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Archive for the ‘contos infantis’ Category

O pão dos outros

Remi está a conversar com a avó.

Gosta de a ouvir falar dos seus tempos de menina.

— Na minha aldeia, na Provença, pelo Ano Novo, no primeiro dia de Janeiro, toda a gente oferecia uma prenda a toda a gente. Vê lá se és capaz de adivinhar o que seria.

Remi lança palpites:

— Comprar prendas para a aldeia inteira… É preciso ter muito dinheiro. Quer dizer que as pessoas eram ricas?

A avó riu-se:

— Oh, não! Naquele tempo, tinha-se muito pouco dinheiro e ninguém na aldeia comprava prendas. Nem sequer havia lojas como há hoje.

— Então faziam as prendas?

— Não propriamente!

— Então como é que faziam?

— Era muito simples. Ora ouve…

Antigamente, cada família fazia o seu pão. Não havia água corrente nas casas. Então íamos buscá-la à fonte, no largo da aldeia.

E, no dia um de Janeiro, de manhã muito cedo, a primeira pessoa que saía de casa, colocava um pão fresco no bordo da fonte, enquanto enchia a bilha de água. Quem chegava a seguir pegava no pão e punha outro no mesmo lugar para a pessoa seguinte, e assim por diante…

Desta forma, em todas as casas, se comia um pão fresco oferecido por outra pessoa. Nem sempre se sabia por quem, mas garanto-te que o pão nos parecia muito bom porque era como se fosse um presente de amizade.

As pessoas que estavam zangadas pensavam que talvez estivessem a comer o pão do seu inimigo e isso era uma espécie de reconciliação…

Durante alguns dias, esta história andou a martelar na cabeça de Remi.

Uma manhã, teve uma ideia.

Meteu no bolso uma fatia de pão de lavrador. É o pão que se come na casa de Remi.

E na escola, um pouco antes do recreio, Remi pousou o pão bem à vista, em cima da carteira de Filipe, o seu vizinho.

Filipe está sempre com fome e repete sem cessar a Remi:

— Oh! Que fome, que fome eu tenho! Bem comia agora qualquer coisa!

Quando Filipe viu a fatia de pão, que rica surpresa! Sabia muito bem quem lha tinha dado, mas fingiu que não sabia.

No recreio, todo contente, comeu o pão sem dizer nada a Remi, mas…

No dia seguinte, sabem o que é que Remi encontrou em cima da carteira, mesmo antes do recreio? … Um pedaço de cacete!

Um grande pedaço bem estaladiço! Um verdadeiro regalo!

Filipe ria-se.

E assim continuaram a dar um ao outro presentes de pão.

Na aula, a Carlota e a Sílvia estão sentadas logo atrás de Filipe e de Remi. Rapidamente souberam da história do pão e quiseram também participar nas surpresas.

No dia seguinte, Sílvia levou uma fatia de cacetinho e Carlota uma fatia de pão centeio.

Outras crianças quiseram participar nas prendas de pão.

Apareceu pão grosseiro, pão de noz, pão de sêmea, pão sem côdea, pão caseiro, pão fino, pão russo, negro e um pouco ácido, que Vladimir levou, pedaços de pão árabe, que a mãe de Ahmed cozera no forno, e ainda muitos outros tipos de pão.

Desta forma, quase toda a turma se pôs a trocar pedaços de pão durante o recreio.

A professora apercebeu-se das trocas e perguntou:

— Mas o que é que vocês estão aí a fazer?

Carlota e Remi contaram-lhe toda a história do pão dos outros.

E, logo após o recreio, o que é que estava em cima da secretária da professora? …um pedaço de pão!

Toda a classe tinha os olhos postos na professora. Ela sorriu e comeu o pão.

E, no domingo seguinte, quando Remi viu a avó, era ele que tinha uma história para lhe contar:

— Sabes, avó? Olha, na minha turma…

Michèle Lochak
Le pain des autres
Paris, Ed. Flammarion, 1980

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O perfume do sonho, na tarde

O perfume do sonho envolvia-a, debaixo do dossel de folhas da árvore, que emborralhava já a sonolência, ronronante, do bichano – seu companheiro – e que só com ela se aventurava a sair do aconchego da casa.

Que bom! Não havia aulas, nem deveres, naquela tarde de sábado! Podia gastar o tempo à vontade… Boa altura para um pincho no sonho. Como se lhe adivinhasse o desejo, e mais lesto do que parecia natural num ronronar, preguiçoso, já o gato ia a cavalo numa vassoura de bruxa, sem o consentimento dela!

— Sape, daí já!

Bruxas não eram da sua predilecção. Convinha pensar um pouco, antes de se meterem, às cegas, em aventuras… E se tirasse, da arca encantada, os seus vestidos mágicos? Mas qual? O de princesa de diadema, à espera de um noivo, que lhe decifrasse o enigma do amor? O de pastora, adormecida, de romeirinha e de coração esperançoso, a sonhar que um príncipe perdido numa caçada a encontraria?

O de menina-malmequer, pronta também a florir e a partilhar o merendeiro com um beijo de boas-tardes? Qual escolher?

E o de Xerazade[1]? Esse, esse. Nada lhe agradava mais do que ser a que, diligentemente, emudecia com o surgir da manhã e, depois de mil e uma noites de encantamento, havia de conseguir conquistar o amor, graças ao feitiço da sua palavra. O de Xerazade servia-lhe, como uma luva. E, então, perante o bichano-companheiro, que assistia atento e segurava as fitas do sonho, envergou as suas calças tufadas, de gomos de seda colorida às pintas, vestiu o seu corpete que encaixava só as laranjinhas, adolescentes, dos seios e lhe deixava a descoberto o pescoço e a ondulação do corpo até à cintura. Com todo o cuidado colocou o seu turbante com pena de pavão e só deixou de fora da sua farta cabeleira dois caracóis, que lhe emolduravam a luz, maliciosa, dos olhos. O que faltava? Ah! as suas pulseiras a serpentear pelo braço, o leque de plumas para esconder o sorriso, trocista, de quem se sabe de antemão vencedora. E ainda o anel que o seu senhor lhe tinha oferecido, para florir o alado dos gestos, enquanto contava as suas histórias. Tudo a postos. Na sua imaginação, a noite, que tão benéfica lhe era como indicava o seu nome, que significava filha da Lua, não tardaria a descer sobre os minaretes do palácio. Do jardim, já subiam os perfumes que o morrer da tarde acentuava e a envolviam. E gozava, de antemão, a surpresa do marido, quando lhe começasse a contar do califa Haroun al-Raschid [2], que gostava de percorrer Bagdad incógnito e era capaz de aprender a justiça com as crianças, ou as sete viagens de Sindbad, o marinheiro [3] e o muito que a sua imaginação ainda sabia e era capaz de desembaraçar, sem perder o fio à meada. Estava certa não apenas de se fazer amar, mas até de ajudá-lo na governação do reino e mostrar-lhe que uma mulher, mesmo quando escrava como Morgiana[4] , pode ser de grande ajuda e não apenas e só uma flor de prazer. Confiante, sentia-se desejosa de mais uma noite a vir. E assim a deixou a rapariga, desejosa também ela doutras paragens, doutras aventuras e doutros sonhos. Nem precisou de tapete mágico, como Aladino[5].

— A mim, meus cavalos de vento e pensamento!

Ali estavam, às ordens para partir para os longes – até onde?

Até ao palácio da Rainha das Neves[6], que tanto a tinha fascinado, quando tinha lido a história. Mas o palácio ficava para lá dos vales brancos de neve da Finlândia, no grande Norte. Tinha de se preparar. Precisava de luvas, cachecol, e também para o pobre bichano. Já estava pronta, ela e o companheiro, quando se achou, mesmo assim, pouco preparada para gelos tão eternos. Podiam constipar-se, não convinha arriscar. Resolveu trocar os sapatos por umas botas, vestir um casacão debruado a pele, aconchegante, providenciar um regalo, um gorro que não lhe deixasse gelar as tranças e um cachecol de lã, mais quente, para o seu companheiro. Agora, sim. Bem preparados, podiam partir e até tinham uma chave-coração para abrir as portas do sonho desejado.

— A caminho!

E à medida que avançava no meio da neve e do gelo, começou a pensar como é que Gerda[7] tinha sido capaz de caminhar com os pés nus sobre aquela frialdade, glaciar, só aquecida pelo desejo de ter de volta o seu companheirinho de brincadeiras, e livrá-lo do esquecimento em que o tinha mergulhado a Rainha das Neves. Ah! a amizade verdadeira era um grande mistério!

Brr… que frio! Tinham, finalmente, chegado. Ali estava o palácio com as paredes feitas de poeiras de neve, de portas e vidros de ventos agrestes, salas vazias e cintilantes, iluminadas por auroras boreais e, no meio de um lago, gelado, o trono da Rainha das Neves, onde ela se sentava, quando não viajava no seu trenó. Sentia as suas trancinhas inteiriçadas, como pingentes de sincelo, debaixo do gorro de pele.

— Vamos regressar! Vamos regressar!

E, em menos de um ai, ela e o bichano, montados num cavalo de pensamento, muito mais rápido do que os cavalos de vento, estavam a salvo, outra vez debaixo da sombra, protectora e quente, da árvore.

Aquilo de ser sempre rapariga também a aborrecia um pouco. Em sonhos, estava ao seu alcance ser rapaz. Porque não? Robin dos bosques, já que gostava tanto de subir às árvores? Gnomo, para poder descer às profundezas da terra e das águas e ajudar princesas, aflitas e desmioladas, que tinham perdido anéis? Não se sentia muito tentada… E pirata? Ah! pirata era melhor forma para o seu pé, aventureiro, e trazia-lhe o bom cheiro da maresia, sempre colado à sua pele, de tal maneira o mar era grato ao seu coração. Estava decidido. Seria pirata, escorreito, sem perna de pau e com uma pala para tapar, a fingir, não o olho cego, mas o olhinho, guincho e esperto, de sondar os longes.

Com um pulo, ágil, logo o bichano se enredou no cordame de mais aquele sonho, para não perder, ele também, mais aquela aventura. E ambos se atracaram ao pirata de “Era uma vez…” Justamente na tarde em que, feliz, ele tinha descoberto que os verdadeiros tesouros, pelos quais tinha espadeirado e combatido, em abordagens perigosas, estavam afinal, ali, sem sangue, nem combates, ao alcance da mão e do olhar. Onde? Onde? Na natureza. Quem podia duvidar? Que ouro mais valioso do que o das estrelas? Ou de mais puro quilate do que o do sol, quando incendiava a manhã, nascente? Que jóias mais lucilantes do que as miríades de brilhos espelhados no mar? Que rubis mais maduros do que os do coração das romãs? Que verdes de esmeralda podiam competir com os das folhinhas, lavadas pela chuva? Que diamantes mais cheios de luz do que os das gotas do orvalho, na renda, preciosa, das teias de aranha? Tudo ali ao alcance da mão e do olhar. Agora que tudo se tinha aclarado no seu espírito, estava disposto a desistir da pirataria. O seu trabalho seria outro. O de procurar alguém que como ele gostasse de nadar e com quem pudesse partilhar aquela verdade: os verdadeiros tesouros estavam ali ao alcance da mão, na água cristalina da nascente, onde matava a sede, nos frutos da terra e na imensidão do mar – que servia de espelho ao sol, à lua e às estrelas. E pôs-se a sonhar com uma nadadora de touca nenúfar-pompom com antenas para repartir com ela o seu coração e aquela verdade.

A história do pirata estava já encaminhada para um final feliz e a rapariga, como quem salta poldras de um regato, estava pronta para outra aventura. Mas o mar ainda a chamava. Ah! o mar, que difícil livrar-se do seu apelo! E decidiu tornar-se sereia. Sim, seria a que se tinha apaixonado pelo príncipe, que salvara da morte, durante a tempestade8] . Era o que mais lhe agradava. E logo começou a sentir o seu corpo axadrezar-se de escamas, verdes-cinza e azuis, que iam do claro transparente ao quase negro das profundezas dos jardins do mar, onde tinha o seu, ao pé do das suas irmãs. Ai dela! Vinha, agora, cada vez mais, à superfície das águas, com o seu toucado de algas e enfeitada numa das faces, que as raparigas da terra tinham coradas, com uma estrela vermelha. Tentava vê-lo, aproximava-se o mais possível do palácio, mas ele não sabia que fora ela a salvá-lo, nem podia apaixonar-se por uma sereia. Tinha de arranjar duas pernas. Pela história, tão amada, sabia que ela estava disposta a dar à feiticeira do mar o que de mais precioso tinha – a sua voz e o seu canto, que enfeitiçavam, em troca de duas pernas. Queria aproximar-se dele, dançar para ele, mesmo sabendo que seria como caminhar sobre espadas cortantes. Mas o que era uma dor física em relação ao apelo do amor? Um mistério ainda mais exigente do que a amizade, era isso… E foi quando uns miados, rabiosos e insistentes, lhe interromperam o sonho. Claro, era o bichano que não gostava das profundezas do mar.

— Bichaninho! Bichaninho! — e passava-lhe a mão pelo pêlo a sossegá-lo. — Nada de aflições!

Estava disposta a providenciar um escafandro, se necessário, para que ele pudesse passear com ela pelos jardins submersos. Mas ele, pelos vistos, não se deixava convencer pelas suas festas, miava desesperadamente. O que teria?! Só então reparou que o sol ia morrendo e a sombra arrefecia. Tinha-se esquecido do seu lanche e do leitinho dele. Era isso. O bichano reclamava, com fome, o seu pratinho de leite. Pronto, pronto. Teria de fechar, à pressa, o seu baú de sonhos e de lá meter, rápido, rápido, os fatos que não tinha chegado a usar. Que pena! Tão apropriados para um baile de máscaras!

O de menina-alforreca,
o de menina-balão,
o de arlequim,
o de toucado-coração-de-lira, para arpoar um coração gémeo,
e o dos anos-vinte com bolsinha e todo franjado, como os antigos candeeiros de vidrilhos. Tão próprio para dançar o charlston! Para outra vez seria…
O bichano já ia longe, numa corrida de afoiteza, acelerada, que a fome é negra. Teve de se resignar. E também ela correu para casa.

[1] A contadora de todas as histórias de As Mil e Uma Noites.
[2] Personagem principal de algumas das histórias de As Mil e Uma Noites.
[3] Personagem principal das sete viagens referidas.
[4] Uma das personagens femininas de uma das histórias: Ali-Babá e os Quarenta Ladrões.
[5] Personagem principal de Aladino e a lâmpada maravilhosa.
[6] A Rainha das Neves – título de um conto do escritor dinamarquês H. C. Andersen.
[7] Principal personagem feminina de A Rainha das Neves.
[8] A Sereiazinha – conto de H. C. Andersen.

Luísa Dacosta, entre Junho e Setembro de 2002

Luísa Dacosta
O Perfume do Sonho, na Tarde
Porto, Ed. Asa, 2004

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A viagem de Djuku

Anterior: A Viagem de Djuku I

Nem sempre prestamos atenção às pessoas que nos rodeiam e, mais raramente ainda, procuramos saber qual é a sua história – será que nos falta coragem?
Vinda de muito longe, Djuku é uma dessas pessoas;
 aqui está um pedaço da sua história.

5

Se alguma coisa atraiu a atenção do senhor Isidoro foram as mãos de Djuku. Aliás, ao longo dos vários meses que Djuku passou a trabalhar na BARRIGA DA BALEIA, as coisas resumiam-se a isto: para ele e para os clientes habituais do restaurante, Djuku não era mais que duas mãos, uma esquerda genial, uma direita fabulosa.
Convém saber que, durante o dia, Djuku não aparecia na sala do restaurante, e como ela vinha trabalhar de manhã cedo, só saindo muito depois do fecho, ninguém sabia ao certo quem ela era, como ela era. Só as suas mãos eram conhecidas do «público».
É que era um espectáculo, como dizer, real, ver aquelas mãos elevando um prato através da abertura que separa a cozinha da sala do restaurante. Djuku, numa palavra atirada ao criado de servir, anunciava o prato, mas a sua voz é demasiado doce para ser ouvida. Em palco estavam apenas as suas mãos.
Os clientes que pediam, fosse um qualulu, fosse uma galinha com molho de amendoins, passavam os minutos seguintes de olhos postos na abertura. Não eram poucos aqueles, mais nervosos, que chegavam a roer as unhas.
— Deviam ter pedido também uma entrada — aconselhava-os sempre o senhor Isidoro.
As mãos de Djuku são as suas ferramentas e o seu tesouro. Não serão o que podemos chamar belas: a palma é larga, os dedos finos de tamanho médio e bem assentes, as unhas compridas tratadas. A pele neste lugar do corpo parece um pergaminho e, no caso dela, é riscado por pequenas cicatrizes (talvez o preço de uma distracção no momento da aprendizagem).
É mesmo a graça dos seus gestos, a agilidade, o que encanta os clientes da BARRIGA DA BALEIA. As mãos dançam ao redor dos pratos até ao momento da entrega. Acontece às vezes descansarem na borda da abertura. Estarão a contemplar, satisfeitas, a vida ruidosa da sala do restaurante? Ou será que esperam alguém ou alguma coisa? É difícil saber. Elas partem sempre de súbito, saltitantes, para se agitarem ao redor dos fogões.

6

— Uau, este frio gela-me as mãos e o senhor Isidoro que nunca mais vem! Deve estar na cama, tudo lhe serve de pretexto para se lá meter! — constata Djuku divertida ao abrir as portas da BARRIGA DA BALEIA.
Não que precise do seu patrão para pôr em andamento a cozinha, ela já conhece o ritual. De imediato, deita mãos ao trabalho, pois tem muito que fazer. Acende os fornos, tira os alimentos da arca congeladora, e logo os seus dedos se afadigam, descascam legumes, amassam as pastas, preparam os caldos, confeccionam as sobremesas. Durante toda a manhã, Djuku não terá um minuto de descanso, mas assim que, aí pelo meio-dia, chegarem os primeiros clientes, tudo estará pronto. Nestas alturas, a aldeia está em bem longe. Djuku nem sonha.
Ao meio-dia dispara o tiro de partida! Todos os clientes afluem para almoçar. A confusão ameaça. Mas a comandante Djuku está ao leme e a BARRIGA DA BALEIA não aderna e continua a sua rota.
Segue-se a calma da tarde. Djuku conta com um repouso bem merecido. Mas, com cada vez mais frequência, é assaltada por antigas imagens, incómodas como crianças turbulentas mantidas demasiado tempo à mesa e que têm necessidade de esticar as pernas.
«Antes», pensa, «todos sabiam quem era Djuku, agora eu sou uma sombra que passa, que vai para o trabalho de manhã e que regressa à noite. Aqui ninguém me conhece, sou uma sombra sem história.»
Olha à sua volta e o que vê fá-la sorrir: ela imagina a aldeia, a savana, os campos de arroz, o sol quente na sua pequena cozinha!
«Por que raio não será isso possível? Um dia», pensa, «será preciso que o que eu vivi se case com o que eu vivo, que o restaurante fique noivo da aldeia.»
Uma ideia engraçada que a fez, primeiro, rir e, depois, chorar.

7

É noite. O restaurante está fechado. Um a um, todos os clientes se foram. Até o senhor Isidoro já foi para sua casa. Djuku ficou sozinha. Sentada, olha as palmas das mãos, a geografia das rugas da sua pele, talvez procurando um caminho a seguir.
Tudo está calmo na cozinha. Mas Djuku ouve um barulho imenso. Os objectos, acolchoados no interior dela, estão ali, agitados, barulhentos, e querem escapar a qualquer preço.
«O vosso lugar não é aqui», suplica Djuku, «deixem-se estar sossegados.» Eles não queriam ouvir nada e continuaram com a sua terrível algazarra. Então, uma vez mais, Djuku conta a historia a si mesma. Em voz alta, invoca a aldeia e as suas gentes, o calor que faz quando o Sol atinge o seu zénite, o odor do carvão de madeira, do peixe que foi posto a secar nos telhados das casas, o da poeira que tudo invade.
Absolutamente decidida, entra no restaurante.
A sua memória, tão viva, apazigua-se a pouco e pouco. Quando tudo parece voltar a estar em ordem, que de novo nela se instalou a paz, Djuku deixa o restaurante e vai para casa descansar.

8

Quando Djuku cozinha, tudo o resto perde importância.
Os clientes na sala bem podem falar alto e grosso, a rádio e a televisão bem podem armar zaragata, que Djuku consagra-se à sua tarefa de tal maneira que só ouve as encomendas do criado de servir. Ela é como uma rainha no seu reino e cada uma das suas coisas, marmitas, panelas, pratos, talheres, especiarias, pratos ou fogões, a protegem da confusão, mantendo-a no centro daquele forte, a cozinha. Nem mesmo o senhor Isidoro pode ali entrar.
Certo dia, contudo, um estranho projéctil atingiu Djuku em cheio: era uma palavra.
Uma palavra que havia escapado da boca do apresentador de televisão. Djuku deixou cair a batata e a faca que segurava nas mãos e deixou-se literalmente invadir. A palavra cresceu nela, ganhou balanço, fez-se furacão, explosão. Acabou por inundá-la, deixando apenas uma casca vazia, desorientada, frágil.
Djuku entrou na sala e dirigiu-se, hipnotizada, para a televisão. Ao vê-la de lágrimas nos olhos, os clientes calaram-se todos, olharam uns para os outros e interrogavam com esse mesmo olhar o senhor Isidoro.
Este, sentado no lugar do costume, perguntou com voz inquieta:
— Está tudo bem, Djuku?
Ela não respondeu. Assoou o nariz com o punho. Soluçava.
«Deve ter queimado os dedos», pensa um cliente.
— Minha senhora, a caldeirada estava fa-bu-lo-sa, devorei-a todinha! Veja aqui o meu prato — diz-lhe outro.
— Mas o que é que se passa hoje? — perguntaram de súbito a uma voz todos os clientes.
Pela primeira vez desde a chegada de Djuku, os clientes da BARRIGA DA BALEIA viram-na e olharam-na verdadeiramente.
A palavra, insignificante para eles, era o nome da aldeia de Djuku.

9

O senhor Isidoro agarrou-a pelos ombros e fê-la sentar-se.
— Seca as tuas lágrimas, Djuku. Diz-nos o que te aconteceu.
Aconteceu então o seguinte. Djuku, que já havia retomado o fôlego, começou a contar e os objectos que estavam há tanto tempo dentro dela saíram da sua boca para virem, à vez, pontuar o seu discurso: a partida da aldeia, a viagem, a chegada à cidade e à BARRIGA DA BALEIA, o trabalho e a sua grande solidão. Os clientes e o senhor Isidoro apanhavam os objectos à medida que eles surgiam.
A velha guitarra de Quecuto saiu do seu corpo com os perfumes das músicas tantas vezes ouvidas, e um cliente apanhou-a para a tocar.
A palmeira inclinada e o embondeiro do lago saíram do seu corpo e um cliente pegou neles e foi pô-los junto à entrada do restaurante.
O caldeirão do Nhô-Nhô saiu do seu corpo e um cliente colocou-o no meio da sala.
A casa de Pepito saiu do seu corpo e os clientes apossaram-se dela para arrumar a sala.
A barca e as redes de pesca de Benvindo saíram do seu corpo e os clientes colocaram-nas à sombra do embondeiro.
Sim, logo em seguida Djuku sentiu-se aliviada e em paz. Viu as coisas que estavam nela firmemente atadas como carga de um navio partilhadas por todos. Percebeu imediatamente que a aldeia tinha desposado o restaurante.
Agora toda a gente conhecia a história de Djuku.
— Não podemos ficar aqui! — disse alguém.
— É preciso festejar isto — disse um outro — como na aldeia!

Nota ao leitor

Depois deste famoso dia, a divisória que separava a cozinha da sala do restaurante foi derrubada pelo senhor Isidoro com as suas próprias mãos.
Leitor, se tiveres vontade de ir à BARRIGA DA BALEIA para saborear os melhores pratos que existem, não deixes de trocar dois dedos de conversa com Djuku, agora que ela cozinha no meio de todos. E já agora, por favor, pede-lhe da minha parte notícias da aldeia.

Alain Corbel
A viagem de Djuku
Lisboa, Caminho, 2003

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História de um rapaz

 

Ouve, Amigo, a história que te vou contar. Não é uma história triste nem alegre. Não é uma história de paz nem é uma história de guerra. É a história de um rapaz. O José.

Eu conheci José era ele um menino marinheiro, assim com uma blusa à marinheira muito azul: um menino que brincava com barcos de papel.

Se ele tinha os olhos azuis? Não. Nem verdes. Os seus olhos eram castanhos como as cascas dos troncos sem musgos, ora muito sérios, ora muito risonhos, nem eu sei explicá-lo.
E o José tinha crescido. E a blusa à marinheira desbotara um pouco enquanto ele, ao sol, via deslizar os barcos de papel no charquito do quintal.
Eram pequeninos aqueles barcos, mas José julgava chegar com eles às terras mais distantes, parecia-lhe que ficava molhado dos temporais e que a sua tripulação era feita de cem meninos de olhos azuis, verdes e de cor de casca de árvore como os seus. E com eles tão longe navegava!

Mas um dia distraiu-se daqueles barcos de papel.

No seu quintal (é tão bom termos um palmo de terra com árvores, flores e pássaros!), entre as folhas douradas de uma árvore (estava-se no Outono, Amigo, quando uma névoa dourada começa a tombar sobre a Terra), pois, como ia dizendo, no meio dessas folhas douradas, assomou a cabecinha de um pássaro. Era um pardal.

O pássaro olhava-o tristemente, sem fugir. E o menino estendeu a mão (uma mão enrugada pela água, pois ele tinha sempre as mãos na água ao brincar com os seus barcos, uma mão ainda de criança), e pegou-lhe devagar como quem pega num bocadinho de sol, de lua ou até de música, se tudo isto se pudesse alguma vez prender.

E o pardalzito olhava-o tristemente. Parecia dizer-lhe:

— Vês, José, o que me fizeram?

Estava ferido, teria sido outro pássaro maior, algum caçador, quem sabe?

E o menino pensou consigo, sozinho:

— Que lhe hei-de fazer? Que lhe farei? Levou-o perto da água, a água sua amiga, que lhe era estrada dos seus barcos, e o passarito cheio de sede (talvez tivesse febre porque também têm febre os passaritos) bebeu daquela água do charco do quintal. Então, de súbito, o José pensou consigo sozinho:

— Passo aqui tanto tempo com os meus barcos e há tanta coisa linda que não olho. Porque eu nunca olhei assim os olhos de um pássaro.

Ele queria dizer lá consigo, talvez:

— Passo aqui tanto tempo e há tanta beleza que eu deixo de olhar, tanto bem que eu deixo de fazer…

Porque os meninos sentem muito, mesmo que o não digam com palavras, ou por palavras que não são bem as das pessoas crescidas que já se esqueceram do seu tempo de meninos.

E, então, o José foi ter com a mãe, subiu os degraus da casa com o passarito na mão: já se sentia cansado de pensar sozinho e não sabia mais o que havia de fazer-lhe.

E o passarito parecia sempre perguntar:

— Vês o que me fizeram?

A mãe estava em casa a embalar a irmã pequenina, que não tinha uma blusa à marinheira mas um casaquinho fofo que parecia uma flor de amendoeira acabada de nascer. E a mãe cantava, assim com a menina, como se estivesse a cantar para as estrelas. A mãe cantava assim:

O meu cantar é uma nuvem
E uma nuvem é de água…

Quando o menino apareceu, a mãe interrompeu a canção.

A menina fazia clá… clá… clá… assim querendo dizer, talvez, mãe, pai, José, pássaros, a Lua, eu sei lá!

E a mãe perguntou:

— Porque apanhaste o pardalzito?

E o José explicou que ele estava ferido e que o olhava aflito como quem dizia:

— Vês o que me fizeram?

Então a mãe pegou muito devagar no pardalzito, assim de manso com as duas mãos: há alturas em que as mãos das mães parecem flores ou asas! E disse:

— Deixa, faz-se-lhe um ninho e quando ele estiver bom deixa- se voar.

— Deixa-se voar? — perguntou o José como se dissesse que o queria para si, que dele haveria saudade.

E a mãe entendeu:

— Deixa-o voar depois, José. Não voas tu sozinho, quando olhas os teus barcos ou os próprios pássaros que voam?

— Mas eu não saio do quintal!

— Mas voas, José, tu o sabes. O homem voa, é livre, deve ser livre, pois tem o pensamento: e tu, quando tiveres tino, dos muros do nosso quintal sairás. Agora, os pássaros precisam de todo o espaço para voar. Talvez tenham pensamento, mas nós não sabemos…

E, por fim, perguntou:

— Onde o encontraste?

— Na árvore — respondeu José — entre as folhas amarelas do Outono.

A mãe disse consigo sozinha: isto parece um poema…

Mas não o disse alto porque o menino a não entenderia.

Mas tu sabes, Amigo, o que é um poema e sabes que um pássaro ferido, numa árvore, e entre folhas douradas de sol, o pode ser assim.

A irmã pequenina continuava clá… clã… clã… como se fosse uma flor e falasse.

E depois a mãe foi buscar uma pequena caixa de cartão branco e forrou-a de lã.

E lá poisou o pardalzito e meteu-lhe no bico migalhas brancas de pão.

E o pardalzito olhava a mãe do menino como se dissesse:

— O que tu me fazes…

Mas já o menino, com o coração sossegado, fugira para o quintal.

Havia um sol de Outono manso e dourado que punha mais ouro nas folhas e no charquito azul – o mar dos seus barcos.

Sentou-se José na relva macia do chão e apoiou a cabeça numa pedra ainda quente do sol. E pareceu-lhe ouvir um coração bater. E pensou consigo sozinho:

— Será que as pedras também têm coração?

Porque lhe parecia assim, naquela tarde de Outono?

Estaria ele a descobrir coisas maravilhosas da vida?

Ali perto uma cigarra começou o seu canto sempre igual, mas tão claro e tão lindo.

Tinha sido o pássaro, depois a pedra, agora aquela cigarra sempre a dizer-lhe a mesma coisa – e tanto, afinal! – assim como aquele poema de que a mãe lhe não falara.

E começou a olhar tudo com mais atenção. Ali estava aquela figueira que ele sempre achara feia, torcida, de folhas rugosas. Comparada com a laranjeira de folhas cheias de lustro e brilhantes e – uma vez por ano – com uns frutos que pareciam de oiro, a figueira era feia, feia…

Mas agora não. Como é que ele nunca a tinha olhado?

A figueira era bonita, até mais que bonita, linda, com um ar de quem sofreu e, por isso, merece mais amor.

Daí para o futuro havia de passar muitas vezes por ela e dizer- lhe:

— És linda, figueira, és linda!

Assim mesmo à beira para a figueira ouvir. Escusava até de lho dizer alto com palavras. Então não era linda? Não lhe pousavam pássaros que ali vinham parar cansados?

E o vento, de mansinho, pelas folhas ásperas, como se o vento fosse a mãe – quando a mãe a José beijava as mãozitas de água enrugadas.

E José tudo isto pensava, tudo isto sonhava. E adormeceu.

Era o pôr-do-sol.

Já no céu a Lua muito branca começava a balouçar, assim um pouco tremente como se tivesse frio. E a estrela dos pastores – a que aparece primeiro – de uma cor brilhante de violeta desmaiada num xaile de luz parecia dizer:

— Aí vem a noite e as estrelas minhas irmãs!…

E, então, o menino deixou-se dormir de mansinho. E sonhou. José já não era o menino de blusa à marinheira mas um homem.

Ai, o que é um Homem, Amigo! Qualquer coisa de muito, muito sério!

No ar andava um perfume de maçã cortada e ele havia chegado a uma ilha com todos os seus barcos, toda a sua frota que já não era de papel.

E a blusa marinheira tornara-se outra vez muito azul, muito azul, assim como o céu quando não há sol demais.

Chegara a uma ilha e todos lhe diziam:

— Bom dia, senhor Capitão!

E nessa ilha as pedras tinham coração e os pássaros falavam.

Os pássaros não eram feridos pelo caçador, nem por outro pássaro maior que os fazia sofrer.

Nessa ilha havia homens de cor branca, de cor amarela e de cor negra, mas esses homens eram todos estranhamente iguais.

E, ali, veio um Homem grande e perguntou-lhe:

— Rapaz, quem és tu?

— Eu sou o José de blusa marinheira — ele respondeu.

E o Homem perguntou-lhe mais:

— Rapaz, de onde vens tu?

— Eu venho do meu quintal que tem árvores, pássaros e um charquinho de água — ele respondeu.

E o Homem perguntou mais ainda:

— Rapaz, quem é a tua mãe?

— A minha mãe é a minha mãe que trata de nós e canta uma cantiga triste à nossa menina — ele respondeu.

E o homem perguntou mais ainda:

— És rico, rapaz?

Então José não soube o que responder. Ele não tinha nada. Mas pensou no pai, na mãe, na menina, nos pássaros, na figueira feia, na laranjeira linda, nas pedras quentes do sol e no charquinho do quintal. E encolheu os ombros como quem diz:

— Nada… — Ou: — Tanto! E sorriu.

Então o menino devia parecer ao Homem grande uma grande estrela.

E os barcos do menino seriam de ouro e as suas velas de seda.

— Rapaz, és mesmo tu quem eu procuro! — disse o Homem grande.

— Porquê? — E o menino se admirou, todo se admirou.

— Tenho um trono. Sabes o que é um trono, rapaz? — perguntou o Homem.

E o rapaz disse que sim, que sabia.

— E o trono está vazio — tornou o Homem. — Para cada criança há um trono vazio. E agora és tu quem se lá vai sentar.

O menino, sem saber porquê, lembrou-se do pássaro ferido e sentiu-se esse pássaro nas suas próprias mãos. E gritou:

— Não quero, Homem grande. Eu quero voltar para o meu quintal, para junto do meu pai, da minha mãe, da nossa menina.

— Rapaz! — tornou o Homem — Não deixes fugir o que te ofereço agora. Tu sabes bem o que é um trono?

— Sei — fez ele que sim outra vez.

— E sabes que no meu reino os pássaros falam, as pedras têm coração, todas as mães são felizes e todos os homens contentes? Nem sequer há pássaros feridos que nos digam: Vês o que me fizeram? Esse é o Mundo que o Homem sonha e não tem ainda. E por isso sofre.

E o menino pensou consigo sozinho:

— Homem grande, adivinhaste os meus pensamentos.

E o Homem sorriu como se o tivesse escutado. Então o menino pensou mais sozinho:

— Será que já não sou criança? Que já não sou mais criança?

E o Homem grande sorriu mais ainda, como a dizer-lhe:

— Talvez não.

E o menino pensou com tristeza: — E eu que gostava tanto de ser homem e estou assim tão triste… Mas tenho saudades de beijar o meu pai quando ele vem de trabalhar a terra, de ouvir o canto triste da minha mãe (triste e, ao mesmo tempo, tão cheio de esperança!) quando ela embala a nossa menina.

Saudade da nossa menina só dizer clá… clá… Saudades! Saudades do meu quintal, dos meus barcos de papel, do charquinho de água cheio de sol. Até da figueira linda, até da chuva a cair…

E entendeu o que a mãe lhe não tinha dito quando as suas mãos longas e belas seguravam o pássaro ferido que ele achara entre as folhas de Outono.

E, então, disse ao Homem grande:

— Não quero o teu trono…

— Por Deus! Tens de o querer. Tu cresceste! A tua blusa marinheira cá a mim, que sou grande, parece-me um céu, mas se a olhares bem, tu, ela está desbotada. Todos nós, homens, temos uma blusa assim.

Ser grande, José (eu sei agora o teu nome), é acharmos as figueiras lindas, entendermos o canto dos pássaros, escutarmos o coração das pedras, sabermos que há uma ilha verde onde nascem as estrelas e os homens são bons. Assim. Tudo quanto sonhamos em criança mas sabermos que tudo isso é verdade dentro de nós. Que essa beleza depende de nós, do nosso coração. Estás a entender, rapaz?

O José tornou que sim com os olhos brilhantes de lágrimas… – que também se chora de alegria. Não ser mais criança era aquilo: saber que o Amor está no nosso coração, que somos nós que devemos dar essa força imensa.

E tornou a sorrir.

Então o Homem grande bradou:

— Senta-te no trono, rapaz! És um Homem! O menino hesitou, estremeceu ainda como a primeira estrela no céu azul.

— Tens medo, rapaz? — perguntou o Homem. E o rapaz, sem saber como, disse:

— Eu, medo? Medo não. Tudo isto é maravilhoso!

— É — continuou o Homem grande. — Vais sentar-te no trono da Vida. Para cada Homem verdadeiro, para cada Mulher verdadeira, ele está sempre vazio.

— Um dia — acrescentou melancolicamente — terás cabelos brancos e eu virei de novo ter contigo.

O rapaz estremeceu e pensou consigo sozinho:

— Cabelos brancos? Assim da cor da neve do Natal? Então é verdade que a vida passa depressa e eu terei já a neve nos meus cabelos?

E o Homem grande entendeu-lhe o pensamento e sorriu-lhe com coragem:

— Passa, rapaz! Ela vai devagar mas vai passando. Aproveita- a cada dia, cada hora, como se fosse o teu último dia, a tua última hora: não percas tempo… Vê em cada ser, em cada coisa, um motivo de amor, de perdão.

— Perdão? — admirou-se o rapaz.

— Sim, rapaz. É sempre preciso perdoar. O pássaro que está em tua casa já perdoou quando te disse sem mal: vês o que me fizeram?

A figueira já te perdoou quando a achaste feia. E até te perdoou tua mãe quando achaste triste o seu canto.

Perdão é entendimento pelas fraquezas da vida, mas não esquecimento: é força para assim a não querer, para a tornar melhor.

E José disse:

— Lá vou!

E correu para o trono, para ali se sentar confiante, cheio de alegria e estendeu abertas e felizes ao Homem grande aquelas duas mãos de menino ainda, mãozitas enrugadas de água.

Mas de súbito a voz do Homem grande era a voz do pai.

— Rapaz, adormeceste!

O pai chamava-lhe rapaz. Ainda. Talvez sempre lho chamasse. As mãos do pai eram rugosas, cheias dos calos do trabalho da terra e prendiam as suas.

— Rapaz, deixaste-te dormir assim com a cabeça numa pedra…

E o pai sorria.

O ar cheirava a maçã cortada e a Lua muito nítida brilhava no céu escuro de tanto azul. Entraram em casa. A mesa estava posta, a terrina do caldo no meio da mesa, fumegante.

O pai perguntou:

— Como está a nossa menina?

E a menina, no berço, fazia clá… clá…

Então a mãe, enquanto deitava o caldo nos pratos, disse contente:

— Já hoje disse papá…

E depois voltou-se para o rapaz, assim como com medo de lhe dar uma notícia triste:

— Sabes que morreu o pardalzinho? Amanhã já não o podemos pôr em liberdade…

Mas o José sorriu-lhe, corajoso. Se fosse ainda uma criança, talvez chorasse. Mas já se havia sentado num trono onde se chora sem o dizer, onde se é rei para defender os outros de qualquer mágoa.

E sorriu à mãe, como se lhe dissesse:

— No meu trono hei-de tornar o teu canto tão alegre como as estrelas.

E tanta coisa mais ele pensou. Tanta coisa que não disse e a mãe sentiu.

E pela madrugada, sozinho, foi enterrar no quintal o pássaro morto: era a sua própria infância que ali ficava guardada, a blusa marinheira, os barcos de papel.

Daí para o futuro o pai diria: O meu rapaz!

A mãe, quando cantasse, havia de ter um canto mais contente.

Ele próprio já não sabia se era o José, se o Homem grande que lhe sorria no sonho, ao anoitecer, e lhe falara, quando ele sentira o coração da pedra onde deitara a cabeça e adormecera.

E, assim, Amigo, aqui finda esta história que não é de paz nem de guerra.

E assim finda esta história que não é de paz nem de guerra e, se não é uma história de Amor, que a Vida me perdoe…

Matilde Rosa Araújo
História de um rapaz
Livros Horizonte, 1986

adaptado

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A menina e o pássaro encantado

Para o adulto que for ler esta história para uma criança:

Esta é uma história sobre a separação: quando duas pessoas que se amam têm de dizer adeus…
Depois do adeus, fica aquele vazio imenso: a saudade.
Tudo se enche com a presença de uma ausência.
Ah! Como seria bom se não houvesse despedidas…
Alguns chegam a pensar em trancar em gaiolas aqueles a quem amam. Para que sejam deles, para sempre… Para que não haja mais partidas…
Poucos sabem, entretanto, que é a saudade que torna encantadas as pessoas. A saudade faz crescer o desejo. E quando o desejo cresce, preparam-se os abraços.
Esta história, eu não a inventei.
Fiquei triste, vendo a tristeza de uma criança que chorava uma despedida… E a história simplesmente apareceu dentro de mim, quase pronta.
Para quê uma história? Quem não compreende pensa que é para divertir. Mas não é isso.
É que elas têm o poder de transfigurar o quotidiano.
Elas chamam as angústias pelos seus nomes e dizem o medo em canções. Com isto, angústias e medos ficam mais mansos.
Claro que são para crianças.
Especialmente aquelas que moram dentro de nós, e têm medo da solidão…

Era uma vez uma menina que tinha um pássaro como seu melhor amigo.

Ele era um pássaro diferente de todos os demais: era encantado.

Os pássaros comuns, se a porta da gaiola ficar aberta, vão-se embora para nunca mais voltar. Mas o pássaro da menina voava livre, e vinha quando sentia saudades… As suas penas também eram diferentes. Mudavam de cor. Eram sempre pintadas pelas cores dos lugares estranhos e longínquos por onde voava. Certa vez voltou totalmente branco, cauda enorme de plumas fofas como o algodão…

— Menina, eu venho das montanhas frias e cobertas de neve, tudo maravilhosamente branco e puro, brilhando sob a luz da lua, nada se ouvindo a não ser o barulho do vento que faz estalar o gelo que cobre os galhos das árvores. Trouxe, nas minhas penas, um pouco do encanto que vi, como presente para ti…

E, assim, ele começava a cantar as canções e as histórias daquele mundo que a menina nunca vira. Até que ela adormecia, e sonhava que voava nas asas do pássaro.

Outra vez voltou vermelho como o fogo, penacho dourado na cabeça.

— Venho de uma terra queimada pela seca, terra quente e sem água, onde os grandes, os pequenos e os bichos sofrem a tristeza do sol que não se apaga. As minhas penas ficaram como aquele sol, e eu trago as canções tristes daqueles que gostariam de ouvir o barulho das cachoeiras e ver a beleza dos campos verdes.

E de novo começavam as histórias. A menina amava aquele pássaro e podia ouvi-lo sem parar, dia após dia. E o pássaro amava a menina, e por isto voltava sempre.

Mas chegava a hora da tristeza.

— Tenho de ir — ele dizia.

— Por favor, não vás. Fico tão triste. Terei saudades. E vou chorar… — E a menina fazia beicinho…

— Eu também terei saudades — dizia o pássaro. — Eu também vou chorar. Mas vou contar-te um segredo: as plantas precisam da água, nós precisamos do ar, os peixes precisam dos rios… E o meu encanto precisa da saudade. É aquela tristeza, na espera de regresso, que faz com que as minhas penas fiquem bonitas. Se eu não for não haverá saudade. Eu deixarei de ser um pássaro encantado. E tu deixarás de me amar.

Assim, ele partiu. A menina, sozinha, chorava à noite de tristeza, imaginando se o pássaro voltaria. E foi numa dessas noites que ela teve uma ideia malvada: “Se eu o prender numa gaiola, ele nunca mais partirá. Será meu para sempre. Não mais terei saudades. E ficarei feliz…”

Com estes pensamentos, comprou uma linda gaiola, de prata, própria para um pássaro que se ama muito. E ficou à espera. Ele chegou finalmente, maravilhoso nas suas novas cores, com histórias diferentes para contar. Cansado da viagem, adormeceu. Foi então que a menina, cuidadosamente, para que ele não acordasse, o prendeu na gaiola, para que ele nunca mais a abandonasse. E adormeceu feliz.

Acordou de madrugada, com um gemido do pássaro…

— Ah! menina… O que é que fizeste? Quebrou-se o encanto. As minhas penas ficarão feias e eu esquecer-me-ei das histórias… Sem a saudade, o amor irá embora…

A menina não acreditou. Pensou que ele acabaria por se acostumar. Mas não foi isto que aconteceu. O tempo ia passando, e o pássaro ficando diferente. Caíram as plumas e o penacho. Os vermelhos, os verdes e os azuis das penas transformaram-se num cinzento triste. E veio o silêncio: deixou de cantar.

Também a menina se entristeceu. Não, aquele não era o pássaro que ela amava. E de noite ela chorava, pensando naquilo que havia feito ao seu amigo…

Até que não aguentou mais.

Abriu a porta da gaiola.

— Podes ir, pássaro. Volta quando quiseres…

— Obrigado, menina. Tenho de partir. E preciso de partir para que a saudade chegue e eu tenha vontade de voltar. Longe, na saudade, muitas coisas boas começam a crescer dentro de nós. Sempre que ficares com saudade eu ficarei mais bonito. Sempre que eu ficar com saudade, tu ficarás mais bonita. E te enfeitarás, para me esperar…

E partiu. Voou que voou, para lugares distantes. A menina contava os dias, e a cada dia que passava a saudade crescia.

— Que bom — pensava ela — o meu pássaro está a ficar encantado de novo…

E ela ia ao guarda-roupa, escolher os vestidos, e penteava os cabelos e colocava uma flor na jarra.

— Nunca se sabe. Pode ser que ele volte hoje…

Sem que ela se apercebesse, o mundo inteiro foi ficando encantado, como o pássaro. Porque ele deveria estar a voar de qualquer lado e de qualquer lado haveria de voltar. Ah!

Mundo maravilhoso, que guarda em algum lugar secreto o pássaro encantado que se ama…

E foi assim que ela, cada noite ia para a cama, triste de saudade, mas feliz com o pensamento: “Quem sabe se ele voltará amanhã….”

E assim dormia e sonhava com a alegria do reencontro.

Rubem Alves
As mais belas histórias de Rubem Alves
Lisboa, Edições Asa, 2003
Tesxto adaptado

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Viagem através do sol

Uma criança sentou-se na tarde agreste e pintou o sol. A sala onde a criança estava ficou iluminada e fresca. Depois, a criança misturou as tintas, a água, o sonho e, num grande cartão, lentamente, foi erguendo prados, lezírias, florestas, aves, flores inesperadas. Então, chamou a irmã que a um canto assistia à criação deste mundo original e disse: «Vamos fazer uma viagem!»

E entraram os dois com seus olhos e sua imaginação pela tela dentro, alheios ao espanto de quem os contemplava nesse itinerário súbito da tarde de frio.

Misteriosamente, trocavam palavras de silêncio, encontravam- se com anões, gigantes e animais estranhíssimos, metade homens, metade bichos que, ora os assustavam, ora os desvaneciam.

A certa altura a menina disse:

— Vamos chamar a mamã?

E o menino respondeu:

— Não podemos. É muito alta. Não cabe nestes caminhos: ia pisar tudo e estes bichinhos ficavam tristes. Muito tristes.

A mãe, imóvel numa cadeira, ali mesmo à entrada desse lugar impenetrável e inacessível, ouvia o diálogo e tentava fazer-se pequenina para ir com eles. Mas não conseguia. Esforçava-se imenso e não conseguia. Tinha uma grande vontade de chorar por estar ali sozinha à beira daquele milagre mas as lágrimas não lhe adiantavam. Entretanto, os meninos, sempre a caminhar, tinham chegado ao mar. Era um mar sem abismos, sem ondas, sem temporais. Um mar susceptível de ser atravessado pelos pés levíssimos de quem o descobria.

— Vamos ao fundo deste mar! — disse a menina.

— Cá em cima é mais fresco. Lá em baixo há peixes grandes e escuros. Mordem, os peixes.

— E a mamã? — insistia a menina, já perturbada pela lonjura a que devia estar de casa, perturbada pelo bibe molhado, aflita com as algas verdes que se lhe colavam ao rosto.

— Levamos-lhe uma flor do mar. Ela fica contente se tem uma flor.

— Vamos já embora? — tornava a menina.

— Não. Só quando formos muiiiiiiito velhos.

A menina calou-se. Estava séria. Estendeu-se ao lado do irmão na areia branca daquela praia tranquila e distante.

Sentia-se muito cansada e adormeceu.

Então, amorosamente, o irmão tapou-a de folhas e flores imaginárias e ficou ali a velar-lhe o sorriso.

Quando reparou na mãe, estremeceu ligeiramente. Tinha os olhos brilhantes e, dos cabelos, escorria-lhe um perfume a sol e azul.

Sobre a tela, encostada a um armário, a noite começava a diluir em sombra toda a floresta, e o dorso dos animais marinhos erguia-se também numa respiração tranquila.

Maria Rosa Colaço
Não Quero Ser grande
Lisboa, Ed. Escritor, 1996

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Os quatro irmãos

Era uma vez quatro irmãos, quatro irmãos diferentes como são as horas do dia. Eram três irmãos e uma irmã.

O primeiro era forte e loiro como um rei antigo. Tinha um olhar luminoso e fiel que só de olhar aquecia o coração. Na sua mão direita, estendida, parecia segurar uma estranha varinha – um raio de sol.

O segundo irmão vinha vestido de castanho dourado. Com um fato de folhas douradas pela luz. E na sua mão direita, estendida, trazia um fruto maduro da cor do ouro velho quando lhe dá o Sol.

E o terceiro irmão era velho e triste. Os cabelos brancos tombavam-lhe pela pele de carneiro que lhe cobria o corpo enregelado.

Na sua mão direita, estendida, não trazia nada, nada. E a mão tremia de frio. Ou talvez a mão vazia, estremecendo, escondesse um maravilhoso segredo.

E, por fim, ela, a menina, de cabelos lisos dourados e olhos verdes da cor das ervas tenras dos campos, cantava, segurando na mão direita uma estranha e bela flor.

E os quatro irmãos, vindos pelos caminhos livres da terra, chegaram a uma montanha, a uma alta montanha perto do Sol.

Mas quem são estes quatro irmãos tão diferentes? Ides sabê-lo vós mesmos, Amigos.

Vieram estes quatro irmãos, uns atrás dos outros, devagarinho.

E, no azul do Céu, o Sol pareceu parar, perguntando assim: — Por aqui? Todos ao mesmo tempo? E o Sol pareceu parar, fitando mais a menina:

— Tu, e os teus irmãos?

E redondo e parado, todo estremeceu parecendo zangar-se:

— Por aqui? Por aqui? Todos ao mesmo tempo?

Então a menina falou:

— Hoje, Sol nosso Amigo, saímos de nossa casa, que não tem paredes, nem telhado, nem janelas, e viemos aqui à montanha pelos caminhos livres da terra, falando com quem encontramos.

E acrescentou como se se desculpasse:

— Nós nunca andamos juntos, mas hoje…

O Sol estremeceu ainda:

— Mas o que será feito de vossa Mãe sem que um de vós lhe assista? Três de vós têm de ficar em casa…

O irmão mais velho, o da mão estendida que parecia vazia, respondeu:

— A Nossa Mãe-Terra continua a viver. É por pouco tempo que nós andamos assim… Não vês, Sol? Ora escuta… Vê… Voam e cantam os pássaros, correm os rios, vão e vêm as ondas do mar… Os homens trabalham, apitam as fábricas, revolvem-se os campos, vão as crianças para as escolas…

O Sol, apesar de tudo, inquietou-se:

— Vejo! Oiço! Mas vocês, vocês os quatro por aqui ao mesmo tempo! Não é costume. Não é bom nem prudente.

Os quatro irmãos olharam-se. Queriam explicar por que estavam todos ali, vindos da casa sem paredes, sem janelas. Aquela casa onde habitavam os quatro irmãos, estando um sempre na rua, correndo os caminhos livres da Terra.
Então, o irmão loiro, que parecia um rei antigo e trazia um raio de Sol na mão, resolveu falar:

— Nossa Mãe mandou-nos os quatro pelos caminhos livres da terra, os quatro ao mesmo tempo, para que disséssemos aos homens que encontrarmos que somos amigos, embora bem diferentes tu nos vejas à tua própria luz. Embora diferentes, somos amigos, sabemos trabalhar para que os homens sejam felizes, tenham pão, flores, alegria…

Foi nossa Mãe quem nos mandou…

Os outros três irmãos sorriram, sorriram os três e continuaram de mão direita estendida, estendida, sorrindo. Até o de cabelos brancos, vestido de pele de carneiro, parecia jovem, sorrindo.

E o Sol, docemente, com um calor todo suave perguntou:

— Vossa Mãe? Como ela me lembra sempre! Ela que pensa em tudo e em todos! Está muito velha a vossa Mãe?

Foi a vez de falar o irmão vestido de folhas doiradas, que trazia um fruto maduro na mão direita, estendida:

— Nossa Mãe tem a idade da vida, da própria vida. Ama-nos a nós os quatro. E ama tudo e todos. Como pode envelhecer quem ama assim?

E o Sol pensou alto, então:

— Como tendes razão! Como pode envelhecer quem ama assim!

E sorrindo, isto é, brilhando mais, falou para os quatro irmãos:

— Continuai o vosso caminho pelos caminhos livres da terra. Mas não esqueçais que tendes de voltar para a vossa casa que não tem parede, nem telhado, nem uma janela, e um só de vós os quatro andar por fora. O que será da terra sem que um dos quatro irmãos lhe assista!

E os quatro irmãos apressaram-se a dizer:

— Tendes razão, Sol. Nós vamos.

E disseram adeus ao Sol e começaram a caminhar. E foram em direcção ao mar.

Chegaram junto a uma praia e viram consertando as redes um velho pescador de barbas grisalhas, moreno pelos ventos do mar, pela luz do Sol.

E o pescador, pressentindo-lhes os passos na areia dourada, ficou-se pensativo com a agulha no ar e perguntou por fim:

— Quem sois?

Os quatro irmãos sorriram e outra vez o mais velho respondeu:

— Tu conheces-nos. O ano inteiro nos conheces aqui nesta praia. Três meses por ano, um de nós vem visitar-te. Acompanha-nos o Sol e o Vento, o Frio e a Chuva, a Bonança e a Tempestade. Olha bem para nós!

Então o velho pescador franziu os olhos já cansados de olharem tantos anos, e sorriu. E falou devagar:

— Como vos conheço! Sei quando vem cada um de vós, cada irmão por sua vez. Basta-me olhar o brilho das estrelas, o correr das nuvens, o bater do mar. Sei quando chega cada um de vós, deixando os outros irmãos em casa. Mas hoje, hoje vieram todos ao mesmo tempo…

Os quatro irmãos sorriram. E falou a irmã:

— Nossa Mãe mandou-nos os quatro pelos caminhos livres da Terra para que disséssemos aos homens que somos amigos, embora tão diferentes. Nós quatro, tu bem o sabes enquanto olhas o mar, como somos amigos. Como sabemos trabalhar para que os homens sejam felizes, tenham pão, flores, alegria.

E os outros irmãos sorriram, sorriram os outros três, e continuaram com a mão direita estendida, sorrindo. Até o de cabelos brancos, vestido de pele de carneiro, parecia jovem, sorrindo feliz.

O pescador fixou este com mais força no olhar cansado, e observou-lhe:

— Tu, às vezes, fazes revolver o Mar, mais do que os teus irmãos agitar a Terra, e nós, pescadores, somos tragados pelas ondas frias.

O irmão mais velho pareceu agora mais velho, mas sereno respondeu:

— É assim a lei da vida que me manda experimentar os homens, a sua coragem. Mas o engenho do homem é imenso, a sua coragem, sem fim.

O pescador sorriu, continuou a consertar a sua rede e pensou alto:

— As praias batidas pelo mar tornam-se mais belas. A agitação das águas é a vida de milhões de peixes que enchem as nossas redes.

E a coragem do homem é sem fim, tendes razão…

E sorria, continuava sorrindo, os olhos, a boca, todo o rosto com suas rugas sorrindo, as próprias mãos parecendo sorrir também, trabalhando muito depressa…

E os quatro Irmãos, três irmãos e uma irmã, caminharam de novo pela areia dourada aquecida pelo Sol.

E pararam junto de uma árvore onde se abrigava uma doce mulher embalando um filho pequenino que adormecia nos seus braços.

E a doce mulher cantava:

Quem tem filhinhos pequenos
Tem por força de lhes cantar
Quantas vezes uma mãe canta
Com vontade de chorar…

E a mulher, a doce mulher, suspendeu o seu canto e o seu embalo, e perguntou aos quatro irmãos:

— Quem sois vós?

E os quatro irmãos sorriram. E respondeu o que se vestia de dourado e trazia um fruto cor de ouro velho na sua mão:

— Tu conheces-nos. Sabes quando nós chegamos pelo canto dos pássaros, canto mais contente quando eles fazem o ninho na árvore que te dá sombra.

E continuou:

— Nossa Mãe mandou-nos pelos caminhos livres da Terra para que disséssemos aos homens que somos amigos, embora tão diferentes. Nós quatro, tu bem o sabes enquanto olhas os campos e o céu embalando o teu menino, como somos amigos.

Como sabemos trabalhar para que os homens sejam felizes, tenham pão, flores, alegria.

Então a doce mulher sorriu, sorriu e falou:

— Como vos conheço! Sei quando vem cada um de vós pelo canto e pelo voo dos pássaros… Quando eles fazem os ninhos nesta árvore que me dá sombra, quando as flores nascem para me sorrirem por toda a casa, quando posso trincar um fruto como esse que tens na mão, tu, irmão das folhas douradas… Mas hoje, hoje, viestes todos ao mesmo tempo… e não vos reconhecia.

E os quatro irmãos sorriram. E a irmã falou. Falou de mão estendida, com uma bela e estranha flor na sua mão:

— Foi nossa Mãe quem nos mandou…

E os quatro irmãos sorriam, os quatro com o braço direito estendido. Até o vestido de pele de carneiro parecia jovem, sorrindo feliz. Então a mulher perguntou:

— E como está vossa Mãe, na vossa casa que não tem paredes, nem telhado, nem janelas? Muito velha, não?

Respondeu o irmão loiro que trazia um raio de Sol na mão estendida:

— Nossa Mãe tem a idade da vida, da própria vida. Ama-nos a todos. Ama tudo e todos. Cuida de nós todos. De ti, também, e do teu menino que embalas tão docemente. Como pode envelhecer quem ama assim?

A mulher sorriu, entendendo, sorriu, e depois disse como se pensasse alto:

— Vocês vieram os quatro ao mesmo tempo pelos caminhos livres da Terra, da vossa casa sem telhado, sem porta e sem janelas, para que o Mundo seja contente, para que todas as mães cantem sem vontade de chorar…

E ficou-se a sorrir como se dissesse adeus, com uma lágrima sobre o rosto cansado.

Então os quatro irmãos resolveram voltar a casa.

Já a Lua no Céu lhes sorria como uma candeia de prata. Alumiava-lhes de mansinho, rodeada de estrelas, o caminho da casa, a casa sem telhado, sem portas e janelas, onde a Mãe os esperava com os dois braços estendidos, sorrindo, parecendo estar muito longe e muito perto.

E a Mãe, esperando-os, murmurava sorrindo com uma voz cheia de amor:

— Meus filhos!

E abraçou-os um a um, devagarinho, com muito amor, lágrimas de felicidade fugindo-lhe pelo rosto enrugado e feliz.

E os quatro Irmãos entraram sorrindo, com o Sol, a Chuva, o Vento no coração.

E contaram à Mãe, à sua velha Mãe, o que haviam visto, os quatro ao mesmo tempo, nos caminhos livres da Terra…

Deixai-os contar, um depressa terá que sair por três meses do Ano – terá de deixar a casa sem porta, sem janelas, sem telhados.

E se eu vos não digo os nomes destes quatro irmãos, três irmãos e uma irmã, é porque vos quero dar a alegria de os descobrirdes sozinhos, assim como quem descobre quatro segredos que têm um nome só, igual ao de sua Mãe.

Matilde Rosa Araújo
Os Quatro Irmãos
Lisboa, Livros Horizonte, 1983

adaptado

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