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Archive for the ‘contos infantis’ Category

A igreja do rei

Tradição Cristã

Era uma vez um rei que quis edificar uma igreja magnífica em honra da Virgem, decretando que ninguém nos seus estados pudesse contribuir para a obra, ainda mesmo que com a mais pequena quantia. Quando o edifício se concluiu, enorme, soberbo, grandioso, mandou o rei gravar numa pedra de mármore uma inscrição em letras de oiro, que dizia que só ele, e mais ninguém, tinha levado a cabo aquela obra monumental. Mas, na noite seguinte, o nome do rei foi apagado da inscrição, substituído pelo de uma pobre mulherzinha do povo. O rei, ao outro dia, tornou a mandar gravar o seu nome na inscrição, e de novo foi substituído pelo da pobre mulher; à terceira vez, sucedeu o mesmo. O rei, cheio de cólera, ordenou então que lhe levassem a mulher à sua presença.

— Proibi a todos os meus vassalos — disse ele — que contribuíssem fosse com o que fosse para a edificação desta igreja; vejo que não cumpriste as minhas ordens.

— Senhor — respondeu a velhinha toda trémula – eu respeitei as vossas ordens, apesar da mágoa que sentia por não poder oferecer o meu pequenino óbolo em honra da Virgem, mas julguei não desobedecer a Vossa Majestade, deixando por vezes de jantar para comprar um pouco de feno, que eu levava às escondidas aos bois que conduziam as pedras destinadas à construção da igreja.

— O teu nome é mais digno do que o meu de figurar em letras de oiro na inscrição do monumento — disse-lhe o rei.

Mas, na noite seguinte, uma invisível mão restabeleceu na lápide da igreja o nome do rei, que desde então lá se conserva ainda.

Guerra Junqueiro
Contos para a Infância
Porto, Editora Justiça e Paz, 1987

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Nem só de pão

— Mas onde é que ele está? — pergunta o pai. — A escola já acabou há muito tempo!

A mãe vai, uma vez mais, ver o horário e meneia a cabeça. Percebe-se uma pontinha de medo na sua voz quando diz:

— Geralmente, já cá costuma estar…

— Não — o pai meneia a cabeça. — Não é bem assim. Lembras-te de que ele ainda no outro dia voltou a…

— Tirou a joaninha do passeio e foi pô-la na relva…

— Exactamente — diz o pai. — E não foi há tanto tempo assim que ele…

— Eu sei — diz a mãe. — Que ele queria tirar a minhoca do bico do melro…

— Então e não tirou a borboleta da poça de água?

— Salvou o abelhão de morrer na teia de aranha, queres tu dizer…

— Não interessa — diz o pai. — De qualquer forma, ele ainda não chegou.

“Está a demorar tanto…” pensa a mãe. “Tanto…”

Já tinha ido à janela espreitar primeiro para a rua, na direcção de onde ele costumava vir, depois para o outro lado e ainda para o parque em frente. Mas agora não podia deixar o que estava a fazer na cozinha

— Pronto, vou eu, então — consola-a o pai. — Eu encontro-o já!

“Se não tiver acontecido nada…” pensa a mãe.

Nesse momento, tocam com força à campainha. Os pais acorrem à porta. Matias precipita-se para dentro. O pai e a mãe olham para o filho, depois entreolham-se. O que irá ele dizer? Solta-se uma torrente de palavras:

— Sabem? Sabem? — exclama, ainda ofegante.

— Não —diz o pai afavelmente. — Não sabemos. Infelizmente, nós os dois não sabemos de nada.

— Ali em baixo está uma pomba que só tem uma pata!

Matias lança a novidade com os olhos arregalados de espanto e visivelmente excitado.

— Só tem uma pata, aquela pomba — continua. — A pata direita, e de cada vez que quer chegar à comida, bem… uma mulher estava a dar-lhe comida e vinham sempre as outras todas e eram muito mais rápidas. Eu dizia — xô, xô, — mas só assustava a que tinha uma pata e ela fugia… Voar, voava bem, mas no chão… e as outras… as outras…

As palavras perderam-se. Fica apenas um filho consternado que olha, desesperado, ora para a mãe, ora para o pai, durante muito tempo.

— E foi por isso que vieste tão tarde da escola? — pergunta o pai afavelmente — Outra vez?
Matias diz que sim com a cabeça.

— As pombas com duas patas roubam o pão à que só tem uma. Ela não é suficientemente rápida… é lenta, muito… demasiado lenta…

Os olhos assustados abrem-se ainda mais.

— Vai morrer à fome? — pergunta.

— Não, não vai — diz o pai com voz determinada. — A mãe já vai buscar alguma coisa à cozinha — e deita-lhe um olhar. A mãe defende-se:

— Agora vamos comer, se não, as panquecas…

Mas o pai nem sequer ouviu.

— …já traz pão da cozinha — diz.

— Mas aquecidas não são tão boas!

— …pão da cozinha, e depois vamos lá ver o que podemos fazer com a pomba, não é?

O pai parece muito divertido ao falar. A mãe traz pão da cozinha. Matias meneia a cabeça algumas vezes. Ainda está perturbado com o que acabara de ver.

— …e depois vêm sempre as pombas com duas patas — continua — e a que só tem uma encolhe-se. Salta para o lado, cheia de medo e…

— Onde é que ela está? — quer saber o pai.

Matias conduz os pais até ao banco verde perto dos arbustos. As pombas já estão à espera, sacodem as asas e esvoaçam, debicam o pão que as pessoas lhes deitam, gostam de ir comê-lo à mão.

— Agora vamos ver se juntos conseguimos — diz o pai com energia.

Ah! A pomba que só tem uma pata também aparece. Aproxima-se aos saltinhos, com dificuldade. Matias aponta para ela, saltita de um pé para o outro, aos gritos:

— Ali! Está ali! Estás a vê-la? Aquela ali! Aquela!

Não é mesmo nada fácil ajudá-la. Sozinho, Matias nunca teria conseguido dar-lhe de comer. — Xô, xô! — faz ele. Muitas vão embora, enquanto a pomba doente fica junto do pai. As outras também recebem alguma coisa, mas ela recebe um verdadeiro banquete.

Matias está feliz. Ao sentar-se à mesa para almoçar, diz-lhe o pai:

— Se tivesses vindo logo… quero dizer, se nos tivesses chamado logo depois da escola, não é… não teria sido bem melhor?

Matias pensa e responde:

— É provável. És capaz de ter razão, mas agora, ela também já tem a barriga cheia.

Lutz Besch
Jutta Modler (org.)
Brücken Bauen
Wien, Herder, 1987

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A batalha de Natal

— Só mais seis dias — constata Neli, tentando em seguida assobiar Noite Feliz.

— Ainda seis dias — repete a mãe pensativamente.

A voz não soa alegre. Após uma curta pausa, prossegue, suspirando. – Se tudo tivesse já passado!

Com o assobio suspenso no ar, Neli olha para a mãe com ar estupefacto.

— Então não estás contente?

— Sim, mas já estou pelos cabelos com esta agitação toda!

Como Neli não tem aulas à tarde, vai patinar com uma amiga e, mais lá para a noite, dirige-se ao supermercado onde a mãe trabalha. Há tanto movimento que mais parece estar-se numa colmeia. A mãe encontra-se sentada numa cadeira giratória diante de uma das seis caixas registadoras. Os produtos chegam-lhe num tapete rolante e, enquanto a mão direita está pousada no teclado e marca os números, a mão esquerda roda os produtos de forma a poder ler os números, e, em seguida, coloca-os, produto a produto, no carrinho de compras. Quando acaba de marcar tudo, a mão direita carrega na tecla do total e rasga o talão, enquanto a esquerda afasta o carro cheio e puxa o próximo, vazio, para junto dela.

— Que bem que fazes isso — dissera-lhe Neli uma vez. — Eu faria tudo devagar, assim: tipp… tipp … … e, ainda por cima, metade saía mal.

— Ora — dissera a mãe a rir. — É uma questão de treino. Quando comecei, também não era assim tão despachada. Não encontrava a etiqueta com o preço, e muitas vezes carregava nas teclas erradas e as pessoas resmungavam porque tinham de esperar. Mas agora já quase consigo fazer isto automaticamente.

— Como um robô! — Neli riu-se.

Um robô como mãe? Nunca teria dor de cabeça, nem à noite estaria tão cansada. Mas um robô não tem coração. Por isso, Neli prefere a mãe tal como é, mesmo quando certas noites quase nem consegue falar de tão cansada que está!

Só mais quatro dias.

Só mais três.

As filas nas caixas eram cada vez mais longas. As pessoas abastecem-se de comida como se o Natal durasse meio ano. Com um ruído sibilante, as portas automáticas abriam-se e fechavam-se, abriam-se e fechavam-se. A mãe sentia nas costas a corrente de ar e os cartões pendurados no tecto balançavam de um lado para o outro.

Um sino de Natal, por cima da cabeça da mãe tinha escrito a vermelho: PROMOÇÃO: Bombons, 250 gr, a preço especial.

Próximo, balançava um anjo de papel com uma faixa nas mãos, como nas igrejas, mas onde não estava escrito Paz na terra aos homens de boa vontade, mas sim Fiambre para o Natal a 15,80/Kg.

Os altifalantes pingavam música de Natal:
Noite feliz…
Cabeça de anho
Noite feliz…
Café suave
Papel higiénico de três folhas
O Senhor …
Lenços com monograma
Mostarda
Nasceu em Belém…

A mãe gemia e, com um movimento rápido, limpava o suor do lábio com as costas da mão. Os clientes, impacientes, esperavam, apoiando-se ora numa, ora na outra perna. De olhar ausente, nem olhavam para a senhora da caixa, pensando no regresso com os sacos pesados, o eléctrico cheio.

Uff!

Só mais três dias, e acaba tudo.

— Vou fazer um jantar como o do ano passado — disse à noite a mãe, virando-se para a Neli — Peru assado com a laranja e batatas assadas e, como sobremesa, rabanadas e bolo-rei.

No dia 24 de Dezembro, a loja só estava aberta até às quatro horas da tarde. Em seguida, os empregados podiam comprar, com um desconto de 15%, os produtos que sobravam. A mãe de Neli achava que valia a pena, por isso tinha guardado as compras maiores para essa altura: uma pasta escolar para Neli, uma boneca, lápis de cor, um anoraque para o pai, a comida para a ceia de Natal.

Na sala do pessoal, havia um lanche para todos os empregados.

— A batalha de Natal foi mais uma vez vencida — repetia o chefe do pessoal. Dizia, depois, mais umas palavras elogiosas e eram servidos pãezinhos com fiambre e um copo de vinho.

Após o lanche, a mãe de Neli deixou ficar os gordos sacos de compras esquecidos na sala do pessoal. Só reparou quando já estava na paragem do autocarro. “As minhas prendas! Todas aquelas coisas boas para a ceia!” – pensou assustada.

Mas a loja já estava fechada e, antes do dia 27, não se voltava a lá entrar. Foi de mãos vazias que chegou a casa.

Nessa noite, apesar de tudo, festejaram o Natal. O pai acendeu as velas da árvore de Natal e Neli recitou um poema. Só se lembrou das duas primeiras estrofes e depois encravou, mas a mãe achou-o muito bonito e o pai nem reparou que ainda continuava. O jantar foi mais curto do que o planeado. Por sorte, a mãe já tinha comprado o assado e havia batatas em casa, mas não houve entrada nem sobremesa. Trincaram simplesmente nozes e comeram maçãs.

— Assim, não fico com o estômago tão pesado como no ano passado — disse o pai. — Comidas pesadas não me assentam bem.

Também não havia muito que desembrulhar.

Por isso, sobrou tempo. Muito tempo.

Neli foi buscar o jogo Memory que recebera no Natal anterior. Durante o ano inteiro, esperara, em vão, todos os domingos, que alguém tivesse tempo para jogar com ela.

Agora, os pais tinham tempo.

O pai nunca tinha jogado Memory. Ao fim de algum tempo, Neli já tinha encontrado sete pares de cartas, a mãe três, e o pai, que geralmente quer ganhar sempre, procurava constantemente no sítio errado.

Tentava ajudar-se com truques, pondo, sem ninguém dar conta, migalhinhas de pão em cima das cartas que tinha decorado, ou pousava as mãos na mesa, de tal forma que o polegar indicava a direcção em que estava uma determinada carta. Neli descobriu-lhe a jogada. Jogaram mais duas ou três vezes e o pai não se zangava por perder sempre. Depois, ainda jogaram o jogo do assalto.

À meia-noite, o pai apagou a luz e ficaram a olhar pela janela. A neve reflectia uma luz clara e ouviam-se os sinos a tocar.

— A esta hora, há quase dois mil anos, nasceu Jesus — disse a mãe, e Neli reparou como ela afinal sempre estava contente por ser Natal.

Ao ir para a cama, Neli disse:

— Este foi um Natal muito bonito.

— A sério? — perguntou a mãe admirada. — Mas não houve ceia nem prendas quase nenhumas.

— Mas houve muito tempo — respondeu Neli.

Jutta Modler (org.)
Brücken Bauen
Wien, Herder, 1987
Tradução e adaptação

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O Dia-da-Presença

Jorge acabou os trabalhos de casa e preparou a pasta para o dia seguinte. Tinha agora tempo para brincar. Gostava de brincar aos astronautas, mas sozinho não tinha graça.

Jorge vai ver o que a irmã está a fazer: sentada no tapete, ela tenta meter num fio anéis de plástico às cores. É quatro anos mais nova e não percebe nada daquele jogo. Nem consegue somar um mais um.

“Que irmã tão palerma”, pensa Jorge. “Porque é que a minha irmã não podia ser um irmão mais velho? Ao menos agora tinha um co-piloto.” Furioso, Jorge bate com o pé no chão.

— Vês? Deixei cair os anéis todos por tua causa! — grita a irmã de Jorge e começa a chorar.

— Bem podes pendurar o teu colar nas orelhas! — grita Jorge ao sair do quarto.

— Mamã! — pergunta Jorge na cozinha. — Queres ser o meu co-piloto? Vou voar agora para Júpiter.

— Para que é que tens a tua irmã?

Isto também Jorge se pergunta às vezes… Será que o pai tem tempo? Está sentado na sala a arrumar os jornais.

— Papá! — chama Jorge. — Vens voar comigo para Júpiter com a minha nave espacial “Estrela Branca”? Preciso rapidamente de um co-piloto.

— Agora não, Jorge. Bem vês que estou a arrumar os meus jornais.

Jorge fica a pensar no que pode fazer. Ir a casa do seu amigo António, ao lado? Às vezes brinca com ele. Mas brincar com os pais é sempre melhor. É quase como fazer anos.

Amuado, Jorge volta para o quarto dos brinquedos. Senta-se no tapete ao lado da irmã para ter alguém que o escute.

— Sabes o que é que eu gostava de ter? Mais um dia na semana — diz ele. — Um dia da semana em que os pais fossem só para nós. Um oitavo dia na semana. E sabes como se chamaria? Uhm… deixa cá ver…

Jorge pensa. Diz o nome dos dias da semana em voz alta. Começa na terça-feira porque hoje é terça:

— Terça-feira, quarta-feira, quinta-feira, sexta-feira, sábado, domingo… já sei! — exclama. — Vai chamar-se “presença”. E vem logo a seguir ao domingo. Basta meter o dia-da-presença no meio dos outros dias.

Jorge põe-se em sentido em frente da irmã e diz em tom cerimonioso:

— Eu, piloto da nave espacial “Estrela Branca”, decreto que haverá o Dia-da-Presença, o dia da semana em que todos os pais brincarão com os filhos àquilo que os filhos quiserem. A partir de hoje, a semana passa então a ser: domingo, dia-da-presença, segunda-feira! E depois continua como normalmente.

A irmã de Jorge ri-se.

Jorge escreve este desejo para o Natal. E escreve também porque é que quer o dia-da-presença: nesse dia, os pais hão-de brincar com ele. O dia inteiro!

Mas os pais riem e dizem:

— Só tu! És um sonhador! — O pai faz-lhe uma festa na cabeça. Depois agarra-o ternamente pelos cabelos e abana-o, como se pudesse sacudir-lhe os sonhos da cabeça.

Pelo Natal, Jorge recebeu um gravador. Não um dia-da- presença. O que o gravador tem de melhor é que a irmã não tem autorização para mexer nele…

Evelyne Stein-Fischer

Jutta Modler (org.)
Frieden fängt zu Hause an
München, DTV, 1989
tradução e adaptação

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O botão de reduzir mães

Num dia de grande discussão e de grande insolência para com a mãe, o pequeno Dudu apanhou uma bofetada na cara. Uma bofetada é uma coisa terrível. É vermelha, quente e humilhante. Fica a zumbir como um mosquito durante muito tempo e rebaixa uma pessoa ao nível das larvas. O pequeno Dudu cerrou os punhos e disse à mãe:

— Hás-de ver… Hás-de ver quando tu fores pequena e eu for grande. Vou esmagar-te como se fosses uma mosca. Não! Não brinques! Porque antes de te esmagar, hei-de arrancar-te as patas, os olhos e as asas.

Era, claro, uma frase terrível, mas o certo é que Dudu detestava as bofetadas. Não deixava de ter razão, aliás, mas, por vezes, a mão move-se sozinha e, na maior parte dos casos, os pais acabam por lamentá-lo depois.

Às vezes, o pequeno Dudu tinha sonhos de grandeza. Dizia para consigo: “Quando ela for velha e estiver toda engelhada como uma maçã, já não vai ter força nenhuma e eu hei-de devolver-lhe todas as bofetadas que ela me deu!”

Mas não teve de esperar tanto tempo! Naquela noite, enquanto ele dormia, o génio mau entrou no quarto. Sabes, o génio mau é aquele que se aproveita da cólera ou da tristeza para se meter facilmente na alma das crianças. O génio mau era feio, tinha olhos amarelos, antenas torcidas e maus pensamentos. Sentou-se na beira da cama de Dudu e cruzou as suas patas peludas.

— Hoje — disse o génio mau — graças à electrónica, à Internet e a outras coisas do género, os maus desejos tornam-se realidade. E murmurou: — Não precisas de esperar que a tua mãe fique velha e engelhada para seres maior do que ela!

E o génio mau sussurrou-lhe com ar maldoso:

— Tenho uma máquina de reduzir tamanhos.

— Pode-se reduzir mães? — perguntou Dudu ofegante.

Como resposta, o génio mau passou-lhe para a mão uma pequena máquina do tamanho de uma consola de bolso.

— Está aqui o botão de reduzir mães, que nós reservamos para todas as mães que recorrem a castigos corporais.

— O que são castigos corporais? — perguntou Dudu.

— Bofetadas, puxões de orelhas, palmadas no traseiro — enumerou o génio mau.

E os olhos amarelos brilharam-lhe de maldade.

— Cuidado, se carregares no botão, a tua mãe diminuirá dez vezes de tamanho, como uma camisola de algodão lavada a 120 graus!

— Ora, ora! — exclamou Dudu com os olhos a brilharem-lhe de medo e de desejo. — Não acredito. É impossível!

Os olhos amarelos faiscaram.

— Só tens de experimentar… Mas previno-te: quando a tua mãe estiver minúscula, terás de a proteger para que ela não desapareça.

E o génio mau despediu-se, gritando:

— Boa sorte, meu GRANDE Dudu!

E desintegrou-se numa nuvem de fumo.

O pequeno Dudu julgou, é claro, que tinha sonhado. Mas, no dia seguinte, quando viu debaixo da travesseira o aparelho de reduzir, com o seu grande botão, teve uma sensação estranha. E todo o dia sentiu dentro dele o peso do grande botão. À noite, quando já era altura de ir fazer os trabalhos de casa, o pequeno Dudu ainda se encontrava diante do televisor, e levou mais um puxão de orelhas.

— Desliga-me já esse televisor e vai estudar as lições! Eu disse JÁ— ralhou a mãe com voz grossa.

Ora acontece que Dudu era maluco por televisão. Tens de compreender o que se passa: as ideias misturam-se; os pequenos e elegantes neurónios, essas células do cérebro que se deslocam ligeiramente, tornam-se de repente gorduchas, e o cérebro fica cheio de papa de televisão. Depois… podes adivinhar o que aconteceu. Dirigiu-se para o quarto, ergueu a travesseira, agarrou no pequeno aparelho e carregou no botão. Ziiiiiiip! De repente, um clarão cegou- o e a mãe entrou na sala pouco mais alta do que uma ratinha.

— O que é que está a acontecer-me? — disse uma voz minúscula, porque agora tudo era minúsculo, até a voz, até os olhos, não maiores do que cabeças de alfinete, até as suas minúsculas mãos, que se agitavam como pontinhas de cotonete.

— É um aparelho de reduzir mães — disse Dudu, pondo os pés em cima do sofá. — Foi por causa daquela bofetada, percebes? Agora deixa-me ver o fim do episódio e volta para a tua cozinha, por favor.

A mãe aproximou-se, com um olhar furioso. Deu um salto para chegar ao telecomando, mas não conseguiu. Era, de facto, muito pequenina.

— Pufff — disse o pequeno Dudu, que continuava a ver o filme. Entretanto, a minúscula mãe dizia para si mesma, num minúsculo murmúrio interior:

“É um pesadelo, façamos de conta que nada aconteceu. Vou acabar por acordar.” Entrou então no quarto de banho para pôr a correr a água da banheira. Saltou para cima da torneira, escorregou e… desapareceu num jacto de água que saía da torneira.

— Socorro! Uma tempestade! — gritou a mãe. — O mar está bravo!

O pequeno Dudu lembrou-se dos conselhos do génio do mal. Recuperou no último momento a sua pequena mãe e secou-a com um guardanapo. Era a primeira vez que isto lhe acontecia.

— Estou farta! — choramingou a pequena mãe. — Farta de ser pequena! Queria que o teu pai voltasse de viagem. Sinto-me abandonada, sinto-me sozinha, pequena e frágil.

— Porque é que estás a dizer-me isso? — perguntou Dudu, surpreendido, ao ver pela primeira vez a mãe a choramingar. — Não tenho nada que ouvir essas coisas. Sou uma criança, sabes?

A minúscula mãe olhou-o com um ar furioso.

— Muito bem, hoje EU é que sou pequena, portanto eu é que tenho de ser protegida. Se não querias proteger-me, não tinhas nada que me diminuir de tamanho.

E a mãe contou-lhe como, por vezes, se sentia sozinha, abandonada e tão em baixo. O pequeno Dudu tinha vontade de a mandar calar. Perguntava-se se não seria melhor fechá-la no armário dos medicamentos, ao lado do frasco de álcool a 90 graus e da caixa de aspirina, mas receava que ela asfixiasse no escuro. Sim, ele tinha doravante a missão de proteger a sua pequena mãe.

Sentia um peso sobre os ombros. Quem eram os pais? Quem era o filho? No fundo, ele gostava mais do tempo em que a sua mãe era grande e não se queixava tanto. Como fazer, agora? Como quebrar o encantamento? Haveria um aparelho ampliador de mães? Virou a consola em todos os sentidos, mas só havia o grande botão de reduzir, que o olhava fixamente com um ar irónico.

À noite, a mãe jantou um grão de arroz, bebeu uma gota de água e deitou-se numa sapatilha acolchoada. Tristemente, o pequeno Dudu mastigou umas pipocas. Ao voltar para o quarto, desejou que aquela história não tivesse acontecido, e adormeceu rezando para que a sua mãe voltasse a ficar grande. No dia seguinte, a mãe tinha recuperado a sua estatura normal! Um metro e setenta, cinquenta e cinco quilos. Como estava bonita! E Dudu perguntava-se:

— Seria um pesadelo? Ou aquela história da máquina de reduzir tamanhos existiu realmente?

Quando Dudu ouviu a mãe dizer-lhe: — Despacha-te a vestir, por favor. Não quero voltar a zangar-me contigo. Não quero voltar a dar-te bofetadas. Tudo isso acabou! — Dudu compreendeu que a história do botão de reduzir tinha de facto acontecido. O pequeno Dudu levantou-se de um salto e aninhou-se nos braços da mãe.

— Nunca mais, nunca mais quero ser maior do que tu.

“É verdade”, pensou Dudu. “Há alturas em que as mães são gigantes, com a sua voz grossa, os seus olhos enormes, as suas imensas sobrancelhas carregadas. Mas há outras alturas em que são apenas maiores do que nós. E assim é bem melhor.”

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O caderno estragado

Bárbara estava furiosa. Já tinha o dia inteiro estragado. Não, o ano inteiro!

Começara o novo ano escolar com cadernos novos, lápis de cor novos e uma caneta de tinta permanente novinha em folha. Tomara a resolução de anotar e aprender tudo direitinho, logo desde o primeiro dia. Principalmente em Alemão. A professora Joana tinha sido tão simpática! E não é que Doli passou o tempo a segredar-lhe ao ouvido a letra daquela canção que decorara no Verão? Claro que a professora Joana disse imediatamente:

— Vocês não preferem ouvir, em vez de conversarem uma com a outra?

“Vocês”! Ela até estava a prestar atenção à professora! Toda a atenção que conseguia, aliás, só que o ouvido esquerdo estava ocupado por Doli, que lhe sussurrava:

Mar de prata e areia branca
Que saudades da praia…
Bárbara já estava a ficar surda com os cochichos. Que texto mais estúpido!

— Chiu! — fez ela.
A professora Joana lançou-lhe um olhar de advertência.

“Mas porque é que fui sentar-me ao lado da Doli?”

Doli segredava:

— Espera, eu escrevo-te o texto.

Pegou na caneta de tinta permanente de Bárbara, deu algumas voltas à carapuça, e foi então que tudo aconteceu. Um enorme pingo de tinta caiu no caderno de Bárbara e espalhou-se. Um borrão de tinta escuro e horrível.

Bárbara arrancou a caneta das mãos de Doli.

— Estás maluca?

— Caladas! — gritou a professora. — Se têm mesmo de discutir, discutam no intervalo! Agora está calada, Bárbara, se não, vou ter de vos separar!

Bárbara recostou-se para trás e cruzou os braços.

“Ora isso é que seria uma óptima ideia, tirar-me daqui a Doli”, pensou, fixando o borrão com um olhar irritado. O caderno de alemão estava estragado e a professora estava zangada com ela.

Quando chegaram à paragem do autocarro, já lá estava Francisco, o irmão de Bárbara. Bárbara correu para ele e cumprimentou-o. E, no autocarro, sentou-se ao seu lado, coisa que nunca fazia. Francisco admirou-se. Depois, viu a cara de Doli e percebeu que as duas meninas estavam zangadas uma com a outra. Bárbara fazia de conta que Doli não existia.

Francisco já estava habituado. Aquelas coisas geralmente demoravam um dia ou dois e, no fim, as duas voltavam a ser as melhores amigas uma da outra.

— Como é que correu a escola? — perguntou a irmã. — O Manolo voltou a aborrecer-vos?

Francisco assentiu com a cabeça.

— Manolo, o parolo.

Bárbara riu alto. Doli que ouvisse só como ela estava a divertir-se com o irmão.

— Imagina o que me aconteceu — contou Francisco. — Fiz um borrão de tinta no caderno de matemática do Ricardo!

— Tu?!

— Sim. Tem de se ter cautela com as canetas de tinta permanente. Quando se roda a carapuça na direcção contrária, a tinta sai toda! — Francisco riu-se. — Bem, o Ricardo ficou tão zangado! Mas eu peguei no caderno e do borrão fiz um polvo.

— Um quê?

— Um polvo… e à volta desenhei uma paisagem subaquática, com corais e tudo, e pintei uns peixes! Ficou fantástica!

Francisco estava convencido de que um dia iria tornar-se um grande artista. E sabia desenhar mesmo bem.

— A princípio, o Ricardo queria arrancar a folha, mas depois acabou por deixá-la ficar e agora até está todo orgulhoso dela.

Bárbara olhava pensativa pela janela. Se nesse momento tivesse contado: “Olha, a Doli fez-me um borrão no caderno de Alemão! E estragou-me o dia!”, provavelmente o Francisco não ia compreender o motivo do alvoroço. Até mesmo Bárbara já não percebia porque se tinha zangado tanto.

“A Doli nem fez de propósito!”, pensava.

À saída do autocarro, Doli queria ir-se embora o mais depressa possível. Bárbara chamou-a.

— Espera! Vens hoje à tarde a minha casa?

Doli parou indecisa.

— Prometeste-me que ias escrever no meu álbum novo!

Doli percebeu que Bárbara queria fazer as pazes com ela.

— Está bem, escrevo-te um poema fantástico… para compensar o caderno estragado!

— O quê? Ah, estás a falar da mancha de tinta! — disse Bárbara. — Não te preocupes. O Francisco vai fazer-me dali um quadro. Ele tem muito jeito para essas coisas.

Monika Pelz

Jutta Modler (org.)
Frieden fängt zu Hause an
München, DTV Junior, 1989
Tradução e adaptação

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A aluna estrangeira

Chama-se Salima, a nova da turma.

Não é uma menina calada e tímida, como Gabi. Salima faz-se notada em todo o lado.

Fala mais alto do que os outros. Veste roupas mais garridas do que a maioria. E não deixa que lhe preguem partidas.

Por isso, as crianças tentam arreliá-la constantemente. Diverte- as enfurecerem Salima, ouvi-la gritar, vê-la debater-se à volta delas.

Troçam dos seus cabelos encarapinhados, do nariz largo e da pele escura.

Salima é negra.

Fala bem alemão porque veio para a Europa com os pais quando ainda era bebé.

Gabi acha graça a tudo na nova menina.

Gosta dos olhos grandes, da voz gutural, da pele cor de chocolate.

Quando Salima ri, ri-se com o corpo todo. Quando está furiosa, parece um vulcão, onde tudo ferve.

Gabi emprestou logo o seu caderno à nova aluna, para ela copiar as lições. Com ela, Salima nunca é atrevida ou rude. Quando a deixam em paz, ela é igual aos outros.

Mal a menina estrangeira chegou à turma, há um mês, a escaramuça começou imediatamente:

— Uma preta! — disse Bettina bastante alto. Está sentada ao lado de Gabi e é a sua melhor amiga.

— É negra! — disse Georg arregalando os olhos.

A cozinheira negra já cá está…já, já, já…[1] — trauteou Inga baixinho, da penúltima carteira.

Infelizmente, a pior é Bettina. Tem sempre alguma coisa a apontar à nova menina. A culpada disso é a mãe. Até a proibiu de voltar da escola para casa com “essa preta”. A mãe nem conhece a menina estrangeira mas, mesmo assim, não gosta dela.

— Não é de cá — diz. — Vê-se à distância de dez metros que é diferente de nós.

Bettina também acha.

Gabi não percebe. “Isso não é motivo nenhum para não se gostar de alguém”, pensa. “Até é feio excluir-se uma pessoa, só porque ela tem um aspecto diferente do nosso.”

Gabi sabe o que é não pertencer ao grupo, porque também já foi nova na turma e ainda não há muito tempo. A nova, com os dentes da frente grandes e o nariz demasiado comprido. “Peixe Espada”, foi como lhe chamaram na altura. Precisou de um ano inteirinho até conseguir aguentar, sem chorar, a troça dos outros.

Mesmo assim, foi-lhe mais fácil do que o é agora para Salima. Porque Gabi é branca. Gradualmente, foi conseguindo ultrapassar o medo em relação aos outros.

Mas Salima nunca conseguiria esconder a sua pele escura.

Gabi gostaria de dizer aos outros da classe que a nova só é atrevida porque tem de estar sempre a defender-se. Porque não a deixam em paz de uma vez por todas? Só que tem medo de se pôr claramente do lado da menina estrangeira. Bem lhe quer mostrar que gosta dela, mas os outros não podem notar.

Não gostaria de vir a ter a maioria dos colegas contra ela, como antes, quando chegou como nova à turma.

Mesmo assim…

“Tenho de arranjar maneira de mostrar à Salima que estou do lado dela”, pensa Gabi. “E que gosto dela.”
Às vezes, no fim das aulas, depois dos outros já terem saído, Gabi atrasa-se de propósito para ficar mais um pouco com Salima, que demora sempre muito tempo a arrumar as coisas e a metê-las todas na pasta.

De repente, cai-lhe o estojo das mãos, e todos os lápis, os lápis de cor, duas borrachas e um pedaço de chocolate já mordido rolam para debaixo da carteira.

— Vá, eu ajudo-te — oferece-se Gabi.

Deitadas de barriga para baixo, tentam “pescar” o material escolar e o chocolate. Assim, ao tentarem chegar ao mesmo lápis ao mesmo tempo, chocam com os narizes uma na outra debaixo da carteira.

— Ai! Ui! — exclamam em coro, esfregando os narizes amachucados. E desatam a rir.

Salima diz de repente:

— Tu és simpática, sabes, mas os outros… E faz um gesto de desprezo com a mão, que mais parece uma tentativa de nadar, porque Salima ainda está deitada. Gabi levanta-se e sacode o pó das calças.

Salima gatinha para fora da carteira, mas fica sentada no chão.

— Sabes — diz, apontando para a sala vazia — se não lhes fizer frente desde o início, acabam comigo. Aprendi isto quando ainda era pequena e nos mudámos para cá. Algumas pessoas comportam-se de forma muito estúpida só porque sou de pele escura. Acham que tenho de me sujeitar a tudo!

Salima levanta-se e mantém-se direita.

— Mas de mim não conseguem nada. De mim, não!

Por momentos, parece que vai chorar, mas não.

Gabi admira a menina estrangeira por ter a coragem de não se submeter. Ela própria tinha-se sempre escondido na sua casinha de caracol.

Encolhida, amedrontada, magoada nos seus sentimentos.

Salima, no entanto, é um pouco como um ouriço-cacheiro. Mal há sinal de perigo, fica logo eriçada. Ela até é bem-disposta e gosta de rir. “Só temos de afastar os picos um pouco para o lado e de não a provocar,” pensa Gabi. “E também de ser amáveis para com ela. Porque é que a maioria não percebe isso?”

A maior parte dos meninos não se deu sequer ao trabalho de tentar compreender a nova colega. Só pensam em ofendê-la. Ela grita, mas ri logo a seguir. Pode-se pisá-la. Ela responde, mas, quando vai para casa, vai a cantar.
Aguenta muita coisa. É mesmo bom que haja na turma uma aluna como ela. Ao menos, há mais animação.

É sempre Bettina quem desafia a menina negra e quem provoca os outros. Como agora.

Bettina faz pontaria com a borracha às costas de Salima. A borracha faz ricochete e salta de novo para a mesa. A brincadeira repete-se quatro, cinco vezes.

Alguns já se riem.

— Palerma! — grita Salima, que já começava a ficar farta.

— Acalma-te — diz Paul, com uma voz zangada e dura, ele que nem tem nada a ver com o assunto.

— Deixa-a em paz! — mete-se Alexa, que está sentada ao lado de Salima.

Alexa tomou o partido de Salima. Ela pode dar-se ao luxo de dizer abertamente o que pensa.

“Como ela é querida por todos, pode admitir que gosta da nova”, pensa Gabi.

Com Gabi é mais do que “gostar”. Ela sente com Salima. Pelo que teve de passar, ela sabe que a nova menina tem aguentado. Sente pena dela. Lá por Salima, aparentemente, reagir melhor do que Gabi reagiu, não quer dizer que não se sinta também ferida.

“Tenho mesmo de fazer alguma coisa”, pensa Gabi. “Tenho que lhe provar que sou amiga dela. A dois, dói tudo um bocadinho menos. A dois, pode-se partilhar a dor. Mas o que posso fazer sem pôr logo os outros contra mim?”

Gabi decide deitar-se na varanda todas as tardes depois da escola e “torrar” ao sol. Uma hora inteirinha até ficar da cor do chocolate. Assim, Salima deixaria de ser a única com a pele escura. No Verão, a mãe está sempre a dizer a Gabi:

— Pareces uma preta!

Assim, a partir de hoje, Gabi tornar-se-ia uma preta.

— Que estupidez — diz em voz alta, afastando aquela ideia. — Uma pessoa não se torna preta só por se deitar umas horas ao sol. Não se fica com o nariz largo, nem com lábios grossos, nem com carapinha, só por isso. É preciso muito mais. Principalmente, uma mãe ou um pai que sejam negros.

Gabi continua a magicar. Tem os cotovelos fincados na mesa e a cara apoiada nas mãos. Nem repara no que está a passar-se à sua volta. Tem o olhar fixo no padrão verde das costas do casaco de Salima.

De repente, um bico de lápis desliza para a frente, na diagonal. Pertence ao lápis que Bettina segura na mão.

— O que estás outra vez a fazer? — Gabi desvia Bettina com um toque.

— Deixa-me!

Bettina segura no lápis afiado de forma a apontar a mina à nuca de Salima. Estica o braço até quase lhe tocar.

— Será que ela sente? — segreda Bettina.

— Pára com isso!

Mas Bettina há muito que quer saber como é uma carapinha. Se é rija ou mole.

Bettina estica o braço um pouco mais para a frente. Alguns observam a brincadeira. De repente, Salima começa a balançar-se na cadeira. Dá lanço na beira da mesa, inclina-se com força para trás e acerta com a nuca no bico do lápis.

Um grito. Breve e cortante.

Com a mão direita na nuca, Salima dá umas voltas sobre si mesma. Com a esquerda, dá uma bofetada a Bettina.

— Estás maluca!! — grita Bettina — Não te fiz nada!

— Picaste-me!

— Não picou nada! — confirma Brigitte, que nem tinha prestado atenção ao que se passara.

Que pena a professora ainda não estar na sala. Podia ter acalmado a discussão.

— Vais pagar-me pela bofetada! — diz Bettina zangada.

Gabi estende o braço. Quer afagar a menina negra.

Mas Salima levantou-se com um salto e corre para a porta, a mão ainda na cabeça. Sobre a mão escorre um pouco de sangue. Antes de sair, Salima pára repentinamente. Devagar, muito devagarinho, vira-se para a turma, que a olha com curiosidade.

A menina estrangeira chora. Em silêncio. Só o subir e o descer do corpo e o fungar baixinho revelam a intensidade do choro. Os seus grandes olhos parecem ainda maiores sob as lágrimas.

Salima fica por uns momentos parada, sem se mexer.

Depois fecha a porta com estrondo.

Silêncio aflitivo.

Salima chora. Não ri. Não canta. Chora, como qualquer outra criança também teria chorado.

Gabi está como que pregada à carteira. Muda com o susto. As pernas estão pesadas como se tivesse chumbo nos pés. Porque não se levanta? Porque não corre atrás de Salima? Ela própria não percebe. Era precisamente agora que Salima mais precisava dela.

“Vocês são maus!”, quer gritar. Mas não lhe sai nada.

— Vocês são maus! — grita Michael em vez dela. Está sentado na primeira fila. — Ela não vos fez nada. Se fosse comigo, tinhas logo apanhado duas bofetadas, Bettina.

“Agora que Salima não está cá e não pode ouvir, é que ele diz isto”, pensa Gabi.

E ela própria, que tanto queria ter corrido atrás dela, que queria tê-la agarrado, protegido… não conseguiu!!

De repente, todos começam a falar ao mesmo tempo.

— Ela não tem culpa de ser preta — diz Alexa novamente, que foi a primeira a defender a menina estrangeira. — Imaginem-se o único branco numa turma de pretos. Gostavam que vos acontecesse o mesmo?

— Salima pode não ter culpa de ser preta — diz Inga — mas no meu pão com fiambre é que nunca a deixaria trincar.

— Ugh! — diz Helga, arrepiando-se.

— Ugh! — diz Paul, arrepiando-se também.

— A ti é que ninguém te deixava trincá-lo, com tantas borbulhas — grita Martin.

— Saliva é saliva — diz Paul.

— Exactamente! Com a Salima não é a mesma coisa? — Alexa bate com o punho na mesa.

Gabi assusta-se. As vozes ressoam-lhe na cabeça. A pancada com o punho arrancou-a da confusão das palavras.

Há pouco, quando Salima estava a chorar à porta, Gabi tinha tido uma oportunidade. Podia ter mostrado que achava horrível a forma como os outros se comportavam. Especialmente Bettina. Em vez disso, tentou apenas acariciar a nova menina. Medrosamente, do seu lugar, de onde não precisava de se levantar nem de sentir a turma atrás das costas.

Mas novamente a mesma sensação… Não.

O medo de tornar a ser ridicularizada é maior do que a ligação a Salima.

Mesmo assim, Gabi diz, muito baixinho:

— A Salima é querida. Porque é que és tão antipática com ela?

Bettina ouviu.

— Muito querida — diz, venenosa. — Mas cheira mal!

— Que estupidez! — grita Michael, que só ouviu a última palavra. — Já alguma vez estiveste sentada ao lado do Markus? Ele cheira tão mal que até as minhas meias fogem dele!

Markus, hoje, não veio às aulas, por isso a ofensa não o magoa. Se cá estivesse, ninguém lho teria dito.

Mas à menina estrangeira diz-se-lhe tudo na cara.

Bettina cala-se. A cara ainda está um bocadinho vermelha da bofetada. De repente começa outra vez a barafustar:

— Anda vestida como um papagaio. Só lhe faltam as penas no rabo.

Risos abafados.

— Cala a boca de uma vez por todas! — diz Gabi, agora em voz alta.

A frase desapareceu na risota geral. Cada um grita à turma a sua opinião.

— Acabou! Acabou! Já chega! — Gabi grita agora mais alto do que os outros. Grita e tapa os ouvidos ao mesmo tempo. Ninguém repara que a porta da sala se abre.

Quando Salima se dirige em silêncio para o seu lugar, todos se calam de repente. Não olha para ninguém, tem os olhos pregados no chão e um grande penso na nuca.

Gabi levanta-se ainda antes de Salima se poder sentar. É automático, o chumbo dos pés desapareceu. Gabi nem precisa de pensar. Vai direita a Salima e, em frente da turma toda, põe-lhe carinhosamente o braço à volta dos ombros. Não custa nada.

— Lamentamos todos — diz Gabi em voz alta, de forma a que todos ouçam, especialmente Bettina.

Salima não diz nada.

Agora levantam-se também Alexa e Michael. Inga e Martina. Até Paul se chega à frente. O pequeno grupo cresce à volta de Bettina.

— Não fiz de propósito! — diz ela baixinho.

— Dói muito? — pergunta Gabi.

Salima levanta finalmente os olhos e olha para Gabi. Põe o braço à sua volta.

— Agora já não — diz.

[1] Canção infantil austríaca (N.T.)

Evelyne Stein-Fischer
13 Geschichten vom Liebhaben
Munique, DTV Junior, 1990
tradução e adaptação

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