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Archive for the ‘educação’ Category

Apenas de passagem

Tradição Judaica

Um turista americano, no século passado,
foi visitar o famoso rabino polaco,
Hofez Chaim.
Admirou-se ele ao ver que a casa do rabino
era pouco mais que um quarto
repleto de livros por toda a parte.
De mobília, tinha só uma mesa e um banco.
«Mas, rabino, onde está a sua mobília?»,
pergunta o americano.
«E a sua, onde é que está?», ecoou o rabino.
«A minha? Mas eu estou apenas de passagem;
sou um visitante na cidade»,
responde o americano.
«Pois eu também estou só de passagem»,
concluiu o Rabino.

Anthony de Mello
O canto do pássaro
Lisboa, Ed. Paulinas, 1998

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A igreja do rei

Tradição Cristã

Era uma vez um rei que quis edificar uma igreja magnífica em honra da Virgem, decretando que ninguém nos seus estados pudesse contribuir para a obra, ainda mesmo que com a mais pequena quantia. Quando o edifício se concluiu, enorme, soberbo, grandioso, mandou o rei gravar numa pedra de mármore uma inscrição em letras de oiro, que dizia que só ele, e mais ninguém, tinha levado a cabo aquela obra monumental. Mas, na noite seguinte, o nome do rei foi apagado da inscrição, substituído pelo de uma pobre mulherzinha do povo. O rei, ao outro dia, tornou a mandar gravar o seu nome na inscrição, e de novo foi substituído pelo da pobre mulher; à terceira vez, sucedeu o mesmo. O rei, cheio de cólera, ordenou então que lhe levassem a mulher à sua presença.

— Proibi a todos os meus vassalos — disse ele — que contribuíssem fosse com o que fosse para a edificação desta igreja; vejo que não cumpriste as minhas ordens.

— Senhor — respondeu a velhinha toda trémula – eu respeitei as vossas ordens, apesar da mágoa que sentia por não poder oferecer o meu pequenino óbolo em honra da Virgem, mas julguei não desobedecer a Vossa Majestade, deixando por vezes de jantar para comprar um pouco de feno, que eu levava às escondidas aos bois que conduziam as pedras destinadas à construção da igreja.

— O teu nome é mais digno do que o meu de figurar em letras de oiro na inscrição do monumento — disse-lhe o rei.

Mas, na noite seguinte, uma invisível mão restabeleceu na lápide da igreja o nome do rei, que desde então lá se conserva ainda.

Guerra Junqueiro
Contos para a Infância
Porto, Editora Justiça e Paz, 1987

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O saco de oiro

Tradição Hindu

Shiva e Shakti, o casal divino do Hinduísmo, observam a terra da sua morada celeste. Sentem-se impressionados com os desafios que os homens enfrentam, com a complexidade das suas reacções e com a omnipresença do sofrimento na experiência humana. Enquanto olham, Shakti observa um pobre homem a caminhar pela estrada. As roupas são andrajosas e as sandálias estão presas com corda. O coração de Shakti comove-se. Tocada pelas necessidades e privações dos seres humanos, pede ao seu divino marido que providencie algum oiro para o pobre homem. Shiva olha o velho demoradamente.

— Minha querida esposa, não posso fazê-lo.

Shakti espanta-se:

— Porque dizes isso? És o Senhor do Universo. Com certeza que podes fazer uma coisa tão simples.

— Não posso dar-lhe o oiro porque ele não está preparado para o receber.

Shakti fica zangada:

— Queres dizer que não estás disposto a deixar cair um saco de oiro no caminho dele?

— Claro que estou, mas não vai adiantar nada.

— Por favor, esposo meu.

Shiva deixa cair um saco de oiro no caminho do velho.

O homem pergunta-se, enquanto caminha, se terá jantar para essa noite ou se passará fome novamente. Ao virar da esquina, vê que há algo no caminho.

— Que sorte a minha! É uma pedra enorme. Se não a tivesse visto, ainda estragava mais as sandálias.

Passa cuidadosamente por cima do saco e continua o seu caminho.

Elisa Davy Pearmain (ed.)
Doors to the soul
Cleveland, The Pilgrim Press, 1998
tradução e adaptação

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Uma nota de sabedoria

Tradição Zen

Ninguém sabe dizer o que aconteceu
com Kákua, depois que ele deixou
o Palácio Imperial.
Diz a história que Kákua foi o primeiro japonês
que estudou Budismo Zen na China.
Nunca viajou; meditava apenas.
Sempre que o encontravam, pediam-lhe
que saísse a pregar. Mas ele dizia
meia dúzia de palavras e desaparecia
para outro ponto da floresta,
tornando-se mais difícil encontrá-lo.
Um dia, tendo voltado ao Japão, o Imperador
pediu-lhe que pregasse o Budismo Zen
a ele próprio e a toda a sua corte.
Kákua ficou de pé, muito calado,
diante do Imperador. Depois de ouvi-lo,
tirou das dobras do seu manto
uma flauta que ali tinha escondida
e soprou nela apenas uma nota.
Inclinou-se, depois, profundamente,
em saudação ao Imperador, e foi-se embora.

Anthony de Mello
O canto do pássaro
Lisboa, Ed. Paulinas, 1998

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Uma chávena de chá

Tradição Zen

Um sábio japonês, conhecido pela profundidade e justeza das suas doutrinas, recebeu a visita de um professor universitário que tinha ido inquirir acerca dos seus pensamentos.

O professor universitário tinha fama de ser orgulhoso, nunca prestando atenção às sugestões dos outros e julgando-se sempre na posse da verdade.

O sábio quis dar-lhe uma lição. Para tal serviu-lhe uma chávena de chá.

Começou por deitar o chá pouco a pouco. E logo a chávena se encheu.

O sábio, fingindo não dar conta de que a chávena já estava cheia, continuou a deitar o líquido até que este transbordou e começou a molhar a toalha. O velho japonês mantinha a sua expressão serena e sorridente.

O professor universitário viu o chá a transbordar e ficou sem perceber como era possível uma tal distracção, tão contrária à norma das boas-maneiras. Mas, a dado momento, não pôde mais conter-se e disse ao sábio:

— Já está cheia! Não cabe mais chá!

O sábio, imperturbável, disse-lhe então:

— Tal como esta chávena, também tu estás cheio da tua cultura, das tuas opiniões, de um amontoado de conjecturas eruditas e complexas. Como posso eu falar-te da sabedoria, que só é compreendida pelas pessoas simples e disponíveis, se antes não esvaziares a tua chávena?

Pedrosa Ferreira
Educar contando
Porto, Ed. Salesianas, 1995

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Nem só de pão

— Mas onde é que ele está? — pergunta o pai. — A escola já acabou há muito tempo!

A mãe vai, uma vez mais, ver o horário e meneia a cabeça. Percebe-se uma pontinha de medo na sua voz quando diz:

— Geralmente, já cá costuma estar…

— Não — o pai meneia a cabeça. — Não é bem assim. Lembras-te de que ele ainda no outro dia voltou a…

— Tirou a joaninha do passeio e foi pô-la na relva…

— Exactamente — diz o pai. — E não foi há tanto tempo assim que ele…

— Eu sei — diz a mãe. — Que ele queria tirar a minhoca do bico do melro…

— Então e não tirou a borboleta da poça de água?

— Salvou o abelhão de morrer na teia de aranha, queres tu dizer…

— Não interessa — diz o pai. — De qualquer forma, ele ainda não chegou.

“Está a demorar tanto…” pensa a mãe. “Tanto…”

Já tinha ido à janela espreitar primeiro para a rua, na direcção de onde ele costumava vir, depois para o outro lado e ainda para o parque em frente. Mas agora não podia deixar o que estava a fazer na cozinha

— Pronto, vou eu, então — consola-a o pai. — Eu encontro-o já!

“Se não tiver acontecido nada…” pensa a mãe.

Nesse momento, tocam com força à campainha. Os pais acorrem à porta. Matias precipita-se para dentro. O pai e a mãe olham para o filho, depois entreolham-se. O que irá ele dizer? Solta-se uma torrente de palavras:

— Sabem? Sabem? — exclama, ainda ofegante.

— Não —diz o pai afavelmente. — Não sabemos. Infelizmente, nós os dois não sabemos de nada.

— Ali em baixo está uma pomba que só tem uma pata!

Matias lança a novidade com os olhos arregalados de espanto e visivelmente excitado.

— Só tem uma pata, aquela pomba — continua. — A pata direita, e de cada vez que quer chegar à comida, bem… uma mulher estava a dar-lhe comida e vinham sempre as outras todas e eram muito mais rápidas. Eu dizia — xô, xô, — mas só assustava a que tinha uma pata e ela fugia… Voar, voava bem, mas no chão… e as outras… as outras…

As palavras perderam-se. Fica apenas um filho consternado que olha, desesperado, ora para a mãe, ora para o pai, durante muito tempo.

— E foi por isso que vieste tão tarde da escola? — pergunta o pai afavelmente — Outra vez?
Matias diz que sim com a cabeça.

— As pombas com duas patas roubam o pão à que só tem uma. Ela não é suficientemente rápida… é lenta, muito… demasiado lenta…

Os olhos assustados abrem-se ainda mais.

— Vai morrer à fome? — pergunta.

— Não, não vai — diz o pai com voz determinada. — A mãe já vai buscar alguma coisa à cozinha — e deita-lhe um olhar. A mãe defende-se:

— Agora vamos comer, se não, as panquecas…

Mas o pai nem sequer ouviu.

— …já traz pão da cozinha — diz.

— Mas aquecidas não são tão boas!

— …pão da cozinha, e depois vamos lá ver o que podemos fazer com a pomba, não é?

O pai parece muito divertido ao falar. A mãe traz pão da cozinha. Matias meneia a cabeça algumas vezes. Ainda está perturbado com o que acabara de ver.

— …e depois vêm sempre as pombas com duas patas — continua — e a que só tem uma encolhe-se. Salta para o lado, cheia de medo e…

— Onde é que ela está? — quer saber o pai.

Matias conduz os pais até ao banco verde perto dos arbustos. As pombas já estão à espera, sacodem as asas e esvoaçam, debicam o pão que as pessoas lhes deitam, gostam de ir comê-lo à mão.

— Agora vamos ver se juntos conseguimos — diz o pai com energia.

Ah! A pomba que só tem uma pata também aparece. Aproxima-se aos saltinhos, com dificuldade. Matias aponta para ela, saltita de um pé para o outro, aos gritos:

— Ali! Está ali! Estás a vê-la? Aquela ali! Aquela!

Não é mesmo nada fácil ajudá-la. Sozinho, Matias nunca teria conseguido dar-lhe de comer. — Xô, xô! — faz ele. Muitas vão embora, enquanto a pomba doente fica junto do pai. As outras também recebem alguma coisa, mas ela recebe um verdadeiro banquete.

Matias está feliz. Ao sentar-se à mesa para almoçar, diz-lhe o pai:

— Se tivesses vindo logo… quero dizer, se nos tivesses chamado logo depois da escola, não é… não teria sido bem melhor?

Matias pensa e responde:

— É provável. És capaz de ter razão, mas agora, ela também já tem a barriga cheia.

Lutz Besch
Jutta Modler (org.)
Brücken Bauen
Wien, Herder, 1987

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A batalha de Natal

— Só mais seis dias — constata Neli, tentando em seguida assobiar Noite Feliz.

— Ainda seis dias — repete a mãe pensativamente.

A voz não soa alegre. Após uma curta pausa, prossegue, suspirando. – Se tudo tivesse já passado!

Com o assobio suspenso no ar, Neli olha para a mãe com ar estupefacto.

— Então não estás contente?

— Sim, mas já estou pelos cabelos com esta agitação toda!

Como Neli não tem aulas à tarde, vai patinar com uma amiga e, mais lá para a noite, dirige-se ao supermercado onde a mãe trabalha. Há tanto movimento que mais parece estar-se numa colmeia. A mãe encontra-se sentada numa cadeira giratória diante de uma das seis caixas registadoras. Os produtos chegam-lhe num tapete rolante e, enquanto a mão direita está pousada no teclado e marca os números, a mão esquerda roda os produtos de forma a poder ler os números, e, em seguida, coloca-os, produto a produto, no carrinho de compras. Quando acaba de marcar tudo, a mão direita carrega na tecla do total e rasga o talão, enquanto a esquerda afasta o carro cheio e puxa o próximo, vazio, para junto dela.

— Que bem que fazes isso — dissera-lhe Neli uma vez. — Eu faria tudo devagar, assim: tipp… tipp … … e, ainda por cima, metade saía mal.

— Ora — dissera a mãe a rir. — É uma questão de treino. Quando comecei, também não era assim tão despachada. Não encontrava a etiqueta com o preço, e muitas vezes carregava nas teclas erradas e as pessoas resmungavam porque tinham de esperar. Mas agora já quase consigo fazer isto automaticamente.

— Como um robô! — Neli riu-se.

Um robô como mãe? Nunca teria dor de cabeça, nem à noite estaria tão cansada. Mas um robô não tem coração. Por isso, Neli prefere a mãe tal como é, mesmo quando certas noites quase nem consegue falar de tão cansada que está!

Só mais quatro dias.

Só mais três.

As filas nas caixas eram cada vez mais longas. As pessoas abastecem-se de comida como se o Natal durasse meio ano. Com um ruído sibilante, as portas automáticas abriam-se e fechavam-se, abriam-se e fechavam-se. A mãe sentia nas costas a corrente de ar e os cartões pendurados no tecto balançavam de um lado para o outro.

Um sino de Natal, por cima da cabeça da mãe tinha escrito a vermelho: PROMOÇÃO: Bombons, 250 gr, a preço especial.

Próximo, balançava um anjo de papel com uma faixa nas mãos, como nas igrejas, mas onde não estava escrito Paz na terra aos homens de boa vontade, mas sim Fiambre para o Natal a 15,80/Kg.

Os altifalantes pingavam música de Natal:
Noite feliz…
Cabeça de anho
Noite feliz…
Café suave
Papel higiénico de três folhas
O Senhor …
Lenços com monograma
Mostarda
Nasceu em Belém…

A mãe gemia e, com um movimento rápido, limpava o suor do lábio com as costas da mão. Os clientes, impacientes, esperavam, apoiando-se ora numa, ora na outra perna. De olhar ausente, nem olhavam para a senhora da caixa, pensando no regresso com os sacos pesados, o eléctrico cheio.

Uff!

Só mais três dias, e acaba tudo.

— Vou fazer um jantar como o do ano passado — disse à noite a mãe, virando-se para a Neli — Peru assado com a laranja e batatas assadas e, como sobremesa, rabanadas e bolo-rei.

No dia 24 de Dezembro, a loja só estava aberta até às quatro horas da tarde. Em seguida, os empregados podiam comprar, com um desconto de 15%, os produtos que sobravam. A mãe de Neli achava que valia a pena, por isso tinha guardado as compras maiores para essa altura: uma pasta escolar para Neli, uma boneca, lápis de cor, um anoraque para o pai, a comida para a ceia de Natal.

Na sala do pessoal, havia um lanche para todos os empregados.

— A batalha de Natal foi mais uma vez vencida — repetia o chefe do pessoal. Dizia, depois, mais umas palavras elogiosas e eram servidos pãezinhos com fiambre e um copo de vinho.

Após o lanche, a mãe de Neli deixou ficar os gordos sacos de compras esquecidos na sala do pessoal. Só reparou quando já estava na paragem do autocarro. “As minhas prendas! Todas aquelas coisas boas para a ceia!” – pensou assustada.

Mas a loja já estava fechada e, antes do dia 27, não se voltava a lá entrar. Foi de mãos vazias que chegou a casa.

Nessa noite, apesar de tudo, festejaram o Natal. O pai acendeu as velas da árvore de Natal e Neli recitou um poema. Só se lembrou das duas primeiras estrofes e depois encravou, mas a mãe achou-o muito bonito e o pai nem reparou que ainda continuava. O jantar foi mais curto do que o planeado. Por sorte, a mãe já tinha comprado o assado e havia batatas em casa, mas não houve entrada nem sobremesa. Trincaram simplesmente nozes e comeram maçãs.

— Assim, não fico com o estômago tão pesado como no ano passado — disse o pai. — Comidas pesadas não me assentam bem.

Também não havia muito que desembrulhar.

Por isso, sobrou tempo. Muito tempo.

Neli foi buscar o jogo Memory que recebera no Natal anterior. Durante o ano inteiro, esperara, em vão, todos os domingos, que alguém tivesse tempo para jogar com ela.

Agora, os pais tinham tempo.

O pai nunca tinha jogado Memory. Ao fim de algum tempo, Neli já tinha encontrado sete pares de cartas, a mãe três, e o pai, que geralmente quer ganhar sempre, procurava constantemente no sítio errado.

Tentava ajudar-se com truques, pondo, sem ninguém dar conta, migalhinhas de pão em cima das cartas que tinha decorado, ou pousava as mãos na mesa, de tal forma que o polegar indicava a direcção em que estava uma determinada carta. Neli descobriu-lhe a jogada. Jogaram mais duas ou três vezes e o pai não se zangava por perder sempre. Depois, ainda jogaram o jogo do assalto.

À meia-noite, o pai apagou a luz e ficaram a olhar pela janela. A neve reflectia uma luz clara e ouviam-se os sinos a tocar.

— A esta hora, há quase dois mil anos, nasceu Jesus — disse a mãe, e Neli reparou como ela afinal sempre estava contente por ser Natal.

Ao ir para a cama, Neli disse:

— Este foi um Natal muito bonito.

— A sério? — perguntou a mãe admirada. — Mas não houve ceia nem prendas quase nenhumas.

— Mas houve muito tempo — respondeu Neli.

Jutta Modler (org.)
Brücken Bauen
Wien, Herder, 1987
Tradução e adaptação

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