Feeds:
Artigos
Comentários

Nem só de pão

— Mas onde é que ele está? — pergunta o pai. — A escola já acabou há muito tempo!

A mãe vai, uma vez mais, ver o horário e meneia a cabeça. Percebe-se uma pontinha de medo na sua voz quando diz:

— Geralmente, já cá costuma estar…

— Não — o pai meneia a cabeça. — Não é bem assim. Lembras-te de que ele ainda no outro dia voltou a…

— Tirou a joaninha do passeio e foi pô-la na relva…

— Exactamente — diz o pai. — E não foi há tanto tempo assim que ele…

— Eu sei — diz a mãe. — Que ele queria tirar a minhoca do bico do melro…

— Então e não tirou a borboleta da poça de água?

— Salvou o abelhão de morrer na teia de aranha, queres tu dizer…

— Não interessa — diz o pai. — De qualquer forma, ele ainda não chegou.

“Está a demorar tanto…” pensa a mãe. “Tanto…”

Já tinha ido à janela espreitar primeiro para a rua, na direcção de onde ele costumava vir, depois para o outro lado e ainda para o parque em frente. Mas agora não podia deixar o que estava a fazer na cozinha

— Pronto, vou eu, então — consola-a o pai. — Eu encontro-o já!

“Se não tiver acontecido nada…” pensa a mãe.

Nesse momento, tocam com força à campainha. Os pais acorrem à porta. Matias precipita-se para dentro. O pai e a mãe olham para o filho, depois entreolham-se. O que irá ele dizer? Solta-se uma torrente de palavras:

— Sabem? Sabem? — exclama, ainda ofegante.

— Não —diz o pai afavelmente. — Não sabemos. Infelizmente, nós os dois não sabemos de nada.

— Ali em baixo está uma pomba que só tem uma pata!

Matias lança a novidade com os olhos arregalados de espanto e visivelmente excitado.

— Só tem uma pata, aquela pomba — continua. — A pata direita, e de cada vez que quer chegar à comida, bem… uma mulher estava a dar-lhe comida e vinham sempre as outras todas e eram muito mais rápidas. Eu dizia — xô, xô, — mas só assustava a que tinha uma pata e ela fugia… Voar, voava bem, mas no chão… e as outras… as outras…

As palavras perderam-se. Fica apenas um filho consternado que olha, desesperado, ora para a mãe, ora para o pai, durante muito tempo.

— E foi por isso que vieste tão tarde da escola? — pergunta o pai afavelmente — Outra vez?
Matias diz que sim com a cabeça.

— As pombas com duas patas roubam o pão à que só tem uma. Ela não é suficientemente rápida… é lenta, muito… demasiado lenta…

Os olhos assustados abrem-se ainda mais.

— Vai morrer à fome? — pergunta.

— Não, não vai — diz o pai com voz determinada. — A mãe já vai buscar alguma coisa à cozinha — e deita-lhe um olhar. A mãe defende-se:

— Agora vamos comer, se não, as panquecas…

Mas o pai nem sequer ouviu.

— …já traz pão da cozinha — diz.

— Mas aquecidas não são tão boas!

— …pão da cozinha, e depois vamos lá ver o que podemos fazer com a pomba, não é?

O pai parece muito divertido ao falar. A mãe traz pão da cozinha. Matias meneia a cabeça algumas vezes. Ainda está perturbado com o que acabara de ver.

— …e depois vêm sempre as pombas com duas patas — continua — e a que só tem uma encolhe-se. Salta para o lado, cheia de medo e…

— Onde é que ela está? — quer saber o pai.

Matias conduz os pais até ao banco verde perto dos arbustos. As pombas já estão à espera, sacodem as asas e esvoaçam, debicam o pão que as pessoas lhes deitam, gostam de ir comê-lo à mão.

— Agora vamos ver se juntos conseguimos — diz o pai com energia.

Ah! A pomba que só tem uma pata também aparece. Aproxima-se aos saltinhos, com dificuldade. Matias aponta para ela, saltita de um pé para o outro, aos gritos:

— Ali! Está ali! Estás a vê-la? Aquela ali! Aquela!

Não é mesmo nada fácil ajudá-la. Sozinho, Matias nunca teria conseguido dar-lhe de comer. — Xô, xô! — faz ele. Muitas vão embora, enquanto a pomba doente fica junto do pai. As outras também recebem alguma coisa, mas ela recebe um verdadeiro banquete.

Matias está feliz. Ao sentar-se à mesa para almoçar, diz-lhe o pai:

— Se tivesses vindo logo… quero dizer, se nos tivesses chamado logo depois da escola, não é… não teria sido bem melhor?

Matias pensa e responde:

— É provável. És capaz de ter razão, mas agora, ela também já tem a barriga cheia.

Lutz Besch
Jutta Modler (org.)
Brücken Bauen
Wien, Herder, 1987

A batalha de Natal

— Só mais seis dias — constata Neli, tentando em seguida assobiar Noite Feliz.

— Ainda seis dias — repete a mãe pensativamente.

A voz não soa alegre. Após uma curta pausa, prossegue, suspirando. – Se tudo tivesse já passado!

Com o assobio suspenso no ar, Neli olha para a mãe com ar estupefacto.

— Então não estás contente?

— Sim, mas já estou pelos cabelos com esta agitação toda!

Como Neli não tem aulas à tarde, vai patinar com uma amiga e, mais lá para a noite, dirige-se ao supermercado onde a mãe trabalha. Há tanto movimento que mais parece estar-se numa colmeia. A mãe encontra-se sentada numa cadeira giratória diante de uma das seis caixas registadoras. Os produtos chegam-lhe num tapete rolante e, enquanto a mão direita está pousada no teclado e marca os números, a mão esquerda roda os produtos de forma a poder ler os números, e, em seguida, coloca-os, produto a produto, no carrinho de compras. Quando acaba de marcar tudo, a mão direita carrega na tecla do total e rasga o talão, enquanto a esquerda afasta o carro cheio e puxa o próximo, vazio, para junto dela.

— Que bem que fazes isso — dissera-lhe Neli uma vez. — Eu faria tudo devagar, assim: tipp… tipp … … e, ainda por cima, metade saía mal.

— Ora — dissera a mãe a rir. — É uma questão de treino. Quando comecei, também não era assim tão despachada. Não encontrava a etiqueta com o preço, e muitas vezes carregava nas teclas erradas e as pessoas resmungavam porque tinham de esperar. Mas agora já quase consigo fazer isto automaticamente.

— Como um robô! — Neli riu-se.

Um robô como mãe? Nunca teria dor de cabeça, nem à noite estaria tão cansada. Mas um robô não tem coração. Por isso, Neli prefere a mãe tal como é, mesmo quando certas noites quase nem consegue falar de tão cansada que está!

Só mais quatro dias.

Só mais três.

As filas nas caixas eram cada vez mais longas. As pessoas abastecem-se de comida como se o Natal durasse meio ano. Com um ruído sibilante, as portas automáticas abriam-se e fechavam-se, abriam-se e fechavam-se. A mãe sentia nas costas a corrente de ar e os cartões pendurados no tecto balançavam de um lado para o outro.

Um sino de Natal, por cima da cabeça da mãe tinha escrito a vermelho: PROMOÇÃO: Bombons, 250 gr, a preço especial.

Próximo, balançava um anjo de papel com uma faixa nas mãos, como nas igrejas, mas onde não estava escrito Paz na terra aos homens de boa vontade, mas sim Fiambre para o Natal a 15,80/Kg.

Os altifalantes pingavam música de Natal:
Noite feliz…
Cabeça de anho
Noite feliz…
Café suave
Papel higiénico de três folhas
O Senhor …
Lenços com monograma
Mostarda
Nasceu em Belém…

A mãe gemia e, com um movimento rápido, limpava o suor do lábio com as costas da mão. Os clientes, impacientes, esperavam, apoiando-se ora numa, ora na outra perna. De olhar ausente, nem olhavam para a senhora da caixa, pensando no regresso com os sacos pesados, o eléctrico cheio.

Uff!

Só mais três dias, e acaba tudo.

— Vou fazer um jantar como o do ano passado — disse à noite a mãe, virando-se para a Neli — Peru assado com a laranja e batatas assadas e, como sobremesa, rabanadas e bolo-rei.

No dia 24 de Dezembro, a loja só estava aberta até às quatro horas da tarde. Em seguida, os empregados podiam comprar, com um desconto de 15%, os produtos que sobravam. A mãe de Neli achava que valia a pena, por isso tinha guardado as compras maiores para essa altura: uma pasta escolar para Neli, uma boneca, lápis de cor, um anoraque para o pai, a comida para a ceia de Natal.

Na sala do pessoal, havia um lanche para todos os empregados.

— A batalha de Natal foi mais uma vez vencida — repetia o chefe do pessoal. Dizia, depois, mais umas palavras elogiosas e eram servidos pãezinhos com fiambre e um copo de vinho.

Após o lanche, a mãe de Neli deixou ficar os gordos sacos de compras esquecidos na sala do pessoal. Só reparou quando já estava na paragem do autocarro. “As minhas prendas! Todas aquelas coisas boas para a ceia!” – pensou assustada.

Mas a loja já estava fechada e, antes do dia 27, não se voltava a lá entrar. Foi de mãos vazias que chegou a casa.

Nessa noite, apesar de tudo, festejaram o Natal. O pai acendeu as velas da árvore de Natal e Neli recitou um poema. Só se lembrou das duas primeiras estrofes e depois encravou, mas a mãe achou-o muito bonito e o pai nem reparou que ainda continuava. O jantar foi mais curto do que o planeado. Por sorte, a mãe já tinha comprado o assado e havia batatas em casa, mas não houve entrada nem sobremesa. Trincaram simplesmente nozes e comeram maçãs.

— Assim, não fico com o estômago tão pesado como no ano passado — disse o pai. — Comidas pesadas não me assentam bem.

Também não havia muito que desembrulhar.

Por isso, sobrou tempo. Muito tempo.

Neli foi buscar o jogo Memory que recebera no Natal anterior. Durante o ano inteiro, esperara, em vão, todos os domingos, que alguém tivesse tempo para jogar com ela.

Agora, os pais tinham tempo.

O pai nunca tinha jogado Memory. Ao fim de algum tempo, Neli já tinha encontrado sete pares de cartas, a mãe três, e o pai, que geralmente quer ganhar sempre, procurava constantemente no sítio errado.

Tentava ajudar-se com truques, pondo, sem ninguém dar conta, migalhinhas de pão em cima das cartas que tinha decorado, ou pousava as mãos na mesa, de tal forma que o polegar indicava a direcção em que estava uma determinada carta. Neli descobriu-lhe a jogada. Jogaram mais duas ou três vezes e o pai não se zangava por perder sempre. Depois, ainda jogaram o jogo do assalto.

À meia-noite, o pai apagou a luz e ficaram a olhar pela janela. A neve reflectia uma luz clara e ouviam-se os sinos a tocar.

— A esta hora, há quase dois mil anos, nasceu Jesus — disse a mãe, e Neli reparou como ela afinal sempre estava contente por ser Natal.

Ao ir para a cama, Neli disse:

— Este foi um Natal muito bonito.

— A sério? — perguntou a mãe admirada. — Mas não houve ceia nem prendas quase nenhumas.

— Mas houve muito tempo — respondeu Neli.

Jutta Modler (org.)
Brücken Bauen
Wien, Herder, 1987
Tradução e adaptação

O Dia-da-Presença

Jorge acabou os trabalhos de casa e preparou a pasta para o dia seguinte. Tinha agora tempo para brincar. Gostava de brincar aos astronautas, mas sozinho não tinha graça.

Jorge vai ver o que a irmã está a fazer: sentada no tapete, ela tenta meter num fio anéis de plástico às cores. É quatro anos mais nova e não percebe nada daquele jogo. Nem consegue somar um mais um.

“Que irmã tão palerma”, pensa Jorge. “Porque é que a minha irmã não podia ser um irmão mais velho? Ao menos agora tinha um co-piloto.” Furioso, Jorge bate com o pé no chão.

— Vês? Deixei cair os anéis todos por tua causa! — grita a irmã de Jorge e começa a chorar.

— Bem podes pendurar o teu colar nas orelhas! — grita Jorge ao sair do quarto.

— Mamã! — pergunta Jorge na cozinha. — Queres ser o meu co-piloto? Vou voar agora para Júpiter.

— Para que é que tens a tua irmã?

Isto também Jorge se pergunta às vezes… Será que o pai tem tempo? Está sentado na sala a arrumar os jornais.

— Papá! — chama Jorge. — Vens voar comigo para Júpiter com a minha nave espacial “Estrela Branca”? Preciso rapidamente de um co-piloto.

— Agora não, Jorge. Bem vês que estou a arrumar os meus jornais.

Jorge fica a pensar no que pode fazer. Ir a casa do seu amigo António, ao lado? Às vezes brinca com ele. Mas brincar com os pais é sempre melhor. É quase como fazer anos.

Amuado, Jorge volta para o quarto dos brinquedos. Senta-se no tapete ao lado da irmã para ter alguém que o escute.

— Sabes o que é que eu gostava de ter? Mais um dia na semana — diz ele. — Um dia da semana em que os pais fossem só para nós. Um oitavo dia na semana. E sabes como se chamaria? Uhm… deixa cá ver…

Jorge pensa. Diz o nome dos dias da semana em voz alta. Começa na terça-feira porque hoje é terça:

— Terça-feira, quarta-feira, quinta-feira, sexta-feira, sábado, domingo… já sei! — exclama. — Vai chamar-se “presença”. E vem logo a seguir ao domingo. Basta meter o dia-da-presença no meio dos outros dias.

Jorge põe-se em sentido em frente da irmã e diz em tom cerimonioso:

— Eu, piloto da nave espacial “Estrela Branca”, decreto que haverá o Dia-da-Presença, o dia da semana em que todos os pais brincarão com os filhos àquilo que os filhos quiserem. A partir de hoje, a semana passa então a ser: domingo, dia-da-presença, segunda-feira! E depois continua como normalmente.

A irmã de Jorge ri-se.

Jorge escreve este desejo para o Natal. E escreve também porque é que quer o dia-da-presença: nesse dia, os pais hão-de brincar com ele. O dia inteiro!

Mas os pais riem e dizem:

— Só tu! És um sonhador! — O pai faz-lhe uma festa na cabeça. Depois agarra-o ternamente pelos cabelos e abana-o, como se pudesse sacudir-lhe os sonhos da cabeça.

Pelo Natal, Jorge recebeu um gravador. Não um dia-da- presença. O que o gravador tem de melhor é que a irmã não tem autorização para mexer nele…

Evelyne Stein-Fischer

Jutta Modler (org.)
Frieden fängt zu Hause an
München, DTV, 1989
tradução e adaptação

Chiu, o rei está ocupado!

Num grande e poderoso reino, vivia um rei muito ocupado. Passava a vida entre os seus papéis e ninguém lho censurava. — São os assuntos do reino – murmurava ele.

Este rei muito ocupado era pai de um menino que tinha o direito de subir para os joelhos do pai cinco minutos de manhã e cinco minutos à noite. Depois do que, o rei muito ocupado logo parava de fazer “cavalinho, cavalinho” e murmurava com ar sério: — Os assuntos do reino, meu filho.

Um dia, o principezinho desenhou um lindo avião a jacto. E quis que o pai também visse o desenho.

— Chiu! — disse a rainha. — O rei muito ocupado encontra-se no seu escritório da sala oeste. Está a tratar dos assuntos do reino.

Num outro dia, o principezinho aprendeu com o velho jardineiro do castelo a podar as roseiras. Foi um trabalho árduo, com arranhaduras e tudo, e ele quis mostrá-lo ao pai.

— Mostra-mo a mim — disse a rainha, que estava sempre muito satisfeita e sorridente. — Adoro rosas, mesmo com espinhos.

— Não, quero mostrá-lo ao rei – disse o principezinho, que achava que a mãe ia forçosamente gostar do seu trabalho, e que assim não tinha piada.

— O rei muito ocupado está no escritório, na ala oeste. Assuntos do reino — respondeu-lhe tristemente a rainha.

Foi assim que o principezinho cresceu, dispondo, em cada dia, de dez minutos paternos. Muitas vezes, punha-se a reflectir e perguntava-se o que se passaria de tão importante na sala oeste do reino. Imaginava o rei com uma montanha de cadernos diante dele, a fazer somas de oito algarismos, multiplicações enormes. Imaginava também o telefone a tocar e o pai a responder:

— Alô Moscovo? Daqui Pequim (ou o contrário). Três milhões? Sim, compro.

E o menino ficava muito impressionado quando pensava que o pai não ousava ultrapassar com ele os dez minutos diários.

O principezinho tinha muito bons resultados na escola, mas, por vezes, era bastante insolente. E o professor não estava satisfeito. Advertiu o rei, que enviou então uma carta ao filho:

Querido príncipe,

Se não começar de imediato a obedecer ao seu professor, a sua insolência será gravemente punida. Não pode ocupar-se dos assuntos do reino quem não obedece às leis.

Com amizade e os melhores cumprimentos,

o rei seu pai.

O principezinho julgou que era uma linda carta e pô-la diante da sua secretária. Lia-a muitas vezes, porque significava que o rei muito ocupado tinha dedicado ao menino cinco minutos do seu tempo a escrevê-la. Mas, estranhamente, as palavras não lhe penetravam no coração. E continuou insolente na escola.

Num outro dia, o principezinho decidiu ir à ala oeste do castelo. Apareceu com a sua mega-pistola laser ultra-ruidosa, pôs-se atrás da porta e fez “blip, blip, blip”, “zigu, zigu, zigu”, “schlak, schlak”! Do outro lado da porta, foi a confusão generalizada.

— O que se passa? Um ataque aéreo? Depressa, terroristas! Alerta vermelho!

E, quando deitaram a porta abaixo, encontraram um rapazinho com uma pistola.

— Aí está o terrorista! — gritou o rei muito ocupado.

— Agarrem-no! Neutralizem-no!

— Não, não, sou o seu filho de seis anos — disse o príncipe. — Venho vê-lo por um motivo da mais alta importância. Quero jogar uma partida de flipper consigo.

O rei muito ocupado possuía, apesar de tudo, alguma lucidez, e deu-se conta de que tinha passado toda a vida na ala oeste do palácio, a ponto de, durante seis anos, só ver o filho dez minutos por dia, e ainda por cima na obscuridade da manhã e ao cair da noite. E eis que tinha confundido o principezinho com um terrorista!

Levantou-se e disse aos seus ministros:

— Suspendemos a reunião. Um assunto da maior urgência chama-me junto do meu filho. Queiram desculpar-me.

E foi então jogar um flipper dos diabos no café em frente.

Foi assim que, graças ao falso ataque terrorista, passou a haver regularmente partidas de flipper, passeios e discussões entre pai e filho. E juro-vos que os assuntos do reino não foram descurados por isso.

Chegou então o dia em que, quando o filho completou vinte anos, o velho rei alquebrado e cheio de cabelos brancos, passou da ala oeste para a ala este, preparada para o seu repouso.

Foi a vez do principezinho, muito jovial, ocupar a ala oeste e se tornar o Rei muito Ocupado Júnior.

O velho rei, no seu quarto, olhava com nostalgia os papéis e os dossiers do reino e folheava-os muitas vezes, com saudades do tempo em que era jovem e poderoso.

Muitas vezes ia deambular para a ala oeste, onde o jovem rei muito ocupado tratava dos assuntos do reino. Mas diziam-lhe:

— Chiu! O Rei Júnior está a trabalhar!

Então, colava a orelha à porta, ouvia o ruído do papel, um bip bip, e uma voz longínqua falar ao telefone. E dizer “Alô Moscovo? Daqui Paris”, ou talvez o contrário.

Então, o velho rei alquebrado e com os cabelos todos brancos sentava-se num pequeno banco no corredor e esperava.

Uma vez por dia, o jovem rei muito ocupado saía da ala oeste para jogar uma partida de flipper com o pai. Quando digo flipper… quero apenas dizer uma partida de xadrez, uma pequena conversa, um passeio pelo jardim para podar as roseiras, e outras coisas da mais alta importância.

Durante os passeios, o velho rei não cessava de lembrar, em jeito de balanço, aquele famoso ataque terrorista numa tarde de Novembro. E não parava de repetir (porque já era bastante idoso):

— Ah, como tiveste razão! E como somos patetas, nós, os reis muito ocupados, quando pensamos que, se não trabalharmos vinte e quatro horas por dia, e até mais, nos assuntos do reino, este pode desaparecer, e nós com ele!

E olhava muitas vezes para os cabelos do filho, cheio de admiração:

— Como são bonitos os teus cabelos pretos! Como são brilhantes os teus olhos! Como és um bom rei!

O velho rei alquebrado e de cabelo todo branco suspirava ao pensar no seu antigo poder. Mas não era um suspiro de tristeza, porque se sentia muito orgulhoso do filho, que ia suceder-lhe. E ambos sorriam em silêncio, olhando juntos o pôr-do-sol sobre o reino.

O botão de reduzir mães

Num dia de grande discussão e de grande insolência para com a mãe, o pequeno Dudu apanhou uma bofetada na cara. Uma bofetada é uma coisa terrível. É vermelha, quente e humilhante. Fica a zumbir como um mosquito durante muito tempo e rebaixa uma pessoa ao nível das larvas. O pequeno Dudu cerrou os punhos e disse à mãe:

— Hás-de ver… Hás-de ver quando tu fores pequena e eu for grande. Vou esmagar-te como se fosses uma mosca. Não! Não brinques! Porque antes de te esmagar, hei-de arrancar-te as patas, os olhos e as asas.

Era, claro, uma frase terrível, mas o certo é que Dudu detestava as bofetadas. Não deixava de ter razão, aliás, mas, por vezes, a mão move-se sozinha e, na maior parte dos casos, os pais acabam por lamentá-lo depois.

Às vezes, o pequeno Dudu tinha sonhos de grandeza. Dizia para consigo: “Quando ela for velha e estiver toda engelhada como uma maçã, já não vai ter força nenhuma e eu hei-de devolver-lhe todas as bofetadas que ela me deu!”

Mas não teve de esperar tanto tempo! Naquela noite, enquanto ele dormia, o génio mau entrou no quarto. Sabes, o génio mau é aquele que se aproveita da cólera ou da tristeza para se meter facilmente na alma das crianças. O génio mau era feio, tinha olhos amarelos, antenas torcidas e maus pensamentos. Sentou-se na beira da cama de Dudu e cruzou as suas patas peludas.

— Hoje — disse o génio mau — graças à electrónica, à Internet e a outras coisas do género, os maus desejos tornam-se realidade. E murmurou: — Não precisas de esperar que a tua mãe fique velha e engelhada para seres maior do que ela!

E o génio mau sussurrou-lhe com ar maldoso:

— Tenho uma máquina de reduzir tamanhos.

— Pode-se reduzir mães? — perguntou Dudu ofegante.

Como resposta, o génio mau passou-lhe para a mão uma pequena máquina do tamanho de uma consola de bolso.

— Está aqui o botão de reduzir mães, que nós reservamos para todas as mães que recorrem a castigos corporais.

— O que são castigos corporais? — perguntou Dudu.

— Bofetadas, puxões de orelhas, palmadas no traseiro — enumerou o génio mau.

E os olhos amarelos brilharam-lhe de maldade.

— Cuidado, se carregares no botão, a tua mãe diminuirá dez vezes de tamanho, como uma camisola de algodão lavada a 120 graus!

— Ora, ora! — exclamou Dudu com os olhos a brilharem-lhe de medo e de desejo. — Não acredito. É impossível!

Os olhos amarelos faiscaram.

— Só tens de experimentar… Mas previno-te: quando a tua mãe estiver minúscula, terás de a proteger para que ela não desapareça.

E o génio mau despediu-se, gritando:

— Boa sorte, meu GRANDE Dudu!

E desintegrou-se numa nuvem de fumo.

O pequeno Dudu julgou, é claro, que tinha sonhado. Mas, no dia seguinte, quando viu debaixo da travesseira o aparelho de reduzir, com o seu grande botão, teve uma sensação estranha. E todo o dia sentiu dentro dele o peso do grande botão. À noite, quando já era altura de ir fazer os trabalhos de casa, o pequeno Dudu ainda se encontrava diante do televisor, e levou mais um puxão de orelhas.

— Desliga-me já esse televisor e vai estudar as lições! Eu disse JÁ— ralhou a mãe com voz grossa.

Ora acontece que Dudu era maluco por televisão. Tens de compreender o que se passa: as ideias misturam-se; os pequenos e elegantes neurónios, essas células do cérebro que se deslocam ligeiramente, tornam-se de repente gorduchas, e o cérebro fica cheio de papa de televisão. Depois… podes adivinhar o que aconteceu. Dirigiu-se para o quarto, ergueu a travesseira, agarrou no pequeno aparelho e carregou no botão. Ziiiiiiip! De repente, um clarão cegou- o e a mãe entrou na sala pouco mais alta do que uma ratinha.

— O que é que está a acontecer-me? — disse uma voz minúscula, porque agora tudo era minúsculo, até a voz, até os olhos, não maiores do que cabeças de alfinete, até as suas minúsculas mãos, que se agitavam como pontinhas de cotonete.

— É um aparelho de reduzir mães — disse Dudu, pondo os pés em cima do sofá. — Foi por causa daquela bofetada, percebes? Agora deixa-me ver o fim do episódio e volta para a tua cozinha, por favor.

A mãe aproximou-se, com um olhar furioso. Deu um salto para chegar ao telecomando, mas não conseguiu. Era, de facto, muito pequenina.

— Pufff — disse o pequeno Dudu, que continuava a ver o filme. Entretanto, a minúscula mãe dizia para si mesma, num minúsculo murmúrio interior:

“É um pesadelo, façamos de conta que nada aconteceu. Vou acabar por acordar.” Entrou então no quarto de banho para pôr a correr a água da banheira. Saltou para cima da torneira, escorregou e… desapareceu num jacto de água que saía da torneira.

— Socorro! Uma tempestade! — gritou a mãe. — O mar está bravo!

O pequeno Dudu lembrou-se dos conselhos do génio do mal. Recuperou no último momento a sua pequena mãe e secou-a com um guardanapo. Era a primeira vez que isto lhe acontecia.

— Estou farta! — choramingou a pequena mãe. — Farta de ser pequena! Queria que o teu pai voltasse de viagem. Sinto-me abandonada, sinto-me sozinha, pequena e frágil.

— Porque é que estás a dizer-me isso? — perguntou Dudu, surpreendido, ao ver pela primeira vez a mãe a choramingar. — Não tenho nada que ouvir essas coisas. Sou uma criança, sabes?

A minúscula mãe olhou-o com um ar furioso.

— Muito bem, hoje EU é que sou pequena, portanto eu é que tenho de ser protegida. Se não querias proteger-me, não tinhas nada que me diminuir de tamanho.

E a mãe contou-lhe como, por vezes, se sentia sozinha, abandonada e tão em baixo. O pequeno Dudu tinha vontade de a mandar calar. Perguntava-se se não seria melhor fechá-la no armário dos medicamentos, ao lado do frasco de álcool a 90 graus e da caixa de aspirina, mas receava que ela asfixiasse no escuro. Sim, ele tinha doravante a missão de proteger a sua pequena mãe.

Sentia um peso sobre os ombros. Quem eram os pais? Quem era o filho? No fundo, ele gostava mais do tempo em que a sua mãe era grande e não se queixava tanto. Como fazer, agora? Como quebrar o encantamento? Haveria um aparelho ampliador de mães? Virou a consola em todos os sentidos, mas só havia o grande botão de reduzir, que o olhava fixamente com um ar irónico.

À noite, a mãe jantou um grão de arroz, bebeu uma gota de água e deitou-se numa sapatilha acolchoada. Tristemente, o pequeno Dudu mastigou umas pipocas. Ao voltar para o quarto, desejou que aquela história não tivesse acontecido, e adormeceu rezando para que a sua mãe voltasse a ficar grande. No dia seguinte, a mãe tinha recuperado a sua estatura normal! Um metro e setenta, cinquenta e cinco quilos. Como estava bonita! E Dudu perguntava-se:

— Seria um pesadelo? Ou aquela história da máquina de reduzir tamanhos existiu realmente?

Quando Dudu ouviu a mãe dizer-lhe: — Despacha-te a vestir, por favor. Não quero voltar a zangar-me contigo. Não quero voltar a dar-te bofetadas. Tudo isso acabou! — Dudu compreendeu que a história do botão de reduzir tinha de facto acontecido. O pequeno Dudu levantou-se de um salto e aninhou-se nos braços da mãe.

— Nunca mais, nunca mais quero ser maior do que tu.

“É verdade”, pensou Dudu. “Há alturas em que as mães são gigantes, com a sua voz grossa, os seus olhos enormes, as suas imensas sobrancelhas carregadas. Mas há outras alturas em que são apenas maiores do que nós. E assim é bem melhor.”

A história de Cristina

Cristina é uma menina insignificante e apagada. Faz lembrar margaridas na berma do caminho, calcadas por quem passa — diz- me a Sr.ª Anders, de quem ouvi esta história.

— A Cris já tem seis anos e tem de ir para a escola — diz a mãe.
Mas a delegada de saúde disse que Cris ainda tinha de ficar mais um ano em casa, a brincar. Cris gatinha para debaixo da mesa, para junto de Nenna, a irmã de quatro anos, e aí brincam as duas. Cris é a Cris, e Nenna faz de mãe.

— Tens de ir para a escola! — diz a mãe. E só de pensar que Cris não pode ir para a escola, bebe imediatamente uns goles da garrafa.

* *

Um ano passa depressa. Cris já tem sete anos.

— Agora somos obrigados a aceitá-la — diz-lhe a delegada de saúde.

Cris vai então para a classe do Sr. Pusback, que é muito engraçado e de quem as crianças gostam muito. Um ano depois, na ficha de avaliação vem registado que Cris fez um primeiro ano satisfatório e que, por isso, passa de ano. Vai agora para a segunda classe, e Nenna entra para a primeira. Passado meio ano, o professor informa o director que Cris não consegue ler.

Cris vai fazer nove anos. E quem tem nove anos e não sabe ler tem de ir para uma escola de crianças com problemas de aprendizagem. Uma senhora que Cris não conhece vem à escola, fica sozinha com ela numa sala, faz-lhe muitas perguntas, manda Cris fazer diversas coisas, trabalhar com pequenas peças de madeira, observar imagens, desenhar linhas, pintar. Durante a manhã inteira, das oito às doze horas. A senhora faz um intervalo para fumar e Cris tem autorização para ir ao quarto de banho e comer o pão com manteiga, mas Cris não trouxe pão para comer.

Dias depois, chega uma carta com o carimbo do ministério.

— És tão palerma! — grita-lhe a mãe. Cris apanha um par de estalos que a atiram ao chão. Gatinha imediatamente com Nenna para debaixo da mesa. E brincam. Cris é Cris, e Nenna faz de senhora desconhecida que foi à escola e fuma.

Tempo depois, saem as avaliações. Nenna passa de ano, mas Cris não.

— Espera que já lhes digo! — exclamou a mãe. Cris não sabe por quem deve esperar. Pelo Sr. Pusbach, talvez? Para que ele lhe explique porque é que ela não conseguiu aprender a ler? Mas isso nem ele próprio sabe! Todas as outras crianças aprenderam a ler… Ou será que deve esperar pela senhora desconhecida? Para que lhe diga como conseguiu descobrir, das oito às doze horas, que Cris tinha pouca inteligência para frequentar uma escola normal. Calculou-lhe um QI de 54, o que está no limiar da imbecilidade.

Nenhum adulto consegue falar com alguém tão palerma, por isso Cris fica sem saber o que vinha na carta que o ministério enviou: que os pais demoraram demasiado tempo a enviar a autorização, que a escola do ensino especial já está cheia, e que por isso Cris tem de ir para uma escola para crianças com atrasos mentais.

No último dia de férias, chega, pela terceira vez, uma carta do ministério, onde é novamente dito que, uma vez que os pais demoraram a conceder a autorização, Cris já não pode ir à escola durante o próximo ano (suspensão da obrigatoriedade escolar, de acordo com o artigo 14 do regulamento escolar).

— Estão malucos! — grita a mãe, e o pai bebe logo de enfiada três copos de aguardente. Depois, atira o copo contra a parede, e Cris tem de varrer os vidros.

— A partir de hoje vão as duas para a segunda classe, para a Sr.ª Anders, e sentam-se uma ao lado da outra, percebido? — disse a mãe na manhã seguinte.

Cris e Nenna vão para o autocarro escolar, enquanto a mãe se lança para a bicicleta e voa para a escola. Quer dizer das boas ao director.

Mas o director está doente. A substituí-lo está a Sr.ª Anders, que fica tonta com tantas leis e parágrafos. Diz também que a situação em que Cris se encontra foi criada pela mãe. O que é que tem contra a escola de ensino especial da vila vizinha? Só se ouve falar bem daquela escola. Sim, sim, os edifícios são bonitos, diz a Sr.ª Blattsch, mãe de Cris… Já lá foi de bicicleta.

A campainha toca.

— Tenho de ir para as aulas — diz a Sr.ª Anders, que ainda acompanha a Sr.ª Blattsch pelo corredor e depois se dirige para a sala de aula. E o que vê? Cris e Nenna sentadas ao lado uma da outra, como se fossem uma só.

A Sr.ª Anders vai a correr ao recreio, mas já não vê a Sr.ª Blattsch, que saiu dali à velocidade do vento.

— Que descarada! — vocifera a Sr.ª Anders. — Deixar-me assim uma prenda destas, como se a minha turma não estivesse já suficientemente cheia. Não pense ela que vou deixá-la fazer o que quer! A Cris que pegue na sacola e vá para casa. Se o autocarro já tiver partido, que vá a pé.

A Sr.ª Anders volta a correr para a sala mas vê os olhos claros de Cris e o medo bem no fundo deles, e resolve não dizer nada. Pelo meio-dia, dez minutos antes de tocar, senta-se à secretária e escreve:

Cara Sr.ª Blattsch

Daqui em diante, deixe ficar a Cris em casa, tal como determinado pelo ministério.

O que é que a Cris vai fazer, se tiver de ficar em casa? — pergunta uma voz. Uma voz tímida e baixa. A Sr.ª Anders parece conhecê-la, já a ouviu mais vezes… — Vai brincar com garrafas vazias de aguardente? E as pessoas da aldeia, o que dirão? “Uma palerma. É tão burra, que nem a querem na escola!” Mas porque é que estás a escrever? Não lhe basta já a carta do Ministério? Ainda tens tu de te fazer importante?

Nunca na vida! Quem é que pensa numa coisa dessas?

Eu!

Eu? Quem és tu?

Prefiro dizer-te quem não sou. Bem, não sou aquela pessoa que aceita todas as ordens do ministério. Há muito, muito tempo, antes de te tornares uma funcionária do estado, também foste uma menina indefesa e insignificante como a Cris…

Eu fui como a Cris? Nunca, podes ter a certeza. Nunca!

Não precisas de ter medo que as crianças ouçam o que te digo. Para elas sou completamente invisível e inaudível. Claro que eras uma criança esperta, se não, não tinhas chegado a ser professora. Mas talvez te lembres ainda daquela pequena, a segunda a contar do fim, quando se tinham de colocar por ordem de tamanho. E nas aulas de ginástica tinham de se pôr por ordem…

…lembro-me, de facto…

E quem era aquela menina esquisita e fraquinha, que na escola não se atrevia a chegar junto do professor com o lápis da lousa partido…?

…também me lembro disso…

E quem é que era tão imbecil, desculpa a palavra, que não conseguia perceber que três mais três e quatro mais cinco pedem números determinados, e não uns algarismos quaisquer à escolha?…

Deixa-me rir! Era eu!

Era eu! Era eu! Era eu! Há tanto tempo que desejo que te lembres de mim e me chames pelo nome.
Oh, já está a tocar! Não posso dar à Cris a carta para entregar à mãe. Ainda não a acabei…

Rasga-a, por favor! Não é bom escrever cartas que não sirvam para o bem das crianças. Gostarias de ter levado uma carta dessas à tua mãe? Um professor não tem de ser só inteligente, garanto-te. A inteligência não chega. Também precisa de saber sentir o que sentia quando era criança…

* *

Olá! Hoje já é o quinto dia de aulas depois das férias, se não estou em erro.

Sabes o que é a imbecilidade? Fazes ideia do que é…

E tu, fazes?
Vou mostrar-te, presta atenção!

— Cris, ora lê o que está escrito no quadro.

— Vou ler-te em voz alta: mamã. Mmmmmaaaammmmãããã. Que sons é que ouves?

Pobre idiota! Tem a idiotice estampada na cara.

Ela pensa que vai apanhar já um estalo da mamã. Apaga a palavra mamã, Maria! Usa uma palavra de que todas as crianças gostam.

Sabes alguma?

Rir.

— Cris, olha. Vou apagar mamã e vou escrever uma palavra nova: rir. Tu gostas de rir, não gostas? Rrrrir. Que sons é que ouves?

— Vou escrever outra palavra: fazer. Fazer rir. Soa bem, não soa? Ora diz lá tu.

— Vou escrever outra palavra: desenhar. Também gostas de ddeeseenhnhaarrr! Ouves os sons?

Ergueu os cantos da boca dois milímetros. Isto não é um sucesso? Deixa-a desenhar.

— Agora podes fazer um desenho bonito, Cris.

Ainda me lembro de quando aprendi a ler. Quando pela primeira vez dei conta de que não só ouvia mas também via as letras das palavras. Fiquei tão feliz! Profundamente admirada com essa descoberta! Tive o sonho mais bonito de todos os meus muitos sonhos. O meu amigo Itze e eu navegávamos pelo céu num navio de nuvens e ouvíamo-las todas cantar… O que é que a Cris está a pintar? … Uma mesa, dois bancos por baixo, o risco da boca é redondo nas duas crianças; quer dizer que estão a rir. E também copiou uma palavra do quadro: rir. Como é que a Nenna aprendeu a ler?

Por acaso foi normalmente. Só que tomei mais cuidado no início, porque já sabia o que se passava em casa.

Tomar cuidado? Será que aprender a ler pode ser perigoso?

Se se perde a ligação, sim.

Se calhar a Cris também perdeu a ligação.

Com a Cris é mesmo falta de esperteza, acabaste agora de ver com os teus próprios olhos.

Talvez seja “ligação” e burrice. Quem está sempre a apanhar estalos facilmente apanha uma má ligação, mas será que também tem de apanhar a burrice da leitura? Deixa-a brincar debaixo da mesa com a Nenna ao jogo do “Vamos ouvir as letras”. A Nenna gosta da Cris e a Cris da Nenna. Aprende-se bem com alguém de quem se gosta. Deixa-me falar com a Nenna.

* *

“A mãe diz-me que não devo gastar tanto papel, porque o papel custa dinheiro. A Nenna tirou um bloco do balcão da loja para mim. É publicidade, e nisso podemos pegar, diz a Nenna. Faço desenhos pequeninos. Hoje vamos brincar a uma coisa nova, disse a Nenna. Hoje sou o bichinho do ouvido. Quando esse bichinho limpa as orelhas a alguém, essa pessoa consegue ouvir as letras das palavras.”

— Limpopo, limpopo, limpopo-te as orelhas. Ouves o p em limppo?

— Sim, ouço o p em limppo.

— E a Sr.ª Anders é boa. Não precisas de ter medo dela. Ouves o m em mmedo?

— Sim, ouço o m em mmedo.

— Portanto, não precisas de ter medo nenhum da Sr.ª Anders. Se errares, ela não se vai rir de ti. E os outros meninos também não se riem de ti, porque isso não é justo. Só o Ergon é que às vezes se ri, porque ouve mal. Mas depois também ouve da Sr.ª Anders.

— Com o Pusback riam-se sempre muito.

— Mas isso já passou — diz Nenna. — E como tu fazes uns desenhos tão bonitos, agora vou desenhar-te como se faz um p. Agora já consegues as duas coisas: ouvir e desenhar o p. Vamos brincar a sério às escolinhas. Se ouvires o que eu ouço em ppino, se ouvires sem ajuda, então és uma menina esperta.

— Pino, pino, P! P! Eu sou esperta!

* *

Quando foi a última vez que te ocupaste dela? Há quatro ou há cinco dias?

Tenho trinta e duas crianças na turma sem contar com a Cris. São trinta e duas crianças com as quais tenho de me ocupar, o que, por si só, já é muito trabalho e às vezes bem difícil de levar a cabo, acredita. Não me sinto responsável pela Cris. Não estudei idiotice.

Foi por isso que pedimos ajuda à Nenna.

Pedir ajuda? Mas que palavra tão forte para este caso. Permitimos que a Cris viesse para a escola. Ela porta-se bem, não perturba as aulas. Faz sarrabiscos e desenha. Sempre está melhor aqui do que se estivesse sentada em casa. Faço mais do que o que me é autorizado pelo ministério.

Não poderias ocupar-te dela só mais um pouco?

Mas como? Eu faço perguntas, ela não responde. Torno a perguntar, ponho-lhe a resposta na boca, por assim dizer. Ela continua sem responder. Quantas vezes tenho de repetir isto? Eu tenho de ver resultados, se não, um professor também não se sente motivado. E também não quero perder o meu tempo.

Será que cada funcionário público tem de se esquecer do que sentiu em criança?

Andas constantemente a lembrar-mo.

A Cris já cá está há dez dias. Em dez dias ainda não te disse uma palavra, mas o lápis dela fala com o papel. Vai até lá e dá uma olhadela.

Não vejo nada de interesse nos gatafunhos dela.

A última vez que olhaste para eles foi há cinco dias. Por favor, vai até lá outra vez…

PINO PATO

Os cantos da boca de Cris estão virados para cima. Quase sorri. Aponta com o lápis primeiro para uma palavra, depois para a outra. Os lábios abrem uma fresta.

Quer dizer-te alguma coisa, Maria. Depressa, baixa-te para perceberes…

Cris fala tão baixinho que nem na mesa do lado a ouvem.

— Se trocar este por este — diz ela batendo primeiro no A, depois no I — fica pano.

Mas isso é óptimo! É mesmo bom! Ela percebeu como funciona…

Se eu não tivesse vivido isto, disse mais tarde Maria Anders, acharia a história impossível. Uma coisa impossível como esta é o melhor que pode acontecer a um professor. Não se consegue esquecer, pensa-se e volta-se a pensar. Uma pessoa nunca se cansa de reflectir nesta história, acho eu. Na altura, falei abertamente com a Cris e com a Nenna. Expliquei-lhes qual era o problema dela, mas que ia conseguir aprender. Todas as manhãs, eu estudava uns minutos com ela, e Nenna fazia o mesmo à tarde. Foi simplesmente espantoso como Cris conseguiu aprender. Passados poucos meses já conseguia ler sozinha textos desconhecidos. Então, peguei no telefone, contactei o ministério e informei que tinha agido contra as ordens, e expliquei porquê. Disse ainda que a Cris agora já sabia ler, que aprendera com a ajuda da irmã. Meio ano mais tarde, a colega voltou a vir fazer um teste de inteligência e redigiu uma carta onde escreveu: “Cris desenvolveu uma boa técnica de leitura mas não entende nada do que lê.” Bem, este é o problema da ligação. Quando Cris sente que está a ser controlada, não abre a boca. Nem mesmo hoje. E já está com Nenna no quinto ano.

Irmela Wendt

Jutta Modler (org.)
Brücken Bauen
Wien, Herder, 1987
tradução e adaptação