-se no horizonte uma barreira sombria de grandes edifícios iluminados aqui e ali por pequenas cintilações.
— Eis a cidade que eu procurava — disse Djuku simplesmente.
Decide que só entrará no dia seguinte.

3

Pela manhã, muito cedo, Djuku entra na cidade quase deserta àquela hora.
Alguém, todo vestido de amarelo, lava as ruas com grande quantidade de água. Um pouco mais adiante, um condutor de autocarro sem passageiros assobia alegremente enquanto faz manobras. Djuku ziguezagueia na calçada com a impressão de que caminha sobre terreno virgem.
Não presta atenção à grande mosca verde barulhenta que engole com uma boca gigantesca os últimos pedaços de noite, até que esta, depois de muito mastigar, se atira a ela. Djuku vacilou e quase caía se antes uma vaga de pessoas, vindas de lado nenhum, não a levasse em uma louca cavalgada. São milhares de homens e de mulheres que se precipitam para os seus locais de trabalho. Viram à direita e à esquerda, sem nexo, embrenham-se nas entranhas da terra para logo saírem mais adiante, sobem e descem escadas, corredores, ruas e depois avançam a golpes de gritos e assobios, de buzinas e apitos ululantes.
— É uma floresta de gente em marcha! — exclama Djuku, que nunca tinha visto tanta gente na sua vida.
Desta vez ninguém lhe oferece presentes, nem lhe pergunta de onde vem.
Djuku deixa-se levar ao sabor da corrente durante toda a manhã, incapaz de resistir, sacudida por uns, empurrada por outros, sem saber para onde ir. Ao meio-dia, quando a corrente diminuiu de intensidade, Djuku, com o corpo extenuado e os pés doridos, consegue escapar-se e vai encalhar um pouco adiante no banco de uma praça.
— Por pouco não me afogava nesta maré! — suspira Djuku massajando os tornozelos. — Ninguém me tinha dito que havia transumâncias.
Lentamente retoma o fôlego e passeia o seu olhar, tentando descobrir onde acabou por cair. É uma pequena praça, tendo ao centro um relvado careca, com um trio de árvores enfezadas e um cão minúsculo que cabriola entre uma e outra para as aspergir. A toda a volta estão casas de fachada rosa-cinza e umas quantas pequenas lojas.
Djuku repara que na montra de cada uma há um anúncio pendurado. Aproxima-se da loja mais próxima e lê: «Procura-se aplicadora de champô em cães mimados. Pede-se C.V.»
— Isto não é para mim — diz Djuku — nem sei o que é!
A loja seguinte desejava encontrar rapidamente uma «comediante para duas tragédias» e o terceiro anunciava: «Uma profissão brilhante? Torne-se lavadora de azulejos.»
— É demasiado arriscado. Para mim não serve! — suspira Djuku.
A quarta loja procurava uma «operadora-de-máquina- electricista a meio-tempo para grandes reparações em brinquedos delicados».
— Oh, isso é muito complicado. Também não é para mim — diz uma Djuku já desolada.
A quinta loja é um restaurante chamado BARRIGA DA BALEIA, e um cartaz escrito à mão explica: «Boa cozinheira? Entre depressa!»
— Claro que vou entrar! — exclama logo Djuku — isto sim, é para mim.

4

Mal Djuku passa a soleira da porta do restaurante, é acolhida por um pequeno homem bonacheirão, o patrão, o senhor Isidoro, que quase logo a aceita como cozinheira.
Quase logo, porque lhe pergunta antes se ela sabe «distinguir o sal da pimenta, é que, sabe, tenho clientes que não são nada fáceis!». E diz-lhe em seguida, mostrando o menu:
— Bem, está tudo aí, não é complicado e a partir deste momento a chefe da cozinha é você! De resto — corrige-se ele — o chefe do aprovisionamento é você também, e o chefe da condimentação é também você, além, é claro, das idas ao mercado.
Nas semanas que se seguiram, ao ver tantas vezes o senhor Isidoro junto à porta do restaurante, Djuku compreendeu o ar de satisfação dele ao dizer-lhe aquilo tudo. O senhor Isidoro adora fazer a sesta na BARRIGA DA BALEIA.
Djuku aproveitou este cargo para fornecer a cozinha de novos condimentos: coentros, cominhos, funcho, menta, alecrim. E para modificar os pratos, cozinhando ou temperando de maneira diferente as carnes, os legumes, os peixes. Nem toda a gente gostou.
— Socorro, tenho a garganta a arder — gritava um cliente de vez em quando.
— Querem envenenar-me, chamem a polícia! — vociferavam outros.
Mas o senhor Isidoro não se deixava convencer, e nada dizia, até porque a maioria dos clientes aprovava a mudança e Djuku conseguia realizar pratos suculentos.
Uma nova vida começava para Djuku na BARRIGA DA BALEIA.

Segue: A viagem de Djuku II

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A viagem de Djuku

Anterior: A Viagem de Djuku I

Nem sempre prestamos atenção às pessoas que nos rodeiam e, mais raramente ainda, procuramos saber qual é a sua história – será que nos falta coragem?
Vinda de muito longe, Djuku é uma dessas pessoas;
 aqui está um pedaço da sua história.

5

Se alguma coisa atraiu a atenção do senhor Isidoro foram as mãos de Djuku. Aliás, ao longo dos vários meses que Djuku passou a trabalhar na BARRIGA DA BALEIA, as coisas resumiam-se a isto: para ele e para os clientes habituais do restaurante, Djuku não era mais que duas mãos, uma esquerda genial, uma direita fabulosa.
Convém saber que, durante o dia, Djuku não aparecia na sala do restaurante, e como ela vinha trabalhar de manhã cedo, só saindo muito depois do fecho, ninguém sabia ao certo quem ela era, como ela era. Só as suas mãos eram conhecidas do «público».
É que era um espectáculo, como dizer, real, ver aquelas mãos elevando um prato através da abertura que separa a cozinha da sala do restaurante. Djuku, numa palavra atirada ao criado de servir, anunciava o prato, mas a sua voz é demasiado doce para ser ouvida. Em palco estavam apenas as suas mãos.
Os clientes que pediam, fosse um qualulu, fosse uma galinha com molho de amendoins, passavam os minutos seguintes de olhos postos na abertura. Não eram poucos aqueles, mais nervosos, que chegavam a roer as unhas.
— Deviam ter pedido também uma entrada — aconselhava-os sempre o senhor Isidoro.
As mãos de Djuku são as suas ferramentas e o seu tesouro. Não serão o que podemos chamar belas: a palma é larga, os dedos finos de tamanho médio e bem assentes, as unhas compridas tratadas. A pele neste lugar do corpo parece um pergaminho e, no caso dela, é riscado por pequenas cicatrizes (talvez o preço de uma distracção no momento da aprendizagem).
É mesmo a graça dos seus gestos, a agilidade, o que encanta os clientes da BARRIGA DA BALEIA. As mãos dançam ao redor dos pratos até ao momento da entrega. Acontece às vezes descansarem na borda da abertura. Estarão a contemplar, satisfeitas, a vida ruidosa da sala do restaurante? Ou será que esperam alguém ou alguma coisa? É difícil saber. Elas partem sempre de súbito, saltitantes, para se agitarem ao redor dos fogões.

6

— Uau, este frio gela-me as mãos e o senhor Isidoro que nunca mais vem! Deve estar na cama, tudo lhe serve de pretexto para se lá meter! — constata Djuku divertida ao abrir as portas da BARRIGA DA BALEIA.
Não que precise do seu patrão para pôr em andamento a cozinha, ela já conhece o ritual. De imediato, deita mãos ao trabalho, pois tem muito que fazer. Acende os fornos, tira os alimentos da arca congeladora, e logo os seus dedos se afadigam, descascam legumes, amassam as pastas, preparam os caldos, confeccionam as sobremesas. Durante toda a manhã, Djuku não terá um minuto de descanso, mas assim que, aí pelo meio-dia, chegarem os primeiros clientes, tudo estará pronto. Nestas alturas, a aldeia está em bem longe. Djuku nem sonha.
Ao meio-dia dispara o tiro de partida! Todos os clientes afluem para almoçar. A confusão ameaça. Mas a comandante Djuku está ao leme e a BARRIGA DA BALEIA não aderna e continua a sua rota.
Segue-se a calma da tarde. Djuku conta com um repouso bem merecido. Mas, com cada vez mais frequência, é assaltada por antigas imagens, incómodas como crianças turbulentas mantidas demasiado tempo à mesa e que têm necessidade de esticar as pernas.
«Antes», pensa, «todos sabiam quem era Djuku, agora eu sou uma sombra que passa, que vai para o trabalho de manhã e que regressa à noite. Aqui ninguém me conhece, sou uma sombra sem história.»
Olha à sua volta e o que vê fá-la sorrir: ela imagina a aldeia, a savana, os campos de arroz, o sol quente na sua pequena cozinha!
«Por que raio não será isso possível? Um dia», pensa, «será preciso que o que eu vivi se case com o que eu vivo, que o restaurante fique noivo da aldeia.»
Uma ideia engraçada que a fez, primeiro, rir e, depois, chorar.

7

É noite. O restaurante está fechado. Um a um, todos os clientes se foram. Até o senhor Isidoro já foi para sua casa. Djuku ficou sozinha. Sentada, olha as palmas das mãos, a geografia das rugas da sua pele, talvez procurando um caminho a seguir.
Tudo está calmo na cozinha. Mas Djuku ouve um barulho imenso. Os objectos, acolchoados no interior dela, estão ali, agitados, barulhentos, e querem escapar a qualquer preço.
«O vosso lugar não é aqui», suplica Djuku, «deixem-se estar sossegados.» Eles não queriam ouvir nada e continuaram com a sua terrível algazarra. Então, uma vez mais, Djuku conta a historia a si mesma. Em voz alta, invoca a aldeia e as suas gentes, o calor que faz quando o Sol atinge o seu zénite, o odor do carvão de madeira, do peixe que foi posto a secar nos telhados das casas, o da poeira que tudo invade.
Absolutamente decidida, entra no restaurante.
A sua memória, tão viva, apazigua-se a pouco e pouco. Quando tudo parece voltar a estar em ordem, que de novo nela se instalou a paz, Djuku deixa o restaurante e vai para casa descansar.

8

Quando Djuku cozinha, tudo o resto perde importância.
Os clientes na sala bem podem falar alto e grosso, a rádio e a televisão bem podem armar zaragata, que Djuku consagra-se à sua tarefa de tal maneira que só ouve as encomendas do criado de servir. Ela é como uma rainha no seu reino e cada uma das suas coisas, marmitas, panelas, pratos, talheres, especiarias, pratos ou fogões, a protegem da confusão, mantendo-a no centro daquele forte, a cozinha. Nem mesmo o senhor Isidoro pode ali entrar.
Certo dia, contudo, um estranho projéctil atingiu Djuku em cheio: era uma palavra.
Uma palavra que havia escapado da boca do apresentador de televisão. Djuku deixou cair a batata e a faca que segurava nas mãos e deixou-se literalmente invadir. A palavra cresceu nela, ganhou balanço, fez-se furacão, explosão. Acabou por inundá-la, deixando apenas uma casca vazia, desorientada, frágil.
Djuku entrou na sala e dirigiu-se, hipnotizada, para a televisão. Ao vê-la de lágrimas nos olhos, os clientes calaram-se todos, olharam uns para os outros e interrogavam com esse mesmo olhar o senhor Isidoro.
Este, sentado no lugar do costume, perguntou com voz inquieta:
— Está tudo bem, Djuku?
Ela não respondeu. Assoou o nariz com o punho. Soluçava.
«Deve ter queimado os dedos», pensa um cliente.
— Minha senhora, a caldeirada estava fa-bu-lo-sa, devorei-a todinha! Veja aqui o meu prato — diz-lhe outro.
— Mas o que é que se passa hoje? — perguntaram de súbito a uma voz todos os clientes.
Pela primeira vez desde a chegada de Djuku, os clientes da BARRIGA DA BALEIA viram-na e olharam-na verdadeiramente.
A palavra, insignificante para eles, era o nome da aldeia de Djuku.

9

O senhor Isidoro agarrou-a pelos ombros e fê-la sentar-se.
— Seca as tuas lágrimas, Djuku. Diz-nos o que te aconteceu.
Aconteceu então o seguinte. Djuku, que já havia retomado o fôlego, começou a contar e os objectos que estavam há tanto tempo dentro dela saíram da sua boca para virem, à vez, pontuar o seu discurso: a partida da aldeia, a viagem, a chegada à cidade e à BARRIGA DA BALEIA, o trabalho e a sua grande solidão. Os clientes e o senhor Isidoro apanhavam os objectos à medida que eles surgiam.
A velha guitarra de Quecuto saiu do seu corpo com os perfumes das músicas tantas vezes ouvidas, e um cliente apanhou-a para a tocar.
A palmeira inclinada e o embondeiro do lago saíram do seu corpo e um cliente pegou neles e foi pô-los junto à entrada do restaurante.
O caldeirão do Nhô-Nhô saiu do seu corpo e um cliente colocou-o no meio da sala.
A casa de Pepito saiu do seu corpo e os clientes apossaram-se dela para arrumar a sala.
A barca e as redes de pesca de Benvindo saíram do seu corpo e os clientes colocaram-nas à sombra do embondeiro.
Sim, logo em seguida Djuku sentiu-se aliviada e em paz. Viu as coisas que estavam nela firmemente atadas como carga de um navio partilhadas por todos. Percebeu imediatamente que a aldeia tinha desposado o restaurante.
Agora toda a gente conhecia a história de Djuku.
— Não podemos ficar aqui! — disse alguém.
— É preciso festejar isto — disse um outro — como na aldeia!

Nota ao leitor

Depois deste famoso dia, a divisória que separava a cozinha da sala do restaurante foi derrubada pelo senhor Isidoro com as suas próprias mãos.
Leitor, se tiveres vontade de ir à BARRIGA DA BALEIA para saborear os melhores pratos que existem, não deixes de trocar dois dedos de conversa com Djuku, agora que ela cozinha no meio de todos. E já agora, por favor, pede-lhe da minha parte notícias da aldeia.

Alain Corbel
A viagem de Djuku
Lisboa, Caminho, 2003

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História de um rapaz

 

Ouve, Amigo, a história que te vou contar. Não é uma história triste nem alegre. Não é uma história de paz nem é uma história de guerra. É a história de um rapaz. O José.

Eu conheci José era ele um menino marinheiro, assim com uma blusa à marinheira muito azul: um menino que brincava com barcos de papel.

Se ele tinha os olhos azuis? Não. Nem verdes. Os seus olhos eram castanhos como as cascas dos troncos sem musgos, ora muito sérios, ora muito risonhos, nem eu sei explicá-lo.
E o José tinha crescido. E a blusa à marinheira desbotara um pouco enquanto ele, ao sol, via deslizar os barcos de papel no charquito do quintal.
Eram pequeninos aqueles barcos, mas José julgava chegar com eles às terras mais distantes, parecia-lhe que ficava molhado dos temporais e que a sua tripulação era feita de cem meninos de olhos azuis, verdes e de cor de casca de árvore como os seus. E com eles tão longe navegava!

Mas um dia distraiu-se daqueles barcos de papel.

No seu quintal (é tão bom termos um palmo de terra com árvores, flores e pássaros!), entre as folhas douradas de uma árvore (estava-se no Outono, Amigo, quando uma névoa dourada começa a tombar sobre a Terra), pois, como ia dizendo, no meio dessas folhas douradas, assomou a cabecinha de um pássaro. Era um pardal.

O pássaro olhava-o tristemente, sem fugir. E o menino estendeu a mão (uma mão enrugada pela água, pois ele tinha sempre as mãos na água ao brincar com os seus barcos, uma mão ainda de criança), e pegou-lhe devagar como quem pega num bocadinho de sol, de lua ou até de música, se tudo isto se pudesse alguma vez prender.

E o pardalzito olhava-o tristemente. Parecia dizer-lhe:

— Vês, José, o que me fizeram?

Estava ferido, teria sido outro pássaro maior, algum caçador, quem sabe?

E o menino pensou consigo, sozinho:

— Que lhe hei-de fazer? Que lhe farei? Levou-o perto da água, a água sua amiga, que lhe era estrada dos seus barcos, e o passarito cheio de sede (talvez tivesse febre porque também têm febre os passaritos) bebeu daquela água do charco do quintal. Então, de súbito, o José pensou consigo sozinho:

— Passo aqui tanto tempo com os meus barcos e há tanta coisa linda que não olho. Porque eu nunca olhei assim os olhos de um pássaro.

Ele queria dizer lá consigo, talvez:

— Passo aqui tanto tempo e há tanta beleza que eu deixo de olhar, tanto bem que eu deixo de fazer…

Porque os meninos sentem muito, mesmo que o não digam com palavras, ou por palavras que não são bem as das pessoas crescidas que já se esqueceram do seu tempo de meninos.

E, então, o José foi ter com a mãe, subiu os degraus da casa com o passarito na mão: já se sentia cansado de pensar sozinho e não sabia mais o que havia de fazer-lhe.

E o passarito parecia sempre perguntar:

— Vês o que me fizeram?

A mãe estava em casa a embalar a irmã pequenina, que não tinha uma blusa à marinheira mas um casaquinho fofo que parecia uma flor de amendoeira acabada de nascer. E a mãe cantava, assim com a menina, como se estivesse a cantar para as estrelas. A mãe cantava assim:

O meu cantar é uma nuvem
E uma nuvem é de água…

Quando o menino apareceu, a mãe interrompeu a canção.

A menina fazia clá… clá… clá… assim querendo dizer, talvez, mãe, pai, José, pássaros, a Lua, eu sei lá!

E a mãe perguntou:

— Porque apanhaste o pardalzito?

E o José explicou que ele estava ferido e que o olhava aflito como quem dizia:

— Vês o que me fizeram?

Então a mãe pegou muito devagar no pardalzito, assim de manso com as duas mãos: há alturas em que as mãos das mães parecem flores ou asas! E disse:

— Deixa, faz-se-lhe um ninho e quando ele estiver bom deixa- se voar.

— Deixa-se voar? — perguntou o José como se dissesse que o queria para si, que dele haveria saudade.

E a mãe entendeu:

— Deixa-o voar depois, José. Não voas tu sozinho, quando olhas os teus barcos ou os próprios pássaros que voam?

— Mas eu não saio do quintal!

— Mas voas, José, tu o sabes. O homem voa, é livre, deve ser livre, pois tem o pensamento: e tu, quando tiveres tino, dos muros do nosso quintal sairás. Agora, os pássaros precisam de todo o espaço para voar. Talvez tenham pensamento, mas nós não sabemos…

E, por fim, perguntou:

— Onde o encontraste?

— Na árvore — respondeu José — entre as folhas amarelas do Outono.

A mãe disse consigo sozinha: isto parece um poema…

Mas não o disse alto porque o menino a não entenderia.

Mas tu sabes, Amigo, o que é um poema e sabes que um pássaro ferido, numa árvore, e entre folhas douradas de sol, o pode ser assim.

A irmã pequenina continuava clá… clã… clã… como se fosse uma flor e falasse.

E depois a mãe foi buscar uma pequena caixa de cartão branco e forrou-a de lã.

E lá poisou o pardalzito e meteu-lhe no bico migalhas brancas de pão.

E o pardalzito olhava a mãe do menino como se dissesse:

— O que tu me fazes…

Mas já o menino, com o coração sossegado, fugira para o quintal.

Havia um sol de Outono manso e dourado que punha mais ouro nas folhas e no charquito azul – o mar dos seus barcos.

Sentou-se José na relva macia do chão e apoiou a cabeça numa pedra ainda quente do sol. E pareceu-lhe ouvir um coração bater. E pensou consigo sozinho:

— Será que as pedras também têm coração?

Porque lhe parecia assim, naquela tarde de Outono?

Estaria ele a descobrir coisas maravilhosas da vida?

Ali perto uma cigarra começou o seu canto sempre igual, mas tão claro e tão lindo.

Tinha sido o pássaro, depois a pedra, agora aquela cigarra sempre a dizer-lhe a mesma coisa – e tanto, afinal! – assim como aquele poema de que a mãe lhe não falara.

E começou a olhar tudo com mais atenção. Ali estava aquela figueira que ele sempre achara feia, torcida, de folhas rugosas. Comparada com a laranjeira de folhas cheias de lustro e brilhantes e – uma vez por ano – com uns frutos que pareciam de oiro, a figueira era feia, feia…

Mas agora não. Como é que ele nunca a tinha olhado?

A figueira era bonita, até mais que bonita, linda, com um ar de quem sofreu e, por isso, merece mais amor.

Daí para o futuro havia de passar muitas vezes por ela e dizer- lhe:

— És linda, figueira, és linda!

Assim mesmo à beira para a figueira ouvir. Escusava até de lho dizer alto com palavras. Então não era linda? Não lhe pousavam pássaros que ali vinham parar cansados?

E o vento, de mansinho, pelas folhas ásperas, como se o vento fosse a mãe – quando a mãe a José beijava as mãozitas de água enrugadas.

E José tudo isto pensava, tudo isto sonhava. E adormeceu.

Era o pôr-do-sol.

Já no céu a Lua muito branca começava a balouçar, assim um pouco tremente como se tivesse frio. E a estrela dos pastores – a que aparece primeiro – de uma cor brilhante de violeta desmaiada num xaile de luz parecia dizer:

— Aí vem a noite e as estrelas minhas irmãs!…

E, então, o menino deixou-se dormir de mansinho. E sonhou. José já não era o menino de blusa à marinheira mas um homem.

Ai, o que é um Homem, Amigo! Qualquer coisa de muito, muito sério!

No ar andava um perfume de maçã cortada e ele havia chegado a uma ilha com todos os seus barcos, toda a sua frota que já não era de papel.

E a blusa marinheira tornara-se outra vez muito azul, muito azul, assim como o céu quando não há sol demais.

Chegara a uma ilha e todos lhe diziam:

— Bom dia, senhor Capitão!

E nessa ilha as pedras tinham coração e os pássaros falavam.

Os pássaros não eram feridos pelo caçador, nem por outro pássaro maior que os fazia sofrer.

Nessa ilha havia homens de cor branca, de cor amarela e de cor negra, mas esses homens eram todos estranhamente iguais.

E, ali, veio um Homem grande e perguntou-lhe:

— Rapaz, quem és tu?

— Eu sou o José de blusa marinheira — ele respondeu.

E o Homem perguntou-lhe mais:

— Rapaz, de onde vens tu?

— Eu venho do meu quintal que tem árvores, pássaros e um charquinho de água — ele respondeu.

E o Homem perguntou mais ainda:

— Rapaz, quem é a tua mãe?

— A minha mãe é a minha mãe que trata de nós e canta uma cantiga triste à nossa menina — ele respondeu.

E o homem perguntou mais ainda:

— És rico, rapaz?

Então José não soube o que responder. Ele não tinha nada. Mas pensou no pai, na mãe, na menina, nos pássaros, na figueira feia, na laranjeira linda, nas pedras quentes do sol e no charquinho do quintal. E encolheu os ombros como quem diz:

— Nada… — Ou: — Tanto! E sorriu.

Então o menino devia parecer ao Homem grande uma grande estrela.

E os barcos do menino seriam de ouro e as suas velas de seda.

— Rapaz, és mesmo tu quem eu procuro! — disse o Homem grande.

— Porquê? — E o menino se admirou, todo se admirou.

— Tenho um trono. Sabes o que é um trono, rapaz? — perguntou o Homem.

E o rapaz disse que sim, que sabia.

— E o trono está vazio — tornou o Homem. — Para cada criança há um trono vazio. E agora és tu quem se lá vai sentar.

O menino, sem saber porquê, lembrou-se do pássaro ferido e sentiu-se esse pássaro nas suas próprias mãos. E gritou:

— Não quero, Homem grande. Eu quero voltar para o meu quintal, para junto do meu pai, da minha mãe, da nossa menina.

— Rapaz! — tornou o Homem — Não deixes fugir o que te ofereço agora. Tu sabes bem o que é um trono?

— Sei — fez ele que sim outra vez.

— E sabes que no meu reino os pássaros falam, as pedras têm coração, todas as mães são felizes e todos os homens contentes? Nem sequer há pássaros feridos que nos digam: Vês o que me fizeram? Esse é o Mundo que o Homem sonha e não tem ainda. E por isso sofre.

E o menino pensou consigo sozinho:

— Homem grande, adivinhaste os meus pensamentos.

E o Homem sorriu como se o tivesse escutado. Então o menino pensou mais sozinho:

— Será que já não sou criança? Que já não sou mais criança?

E o Homem grande sorriu mais ainda, como a dizer-lhe:

— Talvez não.

E o menino pensou com tristeza: — E eu que gostava tanto de ser homem e estou assim tão triste… Mas tenho saudades de beijar o meu pai quando ele vem de trabalhar a terra, de ouvir o canto triste da minha mãe (triste e, ao mesmo tempo, tão cheio de esperança!) quando ela embala a nossa menina.

Saudade da nossa menina só dizer clá… clá… Saudades! Saudades do meu quintal, dos meus barcos de papel, do charquinho de água cheio de sol. Até da figueira linda, até da chuva a cair…

E entendeu o que a mãe lhe não tinha dito quando as suas mãos longas e belas seguravam o pássaro ferido que ele achara entre as folhas de Outono.

E, então, disse ao Homem grande:

— Não quero o teu trono…

— Por Deus! Tens de o querer. Tu cresceste! A tua blusa marinheira cá a mim, que sou grande, parece-me um céu, mas se a olhares bem, tu, ela está desbotada. Todos nós, homens, temos uma blusa assim.

Ser grande, José (eu sei agora o teu nome), é acharmos as figueiras lindas, entendermos o canto dos pássaros, escutarmos o coração das pedras, sabermos que há uma ilha verde onde nascem as estrelas e os homens são bons. Assim. Tudo quanto sonhamos em criança mas sabermos que tudo isso é verdade dentro de nós. Que essa beleza depende de nós, do nosso coração. Estás a entender, rapaz?

O José tornou que sim com os olhos brilhantes de lágrimas… – que também se chora de alegria. Não ser mais criança era aquilo: saber que o Amor está no nosso coração, que somos nós que devemos dar essa força imensa.

E tornou a sorrir.

Então o Homem grande bradou:

— Senta-te no trono, rapaz! És um Homem! O menino hesitou, estremeceu ainda como a primeira estrela no céu azul.

— Tens medo, rapaz? — perguntou o Homem. E o rapaz, sem saber como, disse:

— Eu, medo? Medo não. Tudo isto é maravilhoso!

— É — continuou o Homem grande. — Vais sentar-te no trono da Vida. Para cada Homem verdadeiro, para cada Mulher verdadeira, ele está sempre vazio.

— Um dia — acrescentou melancolicamente — terás cabelos brancos e eu virei de novo ter contigo.

O rapaz estremeceu e pensou consigo sozinho:

— Cabelos brancos? Assim da cor da neve do Natal? Então é verdade que a vida passa depressa e eu terei já a neve nos meus cabelos?

E o Homem grande entendeu-lhe o pensamento e sorriu-lhe com coragem:

— Passa, rapaz! Ela vai devagar mas vai passando. Aproveita- a cada dia, cada hora, como se fosse o teu último dia, a tua última hora: não percas tempo… Vê em cada ser, em cada coisa, um motivo de amor, de perdão.

— Perdão? — admirou-se o rapaz.

— Sim, rapaz. É sempre preciso perdoar. O pássaro que está em tua casa já perdoou quando te disse sem mal: vês o que me fizeram?

A figueira já te perdoou quando a achaste feia. E até te perdoou tua mãe quando achaste triste o seu canto.

Perdão é entendimento pelas fraquezas da vida, mas não esquecimento: é força para assim a não querer, para a tornar melhor.

E José disse:

— Lá vou!

E correu para o trono, para ali se sentar confiante, cheio de alegria e estendeu abertas e felizes ao Homem grande aquelas duas mãos de menino ainda, mãozitas enrugadas de água.

Mas de súbito a voz do Homem grande era a voz do pai.

— Rapaz, adormeceste!

O pai chamava-lhe rapaz. Ainda. Talvez sempre lho chamasse. As mãos do pai eram rugosas, cheias dos calos do trabalho da terra e prendiam as suas.

— Rapaz, deixaste-te dormir assim com a cabeça numa pedra…

E o pai sorria.

O ar cheirava a maçã cortada e a Lua muito nítida brilhava no céu escuro de tanto azul. Entraram em casa. A mesa estava posta, a terrina do caldo no meio da mesa, fumegante.

O pai perguntou:

— Como está a nossa menina?

E a menina, no berço, fazia clá… clá…

Então a mãe, enquanto deitava o caldo nos pratos, disse contente:

— Já hoje disse papá…

E depois voltou-se para o rapaz, assim como com medo de lhe dar uma notícia triste:

— Sabes que morreu o pardalzinho? Amanhã já não o podemos pôr em liberdade…

Mas o José sorriu-lhe, corajoso. Se fosse ainda uma criança, talvez chorasse. Mas já se havia sentado num trono onde se chora sem o dizer, onde se é rei para defender os outros de qualquer mágoa.

E sorriu à mãe, como se lhe dissesse:

— No meu trono hei-de tornar o teu canto tão alegre como as estrelas.

E tanta coisa mais ele pensou. Tanta coisa que não disse e a mãe sentiu.

E pela madrugada, sozinho, foi enterrar no quintal o pássaro morto: era a sua própria infância que ali ficava guardada, a blusa marinheira, os barcos de papel.

Daí para o futuro o pai diria: O meu rapaz!

A mãe, quando cantasse, havia de ter um canto mais contente.

Ele próprio já não sabia se era o José, se o Homem grande que lhe sorria no sonho, ao anoitecer, e lhe falara, quando ele sentira o coração da pedra onde deitara a cabeça e adormecera.

E, assim, Amigo, aqui finda esta história que não é de paz nem de guerra.

E assim finda esta história que não é de paz nem de guerra e, se não é uma história de Amor, que a Vida me perdoe…

Matilde Rosa Araújo
História de um rapaz
Livros Horizonte, 1986

adaptado

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A menina e o pássaro encantado

Para o adulto que for ler esta história para uma criança:

Esta é uma história sobre a separação: quando duas pessoas que se amam têm de dizer adeus…
Depois do adeus, fica aquele vazio imenso: a saudade.
Tudo se enche com a presença de uma ausência.
Ah! Como seria bom se não houvesse despedidas…
Alguns chegam a pensar em trancar em gaiolas aqueles a quem amam. Para que sejam deles, para sempre… Para que não haja mais partidas…
Poucos sabem, entretanto, que é a saudade que torna encantadas as pessoas. A saudade faz crescer o desejo. E quando o desejo cresce, preparam-se os abraços.
Esta história, eu não a inventei.
Fiquei triste, vendo a tristeza de uma criança que chorava uma despedida… E a história simplesmente apareceu dentro de mim, quase pronta.
Para quê uma história? Quem não compreende pensa que é para divertir. Mas não é isso.
É que elas têm o poder de transfigurar o quotidiano.
Elas chamam as angústias pelos seus nomes e dizem o medo em canções. Com isto, angústias e medos ficam mais mansos.
Claro que são para crianças.
Especialmente aquelas que moram dentro de nós, e têm medo da solidão…

Era uma vez uma menina que tinha um pássaro como seu melhor amigo.

Ele era um pássaro diferente de todos os demais: era encantado.

Os pássaros comuns, se a porta da gaiola ficar aberta, vão-se embora para nunca mais voltar. Mas o pássaro da menina voava livre, e vinha quando sentia saudades… As suas penas também eram diferentes. Mudavam de cor. Eram sempre pintadas pelas cores dos lugares estranhos e longínquos por onde voava. Certa vez voltou totalmente branco, cauda enorme de plumas fofas como o algodão…

— Menina, eu venho das montanhas frias e cobertas de neve, tudo maravilhosamente branco e puro, brilhando sob a luz da lua, nada se ouvindo a não ser o barulho do vento que faz estalar o gelo que cobre os galhos das árvores. Trouxe, nas minhas penas, um pouco do encanto que vi, como presente para ti…

E, assim, ele começava a cantar as canções e as histórias daquele mundo que a menina nunca vira. Até que ela adormecia, e sonhava que voava nas asas do pássaro.

Outra vez voltou vermelho como o fogo, penacho dourado na cabeça.

— Venho de uma terra queimada pela seca, terra quente e sem água, onde os grandes, os pequenos e os bichos sofrem a tristeza do sol que não se apaga. As minhas penas ficaram como aquele sol, e eu trago as canções tristes daqueles que gostariam de ouvir o barulho das cachoeiras e ver a beleza dos campos verdes.

E de novo começavam as histórias. A menina amava aquele pássaro e podia ouvi-lo sem parar, dia após dia. E o pássaro amava a menina, e por isto voltava sempre.

Mas chegava a hora da tristeza.

— Tenho de ir — ele dizia.

— Por favor, não vás. Fico tão triste. Terei saudades. E vou chorar… — E a menina fazia beicinho…

— Eu também terei saudades — dizia o pássaro. — Eu também vou chorar. Mas vou contar-te um segredo: as plantas precisam da água, nós precisamos do ar, os peixes precisam dos rios… E o meu encanto precisa da saudade. É aquela tristeza, na espera de regresso, que faz com que as minhas penas fiquem bonitas. Se eu não for não haverá saudade. Eu deixarei de ser um pássaro encantado. E tu deixarás de me amar.

Assim, ele partiu. A menina, sozinha, chorava à noite de tristeza, imaginando se o pássaro voltaria. E foi numa dessas noites que ela teve uma ideia malvada: “Se eu o prender numa gaiola, ele nunca mais partirá. Será meu para sempre. Não mais terei saudades. E ficarei feliz…”

Com estes pensamentos, comprou uma linda gaiola, de prata, própria para um pássaro que se ama muito. E ficou à espera. Ele chegou finalmente, maravilhoso nas suas novas cores, com histórias diferentes para contar. Cansado da viagem, adormeceu. Foi então que a menina, cuidadosamente, para que ele não acordasse, o prendeu na gaiola, para que ele nunca mais a abandonasse. E adormeceu feliz.

Acordou de madrugada, com um gemido do pássaro…

— Ah! menina… O que é que fizeste? Quebrou-se o encanto. As minhas penas ficarão feias e eu esquecer-me-ei das histórias… Sem a saudade, o amor irá embora…

A menina não acreditou. Pensou que ele acabaria por se acostumar. Mas não foi isto que aconteceu. O tempo ia passando, e o pássaro ficando diferente. Caíram as plumas e o penacho. Os vermelhos, os verdes e os azuis das penas transformaram-se num cinzento triste. E veio o silêncio: deixou de cantar.

Também a menina se entristeceu. Não, aquele não era o pássaro que ela amava. E de noite ela chorava, pensando naquilo que havia feito ao seu amigo…

Até que não aguentou mais.

Abriu a porta da gaiola.

— Podes ir, pássaro. Volta quando quiseres…

— Obrigado, menina. Tenho de partir. E preciso de partir para que a saudade chegue e eu tenha vontade de voltar. Longe, na saudade, muitas coisas boas começam a crescer dentro de nós. Sempre que ficares com saudade eu ficarei mais bonito. Sempre que eu ficar com saudade, tu ficarás mais bonita. E te enfeitarás, para me esperar…

E partiu. Voou que voou, para lugares distantes. A menina contava os dias, e a cada dia que passava a saudade crescia.

— Que bom — pensava ela — o meu pássaro está a ficar encantado de novo…

E ela ia ao guarda-roupa, escolher os vestidos, e penteava os cabelos e colocava uma flor na jarra.

— Nunca se sabe. Pode ser que ele volte hoje…

Sem que ela se apercebesse, o mundo inteiro foi ficando encantado, como o pássaro. Porque ele deveria estar a voar de qualquer lado e de qualquer lado haveria de voltar. Ah!

Mundo maravilhoso, que guarda em algum lugar secreto o pássaro encantado que se ama…

E foi assim que ela, cada noite ia para a cama, triste de saudade, mas feliz com o pensamento: “Quem sabe se ele voltará amanhã….”

E assim dormia e sonhava com a alegria do reencontro.

Rubem Alves
As mais belas histórias de Rubem Alves
Lisboa, Edições Asa, 2003
Tesxto adaptado

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Uma viagem no verde

Acordei com a palavra água
a dançar-me na boca. Tive sede, muita sede,
e fui beber. O dia, lá fora, estava azul
e tinha o tamanho de um rio
ou de uma cidade fantástica, e sorria.

O sorriso do dia é igual ao do sol.
É largo e branco. Tem dentro
os frutos doces da calma das manhãs,
e se for Verão são capazes de matar
a fome e a sede que têm os bichos,
que têm os homens, que têm as casas.

Visita-me agora um pássaro e diz-me: estou
doente do fumo e da pressa do voo.
Quero um ramo alto para fazer poiso
e só encontro telhados, antenas de televisão,
cidades com tosse, nuvens tristes, aviões
carrancudos nas estradas do céu.

É um pássaro bonito de asas largas
e penas cor de arco-íris. Gostava de ser
um pássaro assim, eu que também
não gosto do fumo nem da pressa do voo.
Fica poisado no meu dedo a falar-me
do mapa das coisas que tem na cabeça,
a cantar-me as cantigas de vento
que traz na ponta do bico, a dizer
que o Inverno é um sopro gelado
que magoa o sol e os ossos das casas
e enregela a casca das árvores
e as escamas brilhantes no dorso dos peixes.

Para mim o Inverno é não estar ninguém
em casa quando a gente volta
das terras quentes da beira do mar
com a boca a saber a morangos silvestres.

O pássaro sabe os segredos da sombra
das estátuas quietas nos jardins
mas não os conta a ninguém. Leva-os
guardados na bagagem do voo
e diz-me adeus lá de cima, empurrando
uma nuvem de fumo com a ponta da asa,
riscando o silêncio da noite
com a música que aprendeu a voar.

Como se chama? Que nome é que tem?
Vejo-o partir e nem lhe pergunto.
Há-de voltar quando for tempo, há-de voltar
na estação das ondas mansas trazendo notícias
dos bandos que cantam por cima do mar.

Depois de água, digo pedra
e na pedra vejo os nomes antigos
de reis e princesas, de magos e bruxas,
de cavaleiros andantes que andam cansados
das guerras já feitas, das por fazer,
das que moram nos livros da história,
das que deixam sinais na lembrança.

Andam tristes os bichos da terra
por verem crescer cidades sem sol
sobre as pedras esquecidas,
perdidas no tempo com tudo por contar.
«Vamos salvar o que resta das pedras!» —
dizem os bichos da terra, sentados
em círculo à volta do fogo, e eu oiço-os
falar e oiço-os sonhar e dou-lhes razão,
razão que sobra para os ajudar.

Depois da água e da pedra, digo fogo
e fico a tremer, não de frio, mas de medo,
com medo de ver a floresta ardida, a casa
queimada, o cereal em cinza, o pão
por fazer. Oiço sirenes, gritos na noite
e volto a tremer com medo do fogo, da chama
que chama mais fogo, mais fogo. Chega a água
e apaga o lume. Saltam da toca os bichos da terra
e fazem uma roda contentes, por verem
a seiva a correr, a floresta de novo
a cantar com árvores velhas, sábias e firmes
dançando belas canções de embalar.

Cai uma lágrima do rosto da lua
e é branca e limpa como um floco de neve.
Que dor a faz chorar? «Anda inquieto,
triste, zangado, e quem sofre é a paz!»
Na rima que faz, razão não lhe falta.

Entretém-se o poeta com esta lua redonda,
cansada de noites e noites no centro do céu
a servir de candeia contra a escuridão.
Que se guerreiem não gosta, faz-lhe doer
o seu rosto de lua, o círculo branco
das coisas que sente, das coisas que sabe.

Está lá em cima poisada há tanto, tanto
tempo que já se esqueceu da idade que tem,
dos nomes que teve nos livros antigos
dos povos que deram a forma do arado,
ao fogo, ao ferro e à roda. É mãe das marés
e gémea dos ventos, companheira das águas,
vizinha de sombras e dos vulcões. Anda agora
aflita por ver ferros em lugar de abraços.
E chora como só as luas sabem chorar:
lágrimas brancas como pérolas que chegam
à terra e se tornam crateras fundas
para guardarmos os sonhos melhores.
Apago a luz logo que a noite vem e fico a olhá-la,
triste por não poder tocar-lhe.

No rio que passa perto de mim
queixa-se, azul, um peixe pequeno. Diz:
é o óleo que mata cardumes, cavalos marinhos,
que suja os corais, as algas, as praias.
Falas iguais têm outros peixes, pequenos e grandes,
Azuis ou vermelhos. Sofrem a mesma dor:
uma dor de água turva, que faz arder
os olhos e deixa nas guelras
um gosto amargo que sabe a doença.
Tens razão, pequeno peixe azul
da profundeza do mar.

Vejo um barco à vela que leva crianças
brincando na proa e molhos de sonhos
tapados com panos de linho no meio do convés.
Sabe histórias do rio e do mar
e só tem pena do tempo que passou,
sentido por não poder navegar. Segue
a rota do peixe debaixo da onda,
e quando divide a espuma em metades iguais
parece um deus antigo, vindo de um continente
perdido no oceano das lendas.
Quero ir neste barco, mas não posso.
Só posso sonhar que vou. As viagens que faço
são sempre assim: sonhadas, sonhadas,
como se nunca mais acabassem,
como se nunca chegassem a começar.

Já disse água, azul, fogo e pedra.
Depois disse seiva, pássaro e lua.
Estas palavras são o meu alimento
e a minha memória. É com elas que vivo,
que moro e que brinco. O que sou é isto:
um duende-poeta, um gnomo-cantor
que sabe o tudo e o nada da vida das coisas
e se afunda nelas até perceber
o que são, o que querem, o que sofrem.

As palavras que digo dão corpo
às coisas que penso, e o que penso é
uma vontade grande de não ver morrer
a planta, o rio, a ave, a memória branca
que há dentro das pedras.

Tenho tão pouco, quase nada para dar:
só esta maneira de fazer poesia a falar.

Gosto dos bichos, das sementes, das pedras
raras que há nos abrigos da noite. Que mal
é que tem? Sou um duende-poeta, e as lembranças
que tenho não são de ontem, são de amanhã,
do tempo que as estrelas me dizem
que ainda está para chegar, que as aves
me contam que não pode tardar. E se às vezes
rimo a falar é por saber a música salgada
das ondas bravas do mar.

Não me podem apanhar, que eu sou tudo
aquilo que vejo e que amo: a floresta,
a duna, o rio, a maré, a seara de luz,
o galope do vento num areal feito de prata.

Sou irmão do homem quando o homem
é irmão daquilo que eu amo. Se não for,
nem tempo perco a estender-lhe a mão.

Como sou um duende-poeta, acordo
com sede de sol, de água e de espuma
e uma flor azul a bater imensa no coração.

José Jorge Letria
Uma Viagem no Verde
Lisboa, Vega, 1989
Texto Adaptado

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