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Archive for the ‘conto’ Category

A igreja do rei

Tradição Cristã

Era uma vez um rei que quis edificar uma igreja magnífica em honra da Virgem, decretando que ninguém nos seus estados pudesse contribuir para a obra, ainda mesmo que com a mais pequena quantia. Quando o edifício se concluiu, enorme, soberbo, grandioso, mandou o rei gravar numa pedra de mármore uma inscrição em letras de oiro, que dizia que só ele, e mais ninguém, tinha levado a cabo aquela obra monumental. Mas, na noite seguinte, o nome do rei foi apagado da inscrição, substituído pelo de uma pobre mulherzinha do povo. O rei, ao outro dia, tornou a mandar gravar o seu nome na inscrição, e de novo foi substituído pelo da pobre mulher; à terceira vez, sucedeu o mesmo. O rei, cheio de cólera, ordenou então que lhe levassem a mulher à sua presença.

— Proibi a todos os meus vassalos — disse ele — que contribuíssem fosse com o que fosse para a edificação desta igreja; vejo que não cumpriste as minhas ordens.

— Senhor — respondeu a velhinha toda trémula – eu respeitei as vossas ordens, apesar da mágoa que sentia por não poder oferecer o meu pequenino óbolo em honra da Virgem, mas julguei não desobedecer a Vossa Majestade, deixando por vezes de jantar para comprar um pouco de feno, que eu levava às escondidas aos bois que conduziam as pedras destinadas à construção da igreja.

— O teu nome é mais digno do que o meu de figurar em letras de oiro na inscrição do monumento — disse-lhe o rei.

Mas, na noite seguinte, uma invisível mão restabeleceu na lápide da igreja o nome do rei, que desde então lá se conserva ainda.

Guerra Junqueiro
Contos para a Infância
Porto, Editora Justiça e Paz, 1987

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O saco de oiro

Tradição Hindu

Shiva e Shakti, o casal divino do Hinduísmo, observam a terra da sua morada celeste. Sentem-se impressionados com os desafios que os homens enfrentam, com a complexidade das suas reacções e com a omnipresença do sofrimento na experiência humana. Enquanto olham, Shakti observa um pobre homem a caminhar pela estrada. As roupas são andrajosas e as sandálias estão presas com corda. O coração de Shakti comove-se. Tocada pelas necessidades e privações dos seres humanos, pede ao seu divino marido que providencie algum oiro para o pobre homem. Shiva olha o velho demoradamente.

— Minha querida esposa, não posso fazê-lo.

Shakti espanta-se:

— Porque dizes isso? És o Senhor do Universo. Com certeza que podes fazer uma coisa tão simples.

— Não posso dar-lhe o oiro porque ele não está preparado para o receber.

Shakti fica zangada:

— Queres dizer que não estás disposto a deixar cair um saco de oiro no caminho dele?

— Claro que estou, mas não vai adiantar nada.

— Por favor, esposo meu.

Shiva deixa cair um saco de oiro no caminho do velho.

O homem pergunta-se, enquanto caminha, se terá jantar para essa noite ou se passará fome novamente. Ao virar da esquina, vê que há algo no caminho.

— Que sorte a minha! É uma pedra enorme. Se não a tivesse visto, ainda estragava mais as sandálias.

Passa cuidadosamente por cima do saco e continua o seu caminho.

Elisa Davy Pearmain (ed.)
Doors to the soul
Cleveland, The Pilgrim Press, 1998
tradução e adaptação

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Uma nota de sabedoria

Tradição Zen

Ninguém sabe dizer o que aconteceu
com Kákua, depois que ele deixou
o Palácio Imperial.
Diz a história que Kákua foi o primeiro japonês
que estudou Budismo Zen na China.
Nunca viajou; meditava apenas.
Sempre que o encontravam, pediam-lhe
que saísse a pregar. Mas ele dizia
meia dúzia de palavras e desaparecia
para outro ponto da floresta,
tornando-se mais difícil encontrá-lo.
Um dia, tendo voltado ao Japão, o Imperador
pediu-lhe que pregasse o Budismo Zen
a ele próprio e a toda a sua corte.
Kákua ficou de pé, muito calado,
diante do Imperador. Depois de ouvi-lo,
tirou das dobras do seu manto
uma flauta que ali tinha escondida
e soprou nela apenas uma nota.
Inclinou-se, depois, profundamente,
em saudação ao Imperador, e foi-se embora.

Anthony de Mello
O canto do pássaro
Lisboa, Ed. Paulinas, 1998

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O homem que pintou o coelho

Tradição Chinesa

Era uma vez, na longínqua China, um homem cuja ocupação preferida era pintar.

Pintava pássaros. Pintava lebres. Pintava os peixes no ribeiro.

Os vizinhos e os amigos e todas as crianças da aldeia elogiavam-no e diziam:

— Os animais que pintaste parecem mesmo verdadeiros.

O homem tornou-se orgulhoso. E pensava:

— Ninguém no mundo consegue pintar animais como eu. O meu desejo era que os meus animais ganhassem vida.

Então, os animais pintados ganharam vida.

Os pássaros abriram as asas. Os peixes agitaram as barbatanas. As lebres espetaram as orelhas e farejaram com os seus narizes.

E saltaram para fora dos desenhos.

— Oh! — disse o homem satisfeito.

Mas, ao olhar com mais atenção, assustou-se. Os pássaros batiam as asas pesadamente e não se aguentavam no ar.

Os peixes, que tinham saltado para o ribeiro, nadavam de barriga para cima.

As lebres coxeavam.

O homem chorou ao ver os pobres animais. E disse:

— Não os pintei suficientemente bem. Que o meu desejo só se realize quando eu souber pintar bem.

O homem recomeçou a pintar. Começava de manhã cedo até à tardinha.

Afadigava-se como um lavrador no campo, como um trabalhador numa pedreira, como um boi à frente do carro. Quando os vizinhos o elogiavam, meneava a cabeça.

— Ainda não está suficientemente bem — dizia.

O homem foi envelhecendo. Esqueceu o desejo que tinha. Desenhava o sol e, enquanto desenhava, alegrava-se por ele existir. Desenhava as pedras e, enquanto desenhava, alegrava-se por elas. Tornou-se o pintor mais famoso do país.

O seu jardim estava cheio de crianças que o observavam enquanto pintava, e ele mostrava-lhes como eram lindas as coisas.

Um dia, uma menina abeirou-se dele e disse-lhe:

— Estou triste, e sabes porquê? Todos os outros meninos têm animais que podem acariciar e amar. Só eu é que não. Gostava tanto de ter um coelho. Podes desenhar-me um? Ao menos fico com um desenhado…

O velho homem pegou no pincel e desenhou um coelho. A menina disse:

— Faz-lhe uma mancha preta no nariz. Assim, fica exactamente como eu queria.

O velho homem desenhou uma mancha preta no nariz do coelho e sentiu que o nariz ganhava vida.

O nariz farejou. As orelhas compridas espetaram-se e um tremor percorreu-lhe o pêlo. O coelho virou a cabeça para a menina e, com um grande salto, pulou do desenho para os seus braços.

A menina encostou a cara ao pêlo macio.

— Que coelho tão lindo e amoroso! — disse. — Obrigada!

E saiu dali com o coelho, a correr tão contente, que nem uma só vez se voltou para o velho. Este ficou sentado à sua mesa, quieto e feliz, como se tivesse adormecido.

Lene Mayer-Skumanz (org.)
Jakob und Katharina
Wien, Herder Verlag, 1986
tradução e adaptação

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Uma chávena de chá

Tradição Zen

Um sábio japonês, conhecido pela profundidade e justeza das suas doutrinas, recebeu a visita de um professor universitário que tinha ido inquirir acerca dos seus pensamentos.

O professor universitário tinha fama de ser orgulhoso, nunca prestando atenção às sugestões dos outros e julgando-se sempre na posse da verdade.

O sábio quis dar-lhe uma lição. Para tal serviu-lhe uma chávena de chá.

Começou por deitar o chá pouco a pouco. E logo a chávena se encheu.

O sábio, fingindo não dar conta de que a chávena já estava cheia, continuou a deitar o líquido até que este transbordou e começou a molhar a toalha. O velho japonês mantinha a sua expressão serena e sorridente.

O professor universitário viu o chá a transbordar e ficou sem perceber como era possível uma tal distracção, tão contrária à norma das boas-maneiras. Mas, a dado momento, não pôde mais conter-se e disse ao sábio:

— Já está cheia! Não cabe mais chá!

O sábio, imperturbável, disse-lhe então:

— Tal como esta chávena, também tu estás cheio da tua cultura, das tuas opiniões, de um amontoado de conjecturas eruditas e complexas. Como posso eu falar-te da sabedoria, que só é compreendida pelas pessoas simples e disponíveis, se antes não esvaziares a tua chávena?

Pedrosa Ferreira
Educar contando
Porto, Ed. Salesianas, 1995

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O caderno estragado

Bárbara estava furiosa. Já tinha o dia inteiro estragado. Não, o ano inteiro!

Começara o novo ano escolar com cadernos novos, lápis de cor novos e uma caneta de tinta permanente novinha em folha. Tomara a resolução de anotar e aprender tudo direitinho, logo desde o primeiro dia. Principalmente em Alemão. A professora Joana tinha sido tão simpática! E não é que Doli passou o tempo a segredar-lhe ao ouvido a letra daquela canção que decorara no Verão? Claro que a professora Joana disse imediatamente:

— Vocês não preferem ouvir, em vez de conversarem uma com a outra?

“Vocês”! Ela até estava a prestar atenção à professora! Toda a atenção que conseguia, aliás, só que o ouvido esquerdo estava ocupado por Doli, que lhe sussurrava:

Mar de prata e areia branca
Que saudades da praia…
Bárbara já estava a ficar surda com os cochichos. Que texto mais estúpido!

— Chiu! — fez ela.
A professora Joana lançou-lhe um olhar de advertência.

“Mas porque é que fui sentar-me ao lado da Doli?”

Doli segredava:

— Espera, eu escrevo-te o texto.

Pegou na caneta de tinta permanente de Bárbara, deu algumas voltas à carapuça, e foi então que tudo aconteceu. Um enorme pingo de tinta caiu no caderno de Bárbara e espalhou-se. Um borrão de tinta escuro e horrível.

Bárbara arrancou a caneta das mãos de Doli.

— Estás maluca?

— Caladas! — gritou a professora. — Se têm mesmo de discutir, discutam no intervalo! Agora está calada, Bárbara, se não, vou ter de vos separar!

Bárbara recostou-se para trás e cruzou os braços.

“Ora isso é que seria uma óptima ideia, tirar-me daqui a Doli”, pensou, fixando o borrão com um olhar irritado. O caderno de alemão estava estragado e a professora estava zangada com ela.

Quando chegaram à paragem do autocarro, já lá estava Francisco, o irmão de Bárbara. Bárbara correu para ele e cumprimentou-o. E, no autocarro, sentou-se ao seu lado, coisa que nunca fazia. Francisco admirou-se. Depois, viu a cara de Doli e percebeu que as duas meninas estavam zangadas uma com a outra. Bárbara fazia de conta que Doli não existia.

Francisco já estava habituado. Aquelas coisas geralmente demoravam um dia ou dois e, no fim, as duas voltavam a ser as melhores amigas uma da outra.

— Como é que correu a escola? — perguntou a irmã. — O Manolo voltou a aborrecer-vos?

Francisco assentiu com a cabeça.

— Manolo, o parolo.

Bárbara riu alto. Doli que ouvisse só como ela estava a divertir-se com o irmão.

— Imagina o que me aconteceu — contou Francisco. — Fiz um borrão de tinta no caderno de matemática do Ricardo!

— Tu?!

— Sim. Tem de se ter cautela com as canetas de tinta permanente. Quando se roda a carapuça na direcção contrária, a tinta sai toda! — Francisco riu-se. — Bem, o Ricardo ficou tão zangado! Mas eu peguei no caderno e do borrão fiz um polvo.

— Um quê?

— Um polvo… e à volta desenhei uma paisagem subaquática, com corais e tudo, e pintei uns peixes! Ficou fantástica!

Francisco estava convencido de que um dia iria tornar-se um grande artista. E sabia desenhar mesmo bem.

— A princípio, o Ricardo queria arrancar a folha, mas depois acabou por deixá-la ficar e agora até está todo orgulhoso dela.

Bárbara olhava pensativa pela janela. Se nesse momento tivesse contado: “Olha, a Doli fez-me um borrão no caderno de Alemão! E estragou-me o dia!”, provavelmente o Francisco não ia compreender o motivo do alvoroço. Até mesmo Bárbara já não percebia porque se tinha zangado tanto.

“A Doli nem fez de propósito!”, pensava.

À saída do autocarro, Doli queria ir-se embora o mais depressa possível. Bárbara chamou-a.

— Espera! Vens hoje à tarde a minha casa?

Doli parou indecisa.

— Prometeste-me que ias escrever no meu álbum novo!

Doli percebeu que Bárbara queria fazer as pazes com ela.

— Está bem, escrevo-te um poema fantástico… para compensar o caderno estragado!

— O quê? Ah, estás a falar da mancha de tinta! — disse Bárbara. — Não te preocupes. O Francisco vai fazer-me dali um quadro. Ele tem muito jeito para essas coisas.

Monika Pelz

Jutta Modler (org.)
Frieden fängt zu Hause an
München, DTV Junior, 1989
Tradução e adaptação

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