Feeds:
Artigos
Comentários

Archive for the ‘tolerância’ Category

A igreja do rei

Tradição Cristã

Era uma vez um rei que quis edificar uma igreja magnífica em honra da Virgem, decretando que ninguém nos seus estados pudesse contribuir para a obra, ainda mesmo que com a mais pequena quantia. Quando o edifício se concluiu, enorme, soberbo, grandioso, mandou o rei gravar numa pedra de mármore uma inscrição em letras de oiro, que dizia que só ele, e mais ninguém, tinha levado a cabo aquela obra monumental. Mas, na noite seguinte, o nome do rei foi apagado da inscrição, substituído pelo de uma pobre mulherzinha do povo. O rei, ao outro dia, tornou a mandar gravar o seu nome na inscrição, e de novo foi substituído pelo da pobre mulher; à terceira vez, sucedeu o mesmo. O rei, cheio de cólera, ordenou então que lhe levassem a mulher à sua presença.

— Proibi a todos os meus vassalos — disse ele — que contribuíssem fosse com o que fosse para a edificação desta igreja; vejo que não cumpriste as minhas ordens.

— Senhor — respondeu a velhinha toda trémula – eu respeitei as vossas ordens, apesar da mágoa que sentia por não poder oferecer o meu pequenino óbolo em honra da Virgem, mas julguei não desobedecer a Vossa Majestade, deixando por vezes de jantar para comprar um pouco de feno, que eu levava às escondidas aos bois que conduziam as pedras destinadas à construção da igreja.

— O teu nome é mais digno do que o meu de figurar em letras de oiro na inscrição do monumento — disse-lhe o rei.

Mas, na noite seguinte, uma invisível mão restabeleceu na lápide da igreja o nome do rei, que desde então lá se conserva ainda.

Guerra Junqueiro
Contos para a Infância
Porto, Editora Justiça e Paz, 1987

Read Full Post »

O caderno estragado

Bárbara estava furiosa. Já tinha o dia inteiro estragado. Não, o ano inteiro!

Começara o novo ano escolar com cadernos novos, lápis de cor novos e uma caneta de tinta permanente novinha em folha. Tomara a resolução de anotar e aprender tudo direitinho, logo desde o primeiro dia. Principalmente em Alemão. A professora Joana tinha sido tão simpática! E não é que Doli passou o tempo a segredar-lhe ao ouvido a letra daquela canção que decorara no Verão? Claro que a professora Joana disse imediatamente:

— Vocês não preferem ouvir, em vez de conversarem uma com a outra?

“Vocês”! Ela até estava a prestar atenção à professora! Toda a atenção que conseguia, aliás, só que o ouvido esquerdo estava ocupado por Doli, que lhe sussurrava:

Mar de prata e areia branca
Que saudades da praia…
Bárbara já estava a ficar surda com os cochichos. Que texto mais estúpido!

— Chiu! — fez ela.
A professora Joana lançou-lhe um olhar de advertência.

“Mas porque é que fui sentar-me ao lado da Doli?”

Doli segredava:

— Espera, eu escrevo-te o texto.

Pegou na caneta de tinta permanente de Bárbara, deu algumas voltas à carapuça, e foi então que tudo aconteceu. Um enorme pingo de tinta caiu no caderno de Bárbara e espalhou-se. Um borrão de tinta escuro e horrível.

Bárbara arrancou a caneta das mãos de Doli.

— Estás maluca?

— Caladas! — gritou a professora. — Se têm mesmo de discutir, discutam no intervalo! Agora está calada, Bárbara, se não, vou ter de vos separar!

Bárbara recostou-se para trás e cruzou os braços.

“Ora isso é que seria uma óptima ideia, tirar-me daqui a Doli”, pensou, fixando o borrão com um olhar irritado. O caderno de alemão estava estragado e a professora estava zangada com ela.

Quando chegaram à paragem do autocarro, já lá estava Francisco, o irmão de Bárbara. Bárbara correu para ele e cumprimentou-o. E, no autocarro, sentou-se ao seu lado, coisa que nunca fazia. Francisco admirou-se. Depois, viu a cara de Doli e percebeu que as duas meninas estavam zangadas uma com a outra. Bárbara fazia de conta que Doli não existia.

Francisco já estava habituado. Aquelas coisas geralmente demoravam um dia ou dois e, no fim, as duas voltavam a ser as melhores amigas uma da outra.

— Como é que correu a escola? — perguntou a irmã. — O Manolo voltou a aborrecer-vos?

Francisco assentiu com a cabeça.

— Manolo, o parolo.

Bárbara riu alto. Doli que ouvisse só como ela estava a divertir-se com o irmão.

— Imagina o que me aconteceu — contou Francisco. — Fiz um borrão de tinta no caderno de matemática do Ricardo!

— Tu?!

— Sim. Tem de se ter cautela com as canetas de tinta permanente. Quando se roda a carapuça na direcção contrária, a tinta sai toda! — Francisco riu-se. — Bem, o Ricardo ficou tão zangado! Mas eu peguei no caderno e do borrão fiz um polvo.

— Um quê?

— Um polvo… e à volta desenhei uma paisagem subaquática, com corais e tudo, e pintei uns peixes! Ficou fantástica!

Francisco estava convencido de que um dia iria tornar-se um grande artista. E sabia desenhar mesmo bem.

— A princípio, o Ricardo queria arrancar a folha, mas depois acabou por deixá-la ficar e agora até está todo orgulhoso dela.

Bárbara olhava pensativa pela janela. Se nesse momento tivesse contado: “Olha, a Doli fez-me um borrão no caderno de Alemão! E estragou-me o dia!”, provavelmente o Francisco não ia compreender o motivo do alvoroço. Até mesmo Bárbara já não percebia porque se tinha zangado tanto.

“A Doli nem fez de propósito!”, pensava.

À saída do autocarro, Doli queria ir-se embora o mais depressa possível. Bárbara chamou-a.

— Espera! Vens hoje à tarde a minha casa?

Doli parou indecisa.

— Prometeste-me que ias escrever no meu álbum novo!

Doli percebeu que Bárbara queria fazer as pazes com ela.

— Está bem, escrevo-te um poema fantástico… para compensar o caderno estragado!

— O quê? Ah, estás a falar da mancha de tinta! — disse Bárbara. — Não te preocupes. O Francisco vai fazer-me dali um quadro. Ele tem muito jeito para essas coisas.

Monika Pelz

Jutta Modler (org.)
Frieden fängt zu Hause an
München, DTV Junior, 1989
Tradução e adaptação

Read Full Post »

A aluna estrangeira

Chama-se Salima, a nova da turma.

Não é uma menina calada e tímida, como Gabi. Salima faz-se notada em todo o lado.

Fala mais alto do que os outros. Veste roupas mais garridas do que a maioria. E não deixa que lhe preguem partidas.

Por isso, as crianças tentam arreliá-la constantemente. Diverte- as enfurecerem Salima, ouvi-la gritar, vê-la debater-se à volta delas.

Troçam dos seus cabelos encarapinhados, do nariz largo e da pele escura.

Salima é negra.

Fala bem alemão porque veio para a Europa com os pais quando ainda era bebé.

Gabi acha graça a tudo na nova menina.

Gosta dos olhos grandes, da voz gutural, da pele cor de chocolate.

Quando Salima ri, ri-se com o corpo todo. Quando está furiosa, parece um vulcão, onde tudo ferve.

Gabi emprestou logo o seu caderno à nova aluna, para ela copiar as lições. Com ela, Salima nunca é atrevida ou rude. Quando a deixam em paz, ela é igual aos outros.

Mal a menina estrangeira chegou à turma, há um mês, a escaramuça começou imediatamente:

— Uma preta! — disse Bettina bastante alto. Está sentada ao lado de Gabi e é a sua melhor amiga.

— É negra! — disse Georg arregalando os olhos.

A cozinheira negra já cá está…já, já, já…[1] — trauteou Inga baixinho, da penúltima carteira.

Infelizmente, a pior é Bettina. Tem sempre alguma coisa a apontar à nova menina. A culpada disso é a mãe. Até a proibiu de voltar da escola para casa com “essa preta”. A mãe nem conhece a menina estrangeira mas, mesmo assim, não gosta dela.

— Não é de cá — diz. — Vê-se à distância de dez metros que é diferente de nós.

Bettina também acha.

Gabi não percebe. “Isso não é motivo nenhum para não se gostar de alguém”, pensa. “Até é feio excluir-se uma pessoa, só porque ela tem um aspecto diferente do nosso.”

Gabi sabe o que é não pertencer ao grupo, porque também já foi nova na turma e ainda não há muito tempo. A nova, com os dentes da frente grandes e o nariz demasiado comprido. “Peixe Espada”, foi como lhe chamaram na altura. Precisou de um ano inteirinho até conseguir aguentar, sem chorar, a troça dos outros.

Mesmo assim, foi-lhe mais fácil do que o é agora para Salima. Porque Gabi é branca. Gradualmente, foi conseguindo ultrapassar o medo em relação aos outros.

Mas Salima nunca conseguiria esconder a sua pele escura.

Gabi gostaria de dizer aos outros da classe que a nova só é atrevida porque tem de estar sempre a defender-se. Porque não a deixam em paz de uma vez por todas? Só que tem medo de se pôr claramente do lado da menina estrangeira. Bem lhe quer mostrar que gosta dela, mas os outros não podem notar.

Não gostaria de vir a ter a maioria dos colegas contra ela, como antes, quando chegou como nova à turma.

Mesmo assim…

“Tenho de arranjar maneira de mostrar à Salima que estou do lado dela”, pensa Gabi. “E que gosto dela.”
Às vezes, no fim das aulas, depois dos outros já terem saído, Gabi atrasa-se de propósito para ficar mais um pouco com Salima, que demora sempre muito tempo a arrumar as coisas e a metê-las todas na pasta.

De repente, cai-lhe o estojo das mãos, e todos os lápis, os lápis de cor, duas borrachas e um pedaço de chocolate já mordido rolam para debaixo da carteira.

— Vá, eu ajudo-te — oferece-se Gabi.

Deitadas de barriga para baixo, tentam “pescar” o material escolar e o chocolate. Assim, ao tentarem chegar ao mesmo lápis ao mesmo tempo, chocam com os narizes uma na outra debaixo da carteira.

— Ai! Ui! — exclamam em coro, esfregando os narizes amachucados. E desatam a rir.

Salima diz de repente:

— Tu és simpática, sabes, mas os outros… E faz um gesto de desprezo com a mão, que mais parece uma tentativa de nadar, porque Salima ainda está deitada. Gabi levanta-se e sacode o pó das calças.

Salima gatinha para fora da carteira, mas fica sentada no chão.

— Sabes — diz, apontando para a sala vazia — se não lhes fizer frente desde o início, acabam comigo. Aprendi isto quando ainda era pequena e nos mudámos para cá. Algumas pessoas comportam-se de forma muito estúpida só porque sou de pele escura. Acham que tenho de me sujeitar a tudo!

Salima levanta-se e mantém-se direita.

— Mas de mim não conseguem nada. De mim, não!

Por momentos, parece que vai chorar, mas não.

Gabi admira a menina estrangeira por ter a coragem de não se submeter. Ela própria tinha-se sempre escondido na sua casinha de caracol.

Encolhida, amedrontada, magoada nos seus sentimentos.

Salima, no entanto, é um pouco como um ouriço-cacheiro. Mal há sinal de perigo, fica logo eriçada. Ela até é bem-disposta e gosta de rir. “Só temos de afastar os picos um pouco para o lado e de não a provocar,” pensa Gabi. “E também de ser amáveis para com ela. Porque é que a maioria não percebe isso?”

A maior parte dos meninos não se deu sequer ao trabalho de tentar compreender a nova colega. Só pensam em ofendê-la. Ela grita, mas ri logo a seguir. Pode-se pisá-la. Ela responde, mas, quando vai para casa, vai a cantar.
Aguenta muita coisa. É mesmo bom que haja na turma uma aluna como ela. Ao menos, há mais animação.

É sempre Bettina quem desafia a menina negra e quem provoca os outros. Como agora.

Bettina faz pontaria com a borracha às costas de Salima. A borracha faz ricochete e salta de novo para a mesa. A brincadeira repete-se quatro, cinco vezes.

Alguns já se riem.

— Palerma! — grita Salima, que já começava a ficar farta.

— Acalma-te — diz Paul, com uma voz zangada e dura, ele que nem tem nada a ver com o assunto.

— Deixa-a em paz! — mete-se Alexa, que está sentada ao lado de Salima.

Alexa tomou o partido de Salima. Ela pode dar-se ao luxo de dizer abertamente o que pensa.

“Como ela é querida por todos, pode admitir que gosta da nova”, pensa Gabi.

Com Gabi é mais do que “gostar”. Ela sente com Salima. Pelo que teve de passar, ela sabe que a nova menina tem aguentado. Sente pena dela. Lá por Salima, aparentemente, reagir melhor do que Gabi reagiu, não quer dizer que não se sinta também ferida.

“Tenho mesmo de fazer alguma coisa”, pensa Gabi. “Tenho que lhe provar que sou amiga dela. A dois, dói tudo um bocadinho menos. A dois, pode-se partilhar a dor. Mas o que posso fazer sem pôr logo os outros contra mim?”

Gabi decide deitar-se na varanda todas as tardes depois da escola e “torrar” ao sol. Uma hora inteirinha até ficar da cor do chocolate. Assim, Salima deixaria de ser a única com a pele escura. No Verão, a mãe está sempre a dizer a Gabi:

— Pareces uma preta!

Assim, a partir de hoje, Gabi tornar-se-ia uma preta.

— Que estupidez — diz em voz alta, afastando aquela ideia. — Uma pessoa não se torna preta só por se deitar umas horas ao sol. Não se fica com o nariz largo, nem com lábios grossos, nem com carapinha, só por isso. É preciso muito mais. Principalmente, uma mãe ou um pai que sejam negros.

Gabi continua a magicar. Tem os cotovelos fincados na mesa e a cara apoiada nas mãos. Nem repara no que está a passar-se à sua volta. Tem o olhar fixo no padrão verde das costas do casaco de Salima.

De repente, um bico de lápis desliza para a frente, na diagonal. Pertence ao lápis que Bettina segura na mão.

— O que estás outra vez a fazer? — Gabi desvia Bettina com um toque.

— Deixa-me!

Bettina segura no lápis afiado de forma a apontar a mina à nuca de Salima. Estica o braço até quase lhe tocar.

— Será que ela sente? — segreda Bettina.

— Pára com isso!

Mas Bettina há muito que quer saber como é uma carapinha. Se é rija ou mole.

Bettina estica o braço um pouco mais para a frente. Alguns observam a brincadeira. De repente, Salima começa a balançar-se na cadeira. Dá lanço na beira da mesa, inclina-se com força para trás e acerta com a nuca no bico do lápis.

Um grito. Breve e cortante.

Com a mão direita na nuca, Salima dá umas voltas sobre si mesma. Com a esquerda, dá uma bofetada a Bettina.

— Estás maluca!! — grita Bettina — Não te fiz nada!

— Picaste-me!

— Não picou nada! — confirma Brigitte, que nem tinha prestado atenção ao que se passara.

Que pena a professora ainda não estar na sala. Podia ter acalmado a discussão.

— Vais pagar-me pela bofetada! — diz Bettina zangada.

Gabi estende o braço. Quer afagar a menina negra.

Mas Salima levantou-se com um salto e corre para a porta, a mão ainda na cabeça. Sobre a mão escorre um pouco de sangue. Antes de sair, Salima pára repentinamente. Devagar, muito devagarinho, vira-se para a turma, que a olha com curiosidade.

A menina estrangeira chora. Em silêncio. Só o subir e o descer do corpo e o fungar baixinho revelam a intensidade do choro. Os seus grandes olhos parecem ainda maiores sob as lágrimas.

Salima fica por uns momentos parada, sem se mexer.

Depois fecha a porta com estrondo.

Silêncio aflitivo.

Salima chora. Não ri. Não canta. Chora, como qualquer outra criança também teria chorado.

Gabi está como que pregada à carteira. Muda com o susto. As pernas estão pesadas como se tivesse chumbo nos pés. Porque não se levanta? Porque não corre atrás de Salima? Ela própria não percebe. Era precisamente agora que Salima mais precisava dela.

“Vocês são maus!”, quer gritar. Mas não lhe sai nada.

— Vocês são maus! — grita Michael em vez dela. Está sentado na primeira fila. — Ela não vos fez nada. Se fosse comigo, tinhas logo apanhado duas bofetadas, Bettina.

“Agora que Salima não está cá e não pode ouvir, é que ele diz isto”, pensa Gabi.

E ela própria, que tanto queria ter corrido atrás dela, que queria tê-la agarrado, protegido… não conseguiu!!

De repente, todos começam a falar ao mesmo tempo.

— Ela não tem culpa de ser preta — diz Alexa novamente, que foi a primeira a defender a menina estrangeira. — Imaginem-se o único branco numa turma de pretos. Gostavam que vos acontecesse o mesmo?

— Salima pode não ter culpa de ser preta — diz Inga — mas no meu pão com fiambre é que nunca a deixaria trincar.

— Ugh! — diz Helga, arrepiando-se.

— Ugh! — diz Paul, arrepiando-se também.

— A ti é que ninguém te deixava trincá-lo, com tantas borbulhas — grita Martin.

— Saliva é saliva — diz Paul.

— Exactamente! Com a Salima não é a mesma coisa? — Alexa bate com o punho na mesa.

Gabi assusta-se. As vozes ressoam-lhe na cabeça. A pancada com o punho arrancou-a da confusão das palavras.

Há pouco, quando Salima estava a chorar à porta, Gabi tinha tido uma oportunidade. Podia ter mostrado que achava horrível a forma como os outros se comportavam. Especialmente Bettina. Em vez disso, tentou apenas acariciar a nova menina. Medrosamente, do seu lugar, de onde não precisava de se levantar nem de sentir a turma atrás das costas.

Mas novamente a mesma sensação… Não.

O medo de tornar a ser ridicularizada é maior do que a ligação a Salima.

Mesmo assim, Gabi diz, muito baixinho:

— A Salima é querida. Porque é que és tão antipática com ela?

Bettina ouviu.

— Muito querida — diz, venenosa. — Mas cheira mal!

— Que estupidez! — grita Michael, que só ouviu a última palavra. — Já alguma vez estiveste sentada ao lado do Markus? Ele cheira tão mal que até as minhas meias fogem dele!

Markus, hoje, não veio às aulas, por isso a ofensa não o magoa. Se cá estivesse, ninguém lho teria dito.

Mas à menina estrangeira diz-se-lhe tudo na cara.

Bettina cala-se. A cara ainda está um bocadinho vermelha da bofetada. De repente começa outra vez a barafustar:

— Anda vestida como um papagaio. Só lhe faltam as penas no rabo.

Risos abafados.

— Cala a boca de uma vez por todas! — diz Gabi, agora em voz alta.

A frase desapareceu na risota geral. Cada um grita à turma a sua opinião.

— Acabou! Acabou! Já chega! — Gabi grita agora mais alto do que os outros. Grita e tapa os ouvidos ao mesmo tempo. Ninguém repara que a porta da sala se abre.

Quando Salima se dirige em silêncio para o seu lugar, todos se calam de repente. Não olha para ninguém, tem os olhos pregados no chão e um grande penso na nuca.

Gabi levanta-se ainda antes de Salima se poder sentar. É automático, o chumbo dos pés desapareceu. Gabi nem precisa de pensar. Vai direita a Salima e, em frente da turma toda, põe-lhe carinhosamente o braço à volta dos ombros. Não custa nada.

— Lamentamos todos — diz Gabi em voz alta, de forma a que todos ouçam, especialmente Bettina.

Salima não diz nada.

Agora levantam-se também Alexa e Michael. Inga e Martina. Até Paul se chega à frente. O pequeno grupo cresce à volta de Bettina.

— Não fiz de propósito! — diz ela baixinho.

— Dói muito? — pergunta Gabi.

Salima levanta finalmente os olhos e olha para Gabi. Põe o braço à sua volta.

— Agora já não — diz.

[1] Canção infantil austríaca (N.T.)

Evelyne Stein-Fischer
13 Geschichten vom Liebhaben
Munique, DTV Junior, 1990
tradução e adaptação

Read Full Post »

O Macarronete

A Sr.ª Joana estava de vigia durante o intervalo grande.

Da zona dos quartos de banho, soava em coro:

“Tónio Macarronete tem lêndeas e uma pulga no barrete.”

Correu para o magote de crianças que se acotovelavam num círculo fechado à volta de Tónio Zuccarelli.

Tónio tinha as mãos enfiadas nos bolsos das calças, a cabeça encolhida e os olhos pregados no chão. Era um palmo mais alto do que as restantes crianças da terceira classe.

— “Tónio Macarronete…” — recomeçava Carlos Blum a cantar.

— Acabou! — gritou a Sr.ª Joana, separando as crianças. — É muito feio andarem sempre a aborrecer o Tónio — ralha à sua classe.

— Ele é engraçado quando fica furioso — diz Carlos Blum.

— Fica parecido com um cão que farejou um gato — grita Sílvia.

— Calados! Ninguém se parece com um cão.

— Quando Tónio se enfurece, fica parecido com o nosso cão. —replica Sílvia.

— É isso mesmo! — confirma Carlos, embora nunca tenha visto o cão de Sílvia.

Carlos está zangado com Tónio. Antes do Italianito ter vindo para a turma, Carlos era o mais forte. Mas Tónio suplantou-o. E o Sr. Blum também dizia: ” Os Esparguetes [1] aqui só nos tiram os postos de trabalho.”

Por que é que a Sr.ª Joana tinha de ter sentado o Italianito precisamente na mesa de Carlos? O pai também tinha dito: “Nem deviam deixar os estrangeiros frequentar as escolas alemãs.”

Depois do intervalo, a Sr.ª Joana faz uma proposta:

— Como estamos no Advento, vamos fazer um jogo bonito — diz.

— Escrevi o vosso nome em papelinhos. Cada um vai tirar um nome mas ninguém deve dizer o que lhe saiu.

— Não se pode dizer a ninguém? — pergunta Sílvia.

— A ninguém. Depois cada um de vocês vai fazer as vezes de gnomo para aquele menino cujo nome lhe saiu.

— Gnomo? Que disparate! O que é isso? — gritam as crianças numa grande confusão.

— Eu não inventei o nome nem o jogo — diz a Sr.ª Joana. — Mas posso explicar-vos o que é. Cada gnomo deve pensar, para cada dia, como fazer uma surpresa ao outro. Tudo tem de ser feito em segredo. Ninguém deve dizer a quem é que vai fazer essa surpresa durante o Advento.

— Disparate — diz Carlos. — Gnomices, mas que disparate!

— Não é disparate nenhum — retorquiu a Sr.ª Joana. — A alegria é muito mais bonita quando é proporcionada a outro.

— E se eu tirar o nome deste aqui? Vou ter então de lhe dar alguma coisa todos os dias? — Carlos aponta para Tónio.

    “Isso é que seria óptimo para o Carlos!”, pensa a Sr.ª Joana.

Mas Carlos não tirou o nome de Tónio. No seu papel estava escrito Miguel.

No primeiro dia, Carlos encontrou no bolso do anoraque uma bolachinha de canela. Quem é que sabia que bolachas de canela eram as suas preferidas? Teria sido o seu amigo João que lhas oferecera?

No segundo dia encontrou no estojo um cromo de colecção do famoso futebolista brasileiro Pelé. Era mesmo aquele que lhe faltava. O gnomo parecia conhecer Carlos muito bem. Mas quem seria?

Nos dias seguintes, recebeu imensas coisinhas que já há muito tempo queria ter: um pequeno aguça em forma de globo, uma pastilha elástica enorme, um berlinde minúsculo, um anzol e, de uma vez, até uma coisa com a qual toda a turma se admirou. Carlos metera muito naturalmente a mão à pasta e retirou-a logo, assustado. Alguma coisa se mexia lá dentro. Com cuidado, tira então um pequenino novelo castanho que era afinal um ratinho hamster.

Talvez Carlos descobrisse agora quem lho teria oferecido. Quem é que tinha em casa um goldhamster? Mas por mais que investigasse, não foi muito longe. Embora João tivesse um goldhamster, onde já se viu um hamster macho ter filhotes?

No último dia de aulas antes das férias de Natal, a maior parte dos alunos já adivinhara quem tinha sido o seu gnomo.

Fora uma bonita época de adivinhas e surpresas. Só Carlos não fazia a menor ideia de quem lhe tinha dado os presentes. Até que encontrou no caderno, depois do intervalo grande, uma magnífica série de selos italianos. Selos? Italianos? Carlos olhou Tónio com um olhar duvidoso.

Este olhou-o com medo.

— Tu, Macarr…? — Carlos engoliu em seco. — Foste tu, Tónio?

Tónio acenou com a cabeça.

— Rapaz! — disse Carlos, dando-se conta de como tinha sido mau.

— Obrigado!

— Foi bonito — respondeu Tónio.

Na noite de Natal, o carteiro trouxe um postal de boas festas gigante para o aluno Tónio Zuccarelli, onde estava escrito:

Querido Tónio,
desejo de todo o coração
que tenhas um Feliz Natal.

Carlos

Tónio pregou o postal por cima da cama com um alfinete.

Willi Fährmann

Jutta Modler (org.)

Frieden fängt zu Hause an

Munique, DTV, 1989

Tradução e adaptação

[1] nome pejorativo dado aos italianos.

 

Read Full Post »

Um caminho difícil

Catarina hesitou antes de atravessar a rua. O caminho mais curto para casa da avó passava pelo meio do jardim. Mas de certeza que no parque infantil estavam todos os rapazes turcos da zona. E eles ficam sempre a olhar… Andam por ali e, quando alguém passa, põem-se a olhar para as pessoas e gritam entre eles em turco. De certeza que estão a rir-se dela, Catarina.

— Nem deixam os nossos filhos ir para os baloiços. Acham que o parque é todo deles — queixa-se a Dª Maria.

E a Dª Antónia:

– Ai, o que eles gritaram nas minhas costas… nem quero repetir!

E a Gabriela disse, e a Paula disse, e o Jacob disse… Não! Pelo meio do parque é que não vai!

Mas na rua principal está a loja com os faisões e os coelhos pendurados à porta. De uma vez, uma gota de sangue caiu no passeio, no preciso momento em que Catarina passava. E o passeio ali é tão estreito…

E na Rua das Árvores está aquele cão grande que ladra como um maluco. Da última vez, tinha voltado a pôr-se aos saltos e não faltara muito para passar a cerca. Era um pastor alemão. Na mercearia, já tinham dito que os pastores alemães, às vezes, não são muito certos da cabeça. E este tinha um brilho perigoso nos olhos.

Catarina suspirou. Contou os botões do casaco. Turcos, faisões, cão. Turcos, faisões, cão. Turcos. Bom, tinha de ir pelo parque.

Esperou que passassem cinco carros vermelhos. Podia ser que aparecesse alguém que também atravessasse o parque e Catarina seguiria atrás.

Claro que não veio ninguém.

Para casa, Catarina também não podia voltar. A mãe dir-lhe-ia: — Os Turcos são meninos como tu e os teus amigos; de coelhos e faisões não precisas de ter medo, e cães que ladram não mordem.

E voltaria a contar a história do cão grande que quase parecia que queria comê-la. Um dia, um carro deitara abaixo a cerca do jardim e o cão continuou a correr exactamente como se a grade ainda lá estivesse e não veio para a rua. Só saltava para o ar.

Catarina já sabia tudo isto, o que, mesmo assim, não ajudava nada.

Respirou fundo, atravessou a estrada e transpôs o portão do parque.

O chão estava cheio de castanhas vermelho-acastanhadas brilhantes. Catarina pegou numa e fechou-a com força na mão. Pôs o pé na fenda entre duas patelas de cimento. Se conseguisse andar em cima dela, não lhe aconteceria nada.

De repente, uma bola vermelha passou-lhe por entre os pés. Catarina tropeçou. Alguém se riu, muito alto, e outra, logo a seguir. Começou a correr, pisou um ramo caído, escorregou e caiu ao chão.

Nesse momento, sentiu uma mão no ombro.

Fechou os olhos com quanta força tinha, mas, passado algum tempo, teve mesmo de abrir os olhos.

A menina que estava de pé ao seu lado trazia um bebé à cintura. Ambos tinham cabelo preto.

— Magoaste-te? — A menina ajudava Catarina a pôr-se de pé. Só nesse momento é que Catarina viu o joelho inchado e o sangue a correr pela perna. O joelho começou a arder e a doer.

— Temos de limpar isso — disse a menina. — Senta-te.

Catarina deixou-se conduzir até um banco. Sentou-se, obediente, e esperou.

No parque infantil, estavam quatro rapazinhos a olhar. A menina voltou com um pano molhado. Sentou o bebé no colo de Catarina e começou imediatamente a limpar o joelho. O bebé esperneava e Catarina tinha de o segurar com muita força.

A menina tirava areinhas da ferida. Era muito cuidadosa, mas, mesmo assim, Catarina encolhia-se toda e quase gritou. Em seguida, a menina tirou um frasco do bolso da saia.

— Vai arder um bocadinho — disse, enquanto esguichava um líquido cor-de-laranja no joelho. — Já está! Agora só falta o penso.

— Porque é que tens isso tudo contigo? — perguntou Catarina.

— Tenho de tomar conta dos meus irmãos e está sempre a acontecer-lhes alguma coisa — respondeu, sentando-se ao lado de Catarina.

O bebé começou a queixar-se. A menina levantou-o e cheirou-lhe as calças.

— Claro, já está sujo outra vez. Tenho de ir para casa porque já não tenho mais fraldas.

Levantou-se, pôs novamente o bebé à cintura, uma perna a baloiçar para a esquerda, outra para a direita. O bebé ria. Catarina mancava ao lado dela. O joelho ardia-lhe de cada vez que tentava dobrá-lo.

Os rapazes estavam debruçados sobre a torneira da água, punham os dedos no cano e esguichavam à sua volta.

A menina gritou-lhes alguma coisa e de seguida murmurou entredentes:

— Rapazes…

Catarina sorriu. A menina interrogou-a com o olhar.

— Tu disseste isso no mesmo tom com que a minha tia costuma dizer: — Homens!

A menina disse que sim com a cabeça.

— Os irmãos são horríveis, não achas?

— Eu não tenho nenhum — disse Catarina. — Mas gostava de ter um mais velho e um mais novo.

A menina abanou a cabeça. À saída do parque, disse:

— Olha, estou quase sempre aqui no parque. Vens cá amanhã outra vez?

— Talvez.

A menina e o bebé seguiram para a esquerda, Catarina para a direita. De repente lembrou-se de que nem sequer tinha agradecido.

— Obrigada! — gritou, embora soubesse que não podia ser ouvida por causa do barulho da rua. — Amanhã eu volto!

Renate Welsh

Jutta Modler (org.)

Brücken Bauen

Wien, Herder, 1987

Tradução e adaptação

Read Full Post »

A princesa desencantada

Quando alguma vez, em sonho ou viagem, voltar àquela terra, não poderei esquecer a história que certa tarde lá ouvi. Contou-ma um ancião, de olhar profundo e barba ruiva, à hora em que me deu para subir ao ponto mais alto da cidade e ver de lá as grandes torres espelhadas na água do rio que ali corre – rio de lágrimas que uma princesa, um dia, então chorou.

Em tempos, este reino fora terra de encanto.

Deixou de o ser a partir do momento em que o rei mandou prender a filha, na mais fortificada masmorra da cidade, por ela achar infame a servidão em que viviam os súbditos do reino.

— Esta é a história de Tristália — resmoneou o velho — e como todas as histórias não é uma história perfeita: o fim parece o princípio e quem uma vez a ouvir logo pedirá que ninguém a volte a repetir.

Fitando a mão trémula que apontava na direcção do rio, vi o desconhecido entrever o lugar onde se erguia a fortaleza em que a filha do rei vivera encerrada. Então ele contou:

Desencantada, como a princesa, com a maldade que, às ordens do rei, cumpria lei, Tristália deixou de ser terra de amor.

Dia e noite, a princesa não parava de chorar. Recomendavam-na às cortes, os nobres, convidava-a o clero a arrepender-se, mesmo temendo que sobre o povo desabassem novas iras do rei.

O mais arrasador dos desencantos, porém, devia-se ao modo com que o rei Severo, seu pai, tratava a rainha Edwiges, sua mãe.

Escandalizavam-se os chanceleres, o episcopado, a nação. De banquete em banquete, o rei Severo é que não.

Por desígnio divino iluminada, resolveu a princesa pôr fim à humilhação.

Qual segredo de estado, determinou sem demora escapar-se da prisão, correr mundo, revoltar-se como só o faz quem tem razão.

Como mais vale fuga que espera, assim foi. Em semanas conquistou as boas-graças do guarda-mor Epaminondas, logo obteve a sela dum fogoso cavalo alazão.

Do tesoureiro Sigesmundo, em poucos dias, elevada quantia em peças de oiro.

Do camareiro Malaquias, em horas, uma poderosa espada de dois gumes.

Planeada a evasão, antes fugir que ficar mal.

Não ia ainda longe o cavaleiro embruxado, de armadura e espada em riste, e já um mensageiro, ao serviço do rei, passava aviso por terras de província e lugarejo.

Entraram as tropas em estado de alerta. Povoaram-se de espias os postos de fronteira.

Um capacete de sombra abateu-se sobre o rosto dos soldados entrincheirados nas esquinas.

À saída da cidade, um mendigo, que acorrera ao som de tão ligeiro trote, interrompeu:

— Onde vos leva esta pressa de viver, senhor do cavalo alazão?

Deixou-lhe o cavaleiro idade a menos que outra coisa não tinha ali na ocasião!

Fugia de si mesmo, não do mundo, o cavaleiro, atrás de si deixando um rasto de miséria e escravidão.

De uma casa em ruínas saiu, de filho ao colo, uma mulher a quem a guerra encontrara vazio o coração:

— Quem feliz fará, um dia, Senhor meu, todo o oiro que levais?

Deixou-lhe o cavaleiro o sol e a lua, que mágoas há na vida que não esquecem mais.

Entretanto, podia alguém adivinhar quem, assim disfarçado, segredava às ervas do caminho quantas vezes subidas honras, por muito que se diga, desonras são?

À porta de um albergue, uma criança, fascinada pelo anel de luz que, na corrida, cavalo e cavaleiro lanço a lanço envolvia, fê-los estacar:

— Se na tua espada, Rosa Peregrina, a vontade do povo assim confia, por que não voltas de pronto ao Palácio onde o terror da noite, em boa hora se fez dia?

Deu meia volta o cavaleiro que de si tanto fugia. Aclamado nas ruas de Tristália, juntou‑se o foragido aos Pares do Reino que já nas cortes buscavam herdeiro entre os bastardos que, do rei Severo, então havia.

Largado o manto, aos pés, ninguém ousou dizer que aquele misterioso cavaleiro a coroa não merecia.

— Não há outro encanto — comentou o velho, emocionado — senão o que põe fim à reinação que os reis tiranos, quase sempre, espalham por servidão gratuita ou por mania.

 

 

Vergílio Alberto Vieira

O Livro dos Enganos

Lisboa, Editorial Caminho, 2002

Adaptação

Read Full Post »

Older Posts »